2.2 Treinamento
2.2.2 Treinamento, Aprendizado e Manufatura Enxuta
Embora as empresas enfatizem a obtenção de resultados e objetivos, a Toyota sempre foi única em expressar um imperativo gerencial diferente. Desde o seu início, a abordagem única da Toyota à gestão tem sido a vontade constante de alcançar objetivos por meio do desenvolvimento de pessoas (LIKER; BALLÉ, 2013).
A implementação da manufatura enxuta como um componente da transformação corporativa melhora a capacidade de resposta e a eficiência em toda a cadeia de fornecimento, criando valor e eliminando o desperdício. A competitividade do ambiente de negócios torna o relacionamento com o cliente e o gerenciamento de custos críticos para o sucesso e a sustentabilidade da empresa (HARRIS et al., 2014). Porém, segundo os referidos autores, os numerosos esforços de implementação enxuta não produziram as mudanças significativas que se esperaria do total de recursos empregados.
Introduzir a manufatura enxuta em um local de trabalho é, por definição, perturbar as práticas existentes e transformá-las em práticas que exibam certas características que estejam alinhadas com os objetivos do lean: a redução de desperdícios (YASUKAWA; BROWN; BLACK, 2014).
Os sistemas de manufatura, as tecnologias complexas e de rápido desenvolvimento e os ambientes de negócios globais de hoje exigem alta competência e aprendizado contínuo de todo o pessoal. Há uma enorme necessidade de novos métodos para acelerar o diálogo entre o conhecimento e a prática para uma aprendizagem eficiente, sem risco de falha na vida real. Essa necessidade é sentida tanto no ensino de engenharia nas universidades, bem como nas indústrias (SMEDS, 2003).
Neste contexto, os jogos de simulação, representam, em algum grau, o mundo real (por exemplo, o ambiente de trabalho). O objetivo deste tipo de treinamento geralmente é que os participantes adquiram conhecimentos e habilidades que eles subsequentemente usam em sua situação de trabalho. Isso define os objetivos de aprendizado. Muitos jogos lean consistem em várias rodadas em que os participantes tentam avaliar várias melhorias. Os resultados deste processo podem ser comparados com os objetivos de aprendizagem por meio de questionamentos, discussões de grupo guiadas e assim por diante (DE VIN; JACOBSSON, 2017).
Pesquisas sobre aprendizado o definem como uma mudança no indivíduo, devido à interação entre o sujeito e seu ambiente. Especificamente, as fábricas de modelos enxutos concentram-se em educar os alunos (gerentes, diretores executivos, linha de frente e agentes) sobre os conteúdos de gerenciamento enxuto (ZAN et al., 2015).
Segundo Sharma, Dixit e Qadri (2016), após extensa revisão da literatura existente para identificar os critérios para a implementação do lean no setor de manufatura e brainstorming com 5 especialistas lean, foi possível, pelos autores, identificar uma lista com 8 critérios para a implementação lean. Especificamente sobre Treinamento, os autores ressaltam que a utilização de recursos pode ser melhorada ao fornecer treinamento aos funcionários. Isso é especialmente verdadeiro no caso de novos processos, ferramentas ou técnicas avançadas serem adotadas para melhoria.
Para Veza, Gjelduma e Mladineo (2015), a implementação do conceito lean começa com palestras teóricas, jogos práticos e didáticos e aplicação piloto no nível do chão de fábrica. Inicia-se com o aprendizado básico do lean, ou seja, a filosofia do Sistema Toyota de Produção. O próximo passo é aprender as ferramentas e métodos lean (5S, Kaizen, Mapeamento de Fluxo de Valor, etc) que os funcionários tentam aplicar em seus locais de
trabalho e em suas tarefas de trabalho. Para alcançar a sustentabilidade da implementação lean, o passo seguinte é ajudar a alta gerência a adquirir o Pensamento Enxuto.
Segundo De Vin e Jacobsson (2017), em geral, tanto a literatura quanto consultores de manufatura enxuta relatam uma série de benefícios do uso de jogos, como mais envolvimento e melhor compreensão dos princípios lean em ambientes complexos.
Harris et al. (2014) ressaltam que os educadores (treinadores) devem encontrar uma maneira de conectar o aprendiz lean de nível introdutório com as ferramentas enxutas de uma forma que lhes permita usar seus conhecimentos recém-adquiridos, além de motivá-los a aprender mais. Isto é possível por meio da natureza prática das ferramentas enxutas. No entanto, como educadores, precisamos ser cautelosos para não criar circunstâncias nas quais os indivíduos estejam implementando ferramentas sem compreender completamente a base ou adquirir o conhecimento necessário para uma implementação bem-sucedida.
A taxonomia de objetivos educacionais é uma estrutura para classificar as declarações do que esperamos ou pretendemos que os alunos aprendam como resultado da instrução. Por mais de 50 anos, o estudo e a prática do processo de aprendizado foram apoiados pela taxonomia de objetivos educacionais de Bloom (1956), usados em todas as disciplinas ao projetar materiais educacionais (HARRIS et al., 2014; KRATHWOHL, 2002).
