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Tratamentos Alternativos Isentos de Hemocomponentes

A transfusão é feita com a finalidade de aumentar a capacidade do transporte de oxigênio, restaurar o volume sanguíneo, melhorar a imunidade e corrigir os distúrbios de coagulação (COSTA; STURMER; MATTOS, 2005). Com o surgimento de doenças cada vez mais raras e mais complexas, a medicina tem avançado muito. A terapia transfusional, tem sido o meio mais usado, mas não pode ser o único meio para se tratar um paciente. Existem outros tratamentos, também tão eficazes e isentos de hemocomponentes. Para cada tipo de doença, há um tratamento alternativo diferente.

Tome-se como meio de ilustração um caso que o paciente estaria tratando uma anemia, segundo o código de conduta médica, (Op. Cit., 2005); podem ser usados; ―Sulfato ferroso, ácido fólico, vitamina B12, eritropoietina, darbepoietina e o CERA (continuous erythropoietin receptor activator) como principais alternativas e, ainda, existem outros em

fase final de liberação mundial que fazem o papel do sangue em transportar o oxigênio:

Hemopure, Hemolink, Oxygent‖. Além destes existe também, o tratamento feito com máquinas, ou autotransfusão, onde o próprio sangue do paciente é filtrado e renovado. Ainda, segundo o Conselho de Medicina, o custo deste último é equiparado ao custo de duas bolsas de coletar sangue vazias.

Neste sentido, esclarece Azevedo que:

Existem atualmente diversas formas em que uma equipe médica pode minimizar ou evitar a realização de hemotransfusão pelo uso sistemático de diversas técnicas de gerenciamento e de conservação do sangue, tais como combinações adequadas de medicação, instrumentos tecnológicos, técnicas clínicas e cirúrgicas. Assim, o fato de existir mais de um tratamento em substituição à transfusão de sangue conclui-se que esse procedimento não é o único modo de tratar e até mesmo salvar a vida de um paciente. (AZEVEDO, 2010, p. 9)

Nesse sentido, considerando os riscos transfusionais e os avanços da medicina, pode-se analisar a indicação de hemotransfusão, ou seja, transfusão de sangue, não só para os adeptos da religião Testemunhas de Jeová, mas para todo cidadão brasileiro, respeitando o paciente como ser humano e como sujeito de direitos, ao passo que essa escolha é legitima e tem amparo legal, como por exemplo nos princípios constitucionais.

Tem-se verificado que tratar pacientes sem o uso de transfusão sanguínea é uma realidade. Há vários relatos médicos bem sucedidos no tratamento de diversas enfermidades, bem como na realização de grandes cirurgias, que atestam essa realidade. Existem muitos relatos, tais como transplantes de fígado, cirurgias cardíacas, cirurgias ginecológicas, prostatectomias, traumas, entre outros, que demonstram que a medicina tem se preocupado em tratar pacientes Testemunhas de Jeová sem o uso da terapia transfusional. (AZEVEDO, 2010, p. 12).

Portanto, as Testemunhas de Jeová são só um exemplo de esforço na busca de tratamentos alternativos, exercendo seu direito de escolha, e por ser a transfusão de sangue um procedimento que acarreta graves riscos, esse tratamento pode ser recusado pelo paciente.

Afinal, em muitos casos, a transfusão de sangue não é o único tratamento indicado, mas é o único a ser apresentado, por ser mais cômodo, mais rápido e mais fácil. Assim, se torna difícil o tratamento aos membros desta comunidade religiosa, visto que, no meio atual, a única forma de garantirem o direito aos tratamentos alternativos é postulando na justiça seu desejo.

Apenas pelo meio judiciário eles vem conseguindo garantir seu direito.

O Dr. Craig Kitchhens, citado por Azevedo, publicou um estudo tratando das cirurgias sem transfusão de sangue, em 1404 pacientes testemunhas de Jeová. Ele relata que:

Os conceitos religiosos do paciente não foram violados pela transfusão, e o tratamento de menores não foi ofuscado por mandados judiciais ou por algo semelhante. Além do número baixo de mortes registradas nestes relatórios, não houve aumento de derrames, infartos do miocárdio, insuficiência renal aguda, infecções pós-operatórias, demora de cicatrização das feridas [cirúrgicas], ou de outras moléstias em pacientes Testemunha de Jeová, em comparação com outros pacientes. O mais importante é que 20% dos

1.404 pacientes [281], evitaram, sem o saber, algumas complicações por evitarem a transfusão. (CRAIG KITCHENS, 1995 apud AZEVEDO, 2010, p. 10).

Dessa forma há de se notar que, com essa recusa às terapias transfusionais, a ciência tem sido obrigada a avançar, cada vez mais, na busca de alternativas que possam tratar um paciente e ao mesmo tempo respeitar a vontade do mesmo a um tratamento isento de hemocomponentes.

