3. O treinador
3.5. Treinador – Interlocutor privilegiado do processo
Como referimos anteriormente o desempenho da função de treinador implica a tomada de decisões, organizadas com base em indicadores e segundo critérios que obedecem a uma certa ordem e em diferentes domínios, como a organização do treino, liderança, estilo e formas de comunicação com os jogadores, opções estratégicas e táticas decorrentes da observação e análise do jogo, da gestão das pressões contidas na competição, do controlo da capacidade de concentração e emoções, etc. Como o mesmo refere, joga-se como se treina, o que no fundo significa o mesmo que dizer que quem treina pouco e mal necessariamente irá expressar na situação de jogo as deficiências da sua preparação. Cumpre ao treinador antecipar, na preparação, as dificuldades contidas na competição, com o objetivo de habilitar a sua equipa com uma capacidade de reação às diferentes situações de jogo superior à dos adversários.
Como regra geral, no que respeita às possibilidades e limitações do treinador poder, através da observação, registo e análise de dados referentes à sua equipa e aos adversários, alterar significativamente a seu favor as condições em que participa numa determinada competição, diríamos que aumentam as suas possibilidades de êxito e diminuem as respetivas limitações, tanto mais quanto a preparação anterior para essa competição for cuidada e pormenorizada a um ponto tal que antecipe, dentro do possível, todo o tipo de exigências e inerentes decisões a serem tomadas (mesmo sabendo que por vezes se modificam as condições prévias, como acontece no caso de
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uma lesão ou doença súbita impeditiva da utilização de determinado jogador ou jogadores) (Araújo, 1995a).
Segundo Lima (1993), parte-se do pressuposto que o treinador leva a cabo uma preparação adequada dos jogadores e da equipa, de forma a permitir que ambos realizem a prestação competitiva mais eficaz face às características dos opositores que lhes cabe enfrentar. Tem-se por certo que essa preparação é suficientemente fundamentada e tão minuciosa quanto lhe permitem as condições concretas em que aquela é realizada. Admite-se que o treinador respeitou os princípios orientadores do treino individual e do treino coletivo, que teve em atenção todas as variantes do ataque e da defesa, que organizou a encenação tática e estratégica a adotar pela equipa e que fez ensaiar e repetir as situações mais prováveis de acontecer durante a competição em que eles vão participar.
É pois por demais evidente que ser treinador exige um conhecimento multidisciplinar, tornando-se evidentemente imprescindíveis os conhecimentos inerentes à tática, à técnica e à preparação condicional do jogo em que o treinador se especialize (Araújo, 1995b).Isto porque, segundo refere Araújo (1995b: 143), “decidir bem, representa sucesso, fazê-lo mal, conduz quase sempre ao fracasso”. Como acrescentam Vasquez e Gayo (2004), dispor de um conhecimento amplo e completo de todos os aspetos que caracterizam, de uma forma íntima e particular, uma modalidade desportiva, é uma das competências inerentes ao treinador. De acordo com Catita (1999), o treinador (equipa técnica) de toda e qualquer equipa (futebol profissional, juvenil, etc.) deve elaborar dentro das suas possibilidades, a recolha do maior número de informação possível, de modo a contribuir para que ele próprio e os jogadores possam dispor de dados que façam evoluir individual e coletivamente. A este propósito refere que a análise qualitativa que é possível efetuar de dados estatísticos, tendo em conta os valores médios de prestação, traduz tendências do rendimento desportivo, que de alguma forma permitem caracterizar comportamentos da equipa em situações futuras, quase que adivinhando.
Atualmente, a ação do treinador é cada vez mais complexa. São os pormenores que fazem as diferenças entre as equipas e quem os dominar, a todos os níveis, em maior quantidade e qualidade, provavelmente será o vencedor (Catita, 1999). treinador é presentemente um gestor de toda uma panóplia de informação (tático-técnica, física, psicológica, médica, estatística, logística, etc.). Qual o treinador que não deseje ser
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todos os dias melhor e mais completo? Será que no fundo a diferença entre os bons e os muito bons clubes, treinadores e jogadores, não tem a ver com a quantidade e qualidade de informação que conseguem processar no menor intervalo de tempo? No fundo, não é isso que distingue todos os restantes ramos de atividade? Porque não o Futebol caminhar também por esse trilho? (Catita, 1999). Para Oliveira (2003), treinar uma equipa de Futebol deve implicar o assumir de determinadas convicções e, consequentemente, tomar um conjunto de decisões que serão determinantes no caminho a percorrer.
Uma equipa de Futebol é uma micro sociedade que tem uma cultura, que tem uma linguagem, que tem uma identidade e muitas outras coisas próprias. Como tal, deve ser entendida e tratada numa perspetiva de fenómeno complexo. O estudo e o entendimento dos fenómenos complexos podem ser tratados de diferentes formas, mas a abordagem construtivista, que contempla os fenómenos a partir da sua complexidade não a mutilando nem a reduzindo, em nosso entender, parece ser a que melhor se adapta ao Futebol. Assim, a abordagem que fazemos à organização do jogo tenta entendê-lo sempre inserido na sua complexidade, tentando que todas as suas dimensões e componentes sejam entendidas nessa perspetiva. É então possível afirmar que se o treinador conhecer devidamente o adversário, identificando a forma da equipa jogar e quais os comportamentos dos jogadores, tanto no plano individual como coletivo, o processo de treino e de jogo da sua equipa será mais facilmente estruturado, organizado, realizado e controlado.
Parece também ser importante que o ser humano possua um conjunto de competências que lhe permita adaptar-se às constantes mudanças que se lhe deparam, mantendo uma resposta o mais proficiente possível. Se por um lado a consistência do movimento é alcançada através da ordem, por outro, um certo grau de desordem é fundamental, de forma a promover no ser humano a capacidade de se adaptar a situações imprevistas, permitindo simultaneamente a continuidade desse mesmo movimento. Por isso, e pegando no exemplo do Futebol, quando se organiza uma equipa, tem de se manter uma determinada taxa de desordem, para que a mesma tenha possibilidade de reagir e se adequar a qualquer situação inesperada. Importa ter sempre presente que, como refere Araújo (1995a: contracapa), “o treinador do desporto profissional, ao contrário da imagem que alguns procuram defender, não é um super- homem. Tem dúvidas, medos, hesitações, erra como qualquer ser humano”. “A grande
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vantagem das melhores equipas e dos melhores treinadores passa pela capacidade de gerir o detalhe sem perder de vista o jogo como sistema dinâmico”(Garganta, 2005).