3. A DIMENSÃO INTERSUBJETIVA DO TRAUMA
3.4 Trauma e vergonha
3.4 Trauma e vergonha
O tema da vergonha é pouco abordado em situações traumáticas, mas, especificamente em experiências de violência sexual, é um afeto que está muito presente. A vergonha está relacionada com a dimensão do olhar, trata-se da projeção no olhar do outro daquilo que o
31 sujeito pensa sobre si mesmo, o conteúdo projetado é algo que não deveria ou não poderia ser notado.
A psicanalista Ludmila Zygouris (1995) define a vergonha como um “pequeno desastre visceral”, que dificilmente será esquecido e que suplica por uma ação que não pôde acontecer, já que, em sua maioria, está relacionado a uma experiência de impotência. A autora concebe (1995, p. 160) que toda situação que gera vergonha é uma situação de violência, real ou simbólica:
[...] violência feita ao psiquismo e, em consequência da impossibilidade de uma resposta eficiente, ao próprio corpo. Há um custo psíquico importante quando uma violência sofrida não recebe “tratamento” imediato, quando o ato de resposta é coibido. E isto sempre acontece nos casos em que perdura a vergonha.
A autora apresenta ainda três dimensões para se pensar a vergonha, são elas: a reparação, ou vingança, como a autora prefere chamar; o lugar da nomeação e do nome próprio, e por último, a dimensão social da vergonha. Para a autora, o que impede que a situação de vergonha seja esquecida é sua reivindicação por vingança. A autora prefere utilizar o termo vingança para sublinhar a violência ligada a esta. Cita que em algumas sociedades arcaicas existiam rituais de reparação, que possibilitaram saídas honrosas para lidar com a vergonha, já nas sociedades atuais, que não dispõem de rituais que se encarreguem da violência, a vergonha é engolida, já que não pode ser reparada.
“A vergonha nos deixa de cara no chão. E para cada um a cara é também seu nome”, diz Zygouris (1995, p. 161). A relação, que um sujeito estabelece com a vergonha, é acompanhada por uma fantasia de expulsão de sua comunidade (VERZTMAN, 2017). A nominação - receber no lugar de seu nome próprio um outro nome - é o que distingue a personagem de Una, das demais pessoas, principalmente das outras meninas. Vagabunda, puta e vadia são alguns dos nomes que a personagem recebe ao longo de sua história. Nas condições de usurpação do nome próprio, o sentimento de vergonha se presentifica, por vezes, com um sentimento de humilhação, fazendo uma marca que a diferencia e a destitui da comunidade a qual pertence. Sobre o destino de uma usurpação como esta na infância, a psicanalista sublinha que a impotência da criança se dá na sua impossibilidade de recorrer a outra comunidade ou a sua capacidade de reagir subvertendo a nominação, sendo esta uma resposta mais recorrente entre adultos que são destituídos de seus nomes próprios.
Na história de Una, sua personagem deixa para trás seu próprio nome, aos 16 anos, quando vai em busca de um novo lugar onde ninguém a conhece. Seria este o ritual feito pela personagem em busca de reparação pela violência sofrida? O encontro com uma nova
32 comunidade foi o que possibilitou a Una escolher um novo nome, ou seja, uma comunidade que possa mediar e ajudá-la na busca de afirmação de sua identidade?
A possibilidade de reparação, citada acima, está vinculada com a terceira dimensão assinala a importância de um ato que se estenda ao âmbito social também.
Venturi e Verztman (2012) abordam a vergonha por um viés narcísico e afirmam que tal vertente não restringe o sujeito a uma experiência com ele mesmo, mas corroboram com a dimensão social da vergonha, pois, necessita-se de um outro que note algo que não deveria aparecer. É levando isso em consideração que os autores afirmam que a vergonha é um modo de laço social: “A vergonha, como uma das reguladoras dessa inserção na comunidade, reafirma a importância do outro para a identidade do sujeito ao fazer ecoar no narcisismo uma ameaça de exclusão do grupo social” (VENTURI e VERZTMAN, 2012, p. 138).