No agravo referente aos autos nº 0013951-83.2016.4.01.3800, que tramitam perante o juízo da 18ª vara Federal da Seção Judiciária de Minas Gerais, em Belo Horizonte-MG, houve decisão favorável aos Testemunhas de Jeová. Em decisão de primeira instância proferida pelo MM. Juiz da 18ª vara, foi autorizado que a equipe médica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais- EBSERH realizasse a transfusão sanguínea, de forma forçada, em uma paciente.

Ao ajuizar a ação, a equipe do Hospital alegou que a transfusão seria urgente e indispensável para preservar a vida da paciente. Porém, após receber os esclarecimentos sobre seu estado de saúde, e os métodos de tratamentos alternativos que poderiam ser administrados, a paciente, por meio de documento de diretivas antecipadas de vontade, manifestou-se de forma contrária a receber tratamentos que utilizassem componentes sanguíneos.

Ao analisar o agravo, o Desembargador Federal Kassio Nunes Marques, tomou como fonte o entendimento do ministro do Supremo Tribunal Federa, Luís Roberto Barroso, que defende que a liberdade de religião é um direito fundamental, uma das liberdades básicas do indivíduo, que constitui escolha existencial e deve ser respeitada pelo Estado. O direito de autonomia do paciente acomete o direito de recusa, ligado diretamente ao princípio da dignidade da pessoa humana. Diante desses argumentos, o magistrado concedeu à paciente o direito de se tratar por meios alternativos.

Neste mesmo sentido, há de se destacar a decisão do TJMT:

MATO GROSSO. Tribunal de Justiça Agravo n° 22395. Relator Dr. Sebastião de Arruda Almeida. Cuiabá, 31 de maio de 2006. Ementa: TESTEMUNHA DE JEOVÁ PROCEDIMENTO CIRÚRGICO COM POSSIBILIDADE DE TRANSFUSÃO DE SANGUE - EXISTÊNCIA DE TÉCNICA ALTERNATIVA - TRATAMENTO FORA DO DOMICÍLIO - RECUSA DA ADMINISTRAÇÃO PUBLICA - DIREITO À SAÚDE - DEVER DO ESTADO - RESPEITO À LIBERDADE RELIGIOSA - PRINCÍPIO DA ISONOMIA - OBRIGAÇÃO DE FAZER - LIMINAR CONCEDIDA - RECURSO PROVIDO. Havendo alternativa ao procedimento cirúrgico tradicional, não pode o estado recusar o Tratamento Fora do Domicílio (TFD) quando ele se apresenta como única via que vai ao encontro da crença religiosa do paciente. A liberdade de crença, consagrada no texto constitucional não se resume à liberdade de culto, à manifestação exterior da fé do homem, mas também de orientar-se e seguir os preceitos dela. Não cabe à administração pública avaliar e julgar valores religiosos, mas respeitá-los. A inclinação de religiosidade é direito de cada um, que deve ser precatado de todas as

formas de discriminação. Se por motivos religiosos a transfusão de sangue apresenta-se como obstáculo intransponível à submissão do recorrente à cirurgia tradicional, deve o Estado disponibilizar recursos para que o procedimento se dê por meio de técnica que dispense-na, quando na unidade territorial não haja profissional credenciado a fazê-la. O princípio da isonomia não se opõe a uma diversa proteção das desigualdades naturais de cada um. Se o Sistema Único de Saúde do Estado de Mato Grosso não dispõe de profissional com domínio da técnica que afaste o risco de transfusão de sangue em cirurgia cardíaca, deve propiciar meios para que o procedimento se verifique fora do domicílio (TH), preservando, tanto quanto possível, a crença religiosa do paciente. (MATO GROSSO, 2006)

Na mesma linha de entendimento, também se pode considerar a decisão proferida pelo TJMG:

PROCESSO CIVIL. CONSTITUCIONAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. TUTELA ANTECIPADA. CASO DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. PACIENTE EM TRATAMENTO QUIMIOTERÁPICO. TRANSFUSÃO DE SANGUE. DIREITO À VIDA. DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E DE CRENÇA. - No contexto do confronto entre o postulado da dignidade humana, o direito à vida, à liberdade de consciência e de crença, é possível que aquele que professa a religião denominada Testemunhas de Jeová não seja judicialmente compelido pelo Estado a realizar transfusão de sangue em tratamento quimioterápico, especialmente quando existem outras técnicas alternativas a serem exauridas para a preservação do sistema imunológico. - Hipótese na qual o paciente é pessoa lúcida, capaz e tem condições de autodeterminar-se, estando em alta hospitalar. (TJMG, 2007)

Assim, havendo tratamentos alternativos às transfusões de sangue, é dever do Estado disponibilizar meios para que esse tratamento seja feito, respeitando os valores religiosos, pois não cabe a ele julgar esses valores, e sim fazer cumprir sua obrigação.

Fixando, assim, um caminho no qual a vontade do paciente, (princípio da autonomia), só seria desrespeitada em último caso, e não sempre, como ocorre atualmente. Por meio de decisões e jurisprudências, pode-se notar que, cada vez mais o Estado vem garantindo ao paciente o direito de permanecer na sua fé, ou seja, vem respeitando o direito à crença religiosa.

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