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Treinamento da flexibilidade para criança e adolescente

O treinamento da flexibilidade para crianças praticantes da capo- eira nos diversos níveis deve priorizar o limite individual de cada uma delas, evitando um forçamento máximo, fazendo com que trabalhem um processo de alongamento de preferência lúdico, onde a própria criança descubra seus próprios limites e a ação dos seus terminais nervosos da dor. (CAMPOS, 1990)

Na escolha de uma metodologia, de uma prática, aconselhamos a utilização do método passivo, ou seja, o forçamento lento, gradativo e a manutenção da criança naquele limiar de flexionamento no qual cada uma respeita a sua individualidade, fazendo com que consiga novos alcances gradualmente. (ALTER, 1999) Porém, alguns movimentos devem ser evitados para não sobrecarregar determinadas estruturas, como, por exemplo, flexão da coluna anterior ou, posteriormente, fle- xão abdução coxofemural. Por que principalmente esses movimentos? São movimentos que têm uma possibilidade de causar lesões bastante acentuadas, pois lidam com grandes articulações que são extremamen- te protegidas por cápsulas e ligamentos, cujo tempo de cicatrização, uma vez deformadas, é bastante longo ou até mesmo irreversível.

Quando falamos em termos de flexão, o cuidado deve ser muito grande com a coluna vertebral desses indivíduos para que não haja so- brecarga e alteração da sua postura e o aparecimento de deformidade de coluna como hiperlordose ou cifose, a médio ou longo prazo.

No final da adolescência a estrutura óssea já apresenta uma ossi- ficação incipiente iniciando-se, inclusive, o fechamento das cápsulas epifisárias cartilaginosas e o aumento da estatura. Ou seja, na adoles- cência o jovem tende a crescer de oito a dez centímetros por ano. Esse crescimento exagerado na estrutura óssea nem sempre é acompanha- do da elasticidade da musculatura, por isso o professor, o mestre de capoeira, deve entender que o adolescente, naturalmente apresentará uma limitação da flexibilidade, devido ao seu processo de crescimen- to acelerado. Portanto, o treinamento excessivo e/ou o forçamento dessa flexibilidade durante esse período poderá, também, levar a de- formações e/ou lesões irreversíveis. É fundamental haver critério e prudência com esse jovem adolescente. Até mesmo no sentido de fa- zer com que ele(a) perceba que tem limitações e que, naquela fase, não é interessante que sobrecarregue o próprio organismo. Porque, naturalmente, o jovem, para se sentir poderoso, por sentimento de autossuperação, por um sentimento de destaque entre seus pares, ten- de a forçar além do seu limite para provar maior performance, e vai conseguir, entretanto essa maior performance deverá cobrar um preço bastante elevado com relação aos padrões de deformação.

Esses fatos permitem que o trabalho de flexionamento utilizado seja idêntico ao empregado nos adultos, preponderando inclusive o tra- balho de FNP, por exemplo, porém a prudência deverá ser bem maior, porque o adolescente apresenta um padrão de limitação exagerado.

Vejamos que alguns aspectos devem ser respeitados quando pensamos em termos da flexibilidade da criança e do adolescente, para fechar nosso ciclo, a flexibilidade da criança não se desenvolve de maneira igualitária em todos os segmentos, sempre tende a um segmento, por exemplo, membros inferiores ou membros superiores, eles apresentam um crescimento diferenciado e até mesmo um pouco desarmônico. A flexibilidade não deve ser desenvolvida no seu limite máximo, ao ponto de comprometer ou prejudicar a postura, se isso for observado, é interessante que o mestre da capoeira reduza, ou, até mesmo, suprima o treinamento da flexibilidade naquele nível com aquela criança ou aquele jovem. Os exercícios de flexibilidade para criança, durante a fase mais juvenil de primeira e segunda infância, deverão ter uma característica bastante lúdica e ativa, ou seja, com

movimentos naturais, não deixando a criança ter um trabalho de for- çamento muito intenso. À proporção que a criança cresce, na tercei- ra infância, podemos cuidar de um trabalho passivo, lento e gradual. Quanto mais a criança se aproxima da fase adulta até mesmo a FNP poderá ser enfatizada, desde que se respeite com muita prudência os limites de cada jovem adolescente.

Compreender que toda criança já tem uma flexibilidade bastan- te elevada, como já foi dito anteriormente, o que não quer dizer que seja incentivado um forçamento maior, como normalmente acontecia e ainda acontece nas escolas de balé, onde a criança, principalmente meninas, já apresentam um nível de flexibilidade acentuada e outras nem tanto, no entanto o treinamento excessivo e precoce eleva bas- tante esses níveis. A criança apresenta uma flexibilidade ótima para a prática do balé, mas algumas deformidades são prevalentes na fase adulta, como a hiperlordose e algumas lesões articulares, muito vi- síveis no treinamento precoce da ginástica olímpica, o que levou o Comitê Olímpico Internacional a limitar a idade das praticantes de ginástica nas Olimpíadas a 16 anos, por uma proteção maior a essas crianças que iniciam o treinamento da força, da potência, da explosão e da flexibilidade muito precocemente.

Pensando na prática do treinamento da flexibilidade, o aqueci- mento é extremamente importante e é importante que seja leve e gradativo, levando o indivíduo a uma preparação para a prática de ati- vidade física mais intensa e não a uma exaustão. O alongamento, de preferência por estiramento ou espreguiçamento, poderá fazer parte do aquecimento para o flexionamento do capoeirista, de forma gene- ralizada. Entretanto, não é recomendado que um mestre de capoeira ou outro professor force o trabalho com intensidades elevadas e um desgaste fisiológico muito intenso durante a preparação, visto que tal processo faria com que o capoeirista iniciasse o treino da flexibilidade já em estado de fadiga, ou seja, com o mecanismo de propriocepção altamente excitado cuja tendência é estar menos flexível.