GRUPO XIX DE TEATRO Hygiene/Hysteria Realização Fundação Nacional de Arte e
TREINAMENTO – UM ESTUDO SOBRE ESPONTANEIDADE E PRECISÃO
A partir da leitura de textos sobre o trabalho de Jerzy Grotowski em seu Teatro Laboratório, as integrantes da ACRUEL35e eu nos aproximamos de proposições e de termos aos quais tomamos
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O Mosaico: R. Pesq. Artes, Curitiba, n. 6, p. 126-134, jul./dez., 2011
para nosso próprio vocabulário de trabalho. Dentro desses termos são dois os que nos saltam ao olhar: espontaneidade e precisão; sendo estes provocadores do que denominamos de “verdade cênica”. Grotowski destrincha essa idéia retomando a idéia de unidade, natureza e memória, como vemos a seguir:
Em um certo sentido, a precisão é o campo de ação da consciência e a espontaneidade, o do instinto. (...) Nos instantes de plenitude, o que em nós é animal não é unicamente animal, mas é toda a natureza. Não a natureza humana, mas toda a natureza no homem. Então se torna ao mesmo tempo a herança social, o homem enquanto homo sapiens. Mas não se trata de um dualismo. É a unidade do homem. E então não é o “eu” que age – age “isto”. Não é o “eu” que realiza o ato, o “meu homem” realiza o ato. Eu mesmo e o genus humano simultaneamente. Todo o contexto humano – social e de qualquer outro tipo – inscrito em mim, em minha memória, nos meus pensamentos, nas minhas experiências, no meu comportamento, na minha formação, no meu potencial. (GROTOWSKI, 2001, p.14)
Por que num dia a cena foi ótima e no outro não foi? Como repetir a mesma seqüencia de ações com potências semelhantes a cada dia de espetáculo? Como interligar treinamento e processo criativo? Como trabalhar emoções num treinamento tão rígido? Como pensar a subjetividade de uma criação de cena e personagem em exercícios aparentemente tão objetivos?
O trabalho do ator sobre si mesmo parece ser o caminho pelo qual seguimos atualmente, antes do mergulho no texto e da criação de cena e personagens. Esse trabalho viabiliza o conhecimento e exploração de potenciais criativos na práxis diária do ator enquanto homem do mundo e enquanto homem no mundo, em relação direta com o ambiente: sala de ensaio, movimento da rua fora da sala, presença dos colegas em trabalho, noção do ambiente por inteiro - incluso ele, o ator.
A exaustão corporal no treinamento de ator desencadeia reações no corpo às quais ele não poderia prever, ou pensar em fazer, justamente por ter de pensar em muitas coisas ao mesmo tempo, em um espaço de tempo muito curto, muito rápido. É como se o corpocarne boicotasse o
corporazão, que cotidianamente precisaