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2. FUNDAMENTOS E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

2.2 Técnica para análise dos dados: a Análise de Conteúdo

2.2.3 Tratamento dos Resultados e Interpretação

Tomando como pressuposto as Categorias de Análise, foram analisadas as obras dos Autores Fundacionais buscando identificar alguma correspondência em suas abordagens com a Organização do Conhecimento em ambientes multidimensionais.

No capítulo 6, é apresentado o resultado dessa análise com a sistematização dos princípios classificatórios. Primeiramente, são apresentadas as inferências e interpretações que estão além das Categorias de Análise, ressaltando aspectos encontrados nas obras que já demonstravam preocupações multidimensionais. Na seção 6.1, são sistematizados os princípios classificatórios de acordo com cada Categoria de Análise. Para melhor visualização dos resultados, é apresentado na seção 6.2 um quadro sintético com as Categorias e os princípios identificados.

3 ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO: ABORDAGEM HISTÓRICA

Filósofos, pensadores e eruditos desde a Antiguidade, utilizaram do conhecimento que possuíam, por meio de suas observações da realidade, para agrupar os saberes sobre os objetos no mundo. O modo como entendiam a formação do conhecimento foi identificado como escolas de pensamento existentes nos diversos períodos filosóficos. Seus escritos se destacavam pela tentativa de apresentar um ordenamento do conhecimento coerente com seus valores e com sua visão de mundo. Estruturavam o conhecimento buscando um modelo pedagógico que demonstrasse o relacionamento e as associações dos objetos no mundo, de modo que formasse um todo coerente que facilitasse a comunicação, o ensino e o aprendizado.

É de Maltby (1975, p. 109) a opinião de que a história da classificação, efetivamente escrita, deve ser a história de todas as tentativas de organizar o pensamento humano, iniciadas desde quando o homem começou a se esforçar para distinguir e entender as partes de seu universo, para isso ele formou consciente ou inconscientemente algum sistema em que essas partes estavam relacionadas uma a outra.

Com objetivo de apresentar as teorias subjacentes às classificações bibliográficas desenvolvidas no séc. XIX e XX, se faz necessário esboçar historicamente como o mapa do conhecimento foi se configurando ao longo do tempo, quais elementos são utilizados das classificações do conhecimento e das ciências nas classificações bibliográficas, qual foi o contexto histórico e social dos seus idealizadores e sob quais pressupostos filosóficos essas estruturas foram construídas. Maltby (1975, p. 29) sinaliza que classificacionistas como Richardson e Bliss acreditavam que poderiam utilizar a base das classificações construídas por filósofos e cientistas para classificação de livros, sendo esta fundamentalmente uma classificação do conhecimento ou de ideias, seriam necessárias adaptações para alcançar a complexidade do conhecimento como encontrado nos livros.

Esse caminho vai desde as classificações filosóficas ou do conhecimento, passa pelas classificações das ciências ou dos saberes até a classificação bibliográfica e bibliotecária; situando em períodos históricos, começam na Antiguidade clássica com destaque para as do período Renascentista

até as do início do século XX. Tomando como base Dahlberg4 (1976) Parrochia (2017) identifica quatro períodos como marcantes para a história da classificação: o primeiro vai da Antiguidade à Renascença, inicia com as classificações de Platão e Aristóteles até o século XVIII, são classificações hierárquicas, finitas e, geralmente, apoiadas em apenas um critério; o segundo período vai do início ao final do séc. XVIII, é a era clássica, são classificações que possuem vários critérios, é o período de desenvolvimento das taxonomias da fauna e da flora, destacam-se as regras estabelecidas por Kant; o terceiro, é o início da modernidade, abrange o final do século XVIII ao início do XIX, caracterizado pelas classificações da química de Lavoisier e Mendeleyev, pelas classificações cruzadas de múltiplas ordens; e o último, o século XX marcado pela classificação facetada, pelos modelos matemáticos e as ciências computacionais. Com o apoio da periodicidade histórica descrita acima, ainda que não seguindo os mesmos fatos “ipsis litteris”, é traçado nesse capítulo a história das classificações, com especial ênfase nos princípios de divisão utilizados nas classificações filosóficas e científicas que influenciaram as classificações bibliográfica e bibliotecária.