A Taxonomia de Bloom, como ficou reconhecida, é uma tentativa de ordenar hierarquicamente o processo de aprendizagem, com etapas distintas e bem definidas. Taxonomia é um sistema de classificação, que permite estruturar organismos pela hierarquia e pelas relações de evolução, podendo assim ser aplicada a objetivos educacionais. O trabalho desenvolvido identificou que o processo completo de aprendizagem incluía três dimensões: o desenvolvimento cognitivo, o afetivo e o psicomotor (PATRUS et al., 2012).
A Taxonomia de Bloom do Domínio Cognitivo é estruturada em níveis de complexidade crescente – do mais simples ao mais complexo – e isso significa que, para adquirir uma nova habilidade pertencente ao próximo nível, o aluno deve ter dominado e adquirido a habilidade do nível anterior (FERRAZ; BELHOT, 2010).
A Taxonomia de Bloom, em sua versão original, é composta por seis fases distintas e sequênciais, a saber: conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação (KRATHWOHL, 2002; FERRAZ; BELHOT, 2010; PATRUS et al., 2012).
Em 2001, a Associação Norte-americana de Psicologia promoveu um encontro de profissionais de várias áreas e universidades, supervisionados por David Krathwohl, um pesquisador remanescente do grupo original do desenvolvimento da Taxonomia na década de 1950 (PATRUS et al., 2012). Este encontro teve como finalidade discutir a possibilidade de
rever os pressupostos teóricos da Taxonomia de Bloom uma vez que novos conceitos, recursos e teorias foram incorporados ao campo educacional, avanços psico-pedagógicos e tecnológicos ocorreram, e diversas experiências de sucesso no uso efetivo da taxonomia foram publicadas (FERRAZ; BELHOT, 2010).
Na categorização atual da Taxonomia de Bloom, onde os substantivos foram substituídos por verbos, o princípio da progressão da complexidade foi mantido: do simples para o complexo; do concreto para o abstrato. A referida categorização atual é composta pelas fases lembrar, entender, aplicar, analisar, sintetizar e criar (FERRAZ; BELHOT, 2010).
Em seu trabalho, Harris et al. (2014) propõem cinco níveis que uma empresa deve alcançar para dominar os conceitos e práticas lean que levam à transformação: consciência, introdução, entendimento, motivação, e, domínio. Os autores ressaltam que o termo domínio é usado para indicar um alto nível de proficiência e compreensão, não que o indivíduo não tenha mais nada para aprender sobre a implementação enxuta. Como acontece frequentemente na academia ou na prática, a tendência é pular ou assumir que os alunos possuem o pré- requisito conhecimento (lembrar e compreender) e seguir cegamente as habilidades de ordem superior sem primeiro avaliar o estado atual de compreensão do aluno. Os referidos autores elaboraram, então, uma Taxonomia de Educação Lean, como é apresentado na Tabela 2.3.
A transformação da empresa requer uma compreensão de como todas as “partes móveis” se relacionam umas com as outras. Ao desenvolver um modelo ou estrutura para treinandos em operações enxutas, é importante que eles tenham uma compreensão completa do pensamento sistêmico. A experiência é, além de uma parte importante da aprendizagem de adultos, também uma parte importante de levar as pessoas a abraçar a mudança reconhecida pela gerência. Com essa experiência, aliada ao conhecimento de ferramentas enxutas e valores intrínsecos, o aluno (treinando) estará bem preparado para participar de uma transformação empresarial (HARRIS et al., 2014).
Tabela 2.3 Taxonomia de Educação Lean, traduzido de Harris et al. (2014).
Nível Constructo Definição Taxonomia de
Bloom
0 Consciência
A pessoa já ouviu falar de lean, talvez até tenha lido um livro ou feito um curso ou workshop em lean; começa a tentar aplicar algumas das ferramentas básicas.
1. Lembrar
1 Introdução
A pessoa é apresentada aos princípios lean; lhe é ensinado quais são as ferramentas; sabe como usar as ferramentas corretamente, mas, não necessariamente, o por que, quando ou quem as utilizará.
2. Entender
2 Entendimento
A pessoa entende o sistema lean e não apenas conhece as ferramentas, mas pode reconhecer quando aplicar a ferramenta; tem o entendimento de aplicar a ferramenta ao ver sintomas dos quais é consciente.
3. Aplicar
3 Motivação
A pessoa mantém os princípios lean como crenças fundamentais que influenciam seu pensamento; conhece e compreende as ferramentas e quando elas devem ser aplicadas, mas, além disso, o porquê do esforço, buscando desperdícios em suas muitas formas como parte de sua crença central; entende que o valor é o objetivo final e busca constantemente o caminho para chegar lá; isso é o que pode ser chamado de motivação intrínseca.
4. Analisar
4 Domínio
O pensador enxuto pode ver além da lista de itens de ação gerados pelo Mapeamento do Fluxo de Valor; evoluiu para se tornar um “lean champion” que pode expressar de forma sucinta e coerente a visão de um empreendimento enxuto para outras pessoas.
5. Avaliar
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Este Capítulo tem por objetivo apresentar a classificação da pesquisa desenvolvida pelo autor desta tese e detalhes acerca do método utilizado.