Tanto Zygouris (1995) quanto Venturi e Verztman (2012) falam de uma “vergonha de si” que acompanha o sujeito envergonhado ou violentado. Ao ser destituído da comunidade a qual pertence, a característica, que o sujeito julga o afastar dos demais, é tomada como a marca identificatória mais significativa em relação àquele grupo, e, assim, passa a representar a identidade como um todo e não somente uma parte, já que:
[...] a supervalorização de algum traço específico projeta uma sombra em todo o restante do território narcísico, ao mesmo tempo que instaura uma separação entre o sujeito e o grupo. Uma das propriedades mais cruéis dessa vergonha é o fato de ela se abater sobre o sujeito como um todo. Sente-se vergonha por algo que se é, o que dificulta o discernimento entre esse sentimento e a identidade (VENTURI, VERZTMAN, 2012, p. 139).
Na narrativa de Una, observam-se contínuas situações de exclusão que colaboram com o apontado pelos autores. A personagem sofre com exclusões que acontecem dentro da escola e em espaços públicos de socialização. “Quando os pais dos meus amigos diziam aos filhos para pararem de andar comigo, eu engolia minha vergonha e passava mais tempo sozinha”
(UNA, 2016, p. 52). O afastamento de uma criança de sua comunidade, a fragilização dos vínculos afetivos, juntamente com a falta de amparo dos cuidadores, tornam os desafios do desenvolvimento e da simbolização do trauma, ainda maiores. A ideia de pertencimento,
33 construída a partir dos processos identificatórios com a comunidade, é então colocada em risco.
Ciccone e Ferrant (2009), citados por Pacheco-Ferreira (2012), descrevem três tipos de vergonha e duas delas interessam e ratificam o que vem sendo descrito até aqui. Uma das vergonhas funcionaria como um alarme, sendo esta a “vergonha sinal de alarme”, a experiência que gera vergonha é a mesma que também dá condições para o sujeito lidar com ela. Como exemplo desse duplo funcionamento, os autores utilizam a condenação de uma desqualificado, reduzindo a criança ao seu ato. Essa é a “vergonha experimentada”, que pode se desenvolver enquanto ferida narcísica, “característica de um sujeito privado da ilusão de ser sujeito, que não consegue construir uma identidade para si” (PACHECO-FERREIRA, 2012, p. 175). Os efeitos desencadeados dependem da estrutura narcísica do sujeito, assim como é relevante o tempo de acontecimento da experiência, passado ou presente em relação à constituição do narcisismo; a capacidade de reorganização psíquica e a intensidade dada na ocasião, que tem relação com o ideal apresentado pela comunidade do sujeito ou com a história individual de cada um (VENTURI; VERZTMAN, 2012). A “vergonha experimentada” se aproxima do viés narcísico, enfatizando a vergonha enquanto um afeto social.
O último tipo de vergonha aponta para um traumatismo narcísico primário, está além da desqualificação dos movimentos pulsionais da criança, pois nega a existência deles e impede também o seu surgimento. Tal negação é estendida ao próprio sujeito que perde a capacidade de ver ou sentir a si próprio, é o que os autores chamam de “vergonha de ser”. “O traumatismo primário da vergonha de ser é ligado à falha da resposta do ambiente, provocando um sentimento de continuidade narcísica inconsistente” (PACHECO-FERREIRA, 2012, p. 176).
O destino da vergonha, segundo os autores, é o soterramento. Ela não é recalcada, esquecida ou transformada, mas preservada. As lembranças vergonhosas são enterradas em camadas ao redor do núcleo doloroso, uma tentativa de esconder e ao mesmo tempo dar
34 contenção, mas isso que aparenta estar escondido sob tantas camadas, também se dar a ver ao outro (PACHECO-FERREIRA, 2012).
Zygouris (1995) aponta que a impossibilidade de esquecer que está atrelada a vergonha se relaciona a uma inscrição que vai além da representação de uma lembrança dolorosa, mas que se apresenta enquanto experiência traumática inscrita no corpo. Tal relação será abordada a seguir, especificamente, a partir da experiência de violência sexual enquanto trauma psíquico.