Navarro (1995, p. 52) estabelece três pressupostos básicos para este tipo de estudo: 1º) classificação das ciências é uma questão filosófica, os estudos são centrados em uma concepção do saber e nas relações que existem entre os diversos saberes científicos e entre esses e os conhecimentos não científicos; 2º) os mecanismos de sua evolução estão de acordo com o conceito de ciência dominante na comunidade científica de cada época; e 3º) a pertinência da classificação deve ser sempre relacionadas a uma perspectiva história e cultural.

Observando esses pressupostos, a escrita deste capítulo apresenta um trajeto com a história das principais tentativas de ordenação do conhecimento. Inicia com a classificação filosófica em período clássico e medieval, aborda na segunda seção a classificação das ciências no período da Renascença, na terceira seção trata das classificações do séc. XVIII e XIX com o movimento enciclopédico e os ideais do Iluminismo europeu, na quarta seção relatam-se as classificações científicas ou sistemas conceituais de ciências no Século XIX e termina com os esquemas de classificação bibliográfica e bibliotecária de abrangência geral, a abordagem facetada de Ranganathan e as do CRG com a classificação por fenômenos.

Bliss (1929, p. 307) dedica uma boa parte do seu livro a um levantamento histórico dos sistemas do conhecimento. Começa afirmando que a classificação é a ferramenta da ciência, é o brinquedo da filosofia. Dentre tantas definições de filosofia, a de Platão e a de Descartes são as que melhor traduzem o sentido pretendido para organização dos saberes. Para Platão filosofia é “o uso do saber em proveito do homem”, é uma ciência que une o fazer e o saber para utilizar o que é feito da forma mais ampla e válida possível em benefício do homem. Descartes define filosofia como o estudo da sabedoria, sabedoria não só como sinônimo de prudência, mas um perfeito conhecimento de todas as coisas que o homem pode conhecer tanto para conduta de sua vida quanto para conservação de sua saúde e a invenção de todas as artes (ABBAGNANO, 2007, p. 442). Portanto, é da filosofia com uma função mais pedagógica a preocupação de selecionar, reunir e registrar os saberes que seriam importantes para a vida na sociedade.

A forma privilegiada de se registrar o agrupamento dos saberes desde a antiguidade clássica é a enciclopédia, palavra de origem grega (eu-kiklios paideia) que significa: “o círculo (kuklios) perfeito (eu) do conhecimento ou da educação (paideia), o ciclo ou percurso completo da aprendizagem e da educação” 5. As obras de importantes filósofos, eruditos e cientistas se

enquadram no gênero enciclopédico com a ideia universalista, ou seja, de reunir e compilar em uma série de escritos o conteúdo que deveria ser transmitido em aula, portanto no modelo curricular, ou com objetivo de preservar a história passada para as gerações futuras6.

Vários foram os eruditos, cientistas e filósofos que deixaram registrado a forma como organizaram os saberes nos diversos períodos históricos, contudo, como afirmado acima, são apresentados apenas aqueles que de alguma forma contribuíram para formação das classificações bibliográfica e bibliotecária. A divisão em períodos históricos é uma tentativa de melhor organizar o texto, mas reconhece-se as dificuldades de situar algumas inciativas classificatórias nos limites cronológicos de tais períodos.

5 POMBO, Olga. O projecto enciclopedista. Lisboa, Universidade de Lisboa, 2006. Disponível em:

<http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/enciclopedia/cap1p1/palavra.htm>. Acesso em: 2 mar. 2017.

6 POMBO, Olga. Para uma história da ideia de enciclopédia. Alguns exemplos. A Enciclopédia da Antiguidade

Clássica. Lisboa, Universidade de Lisboa, 2006. Disponível em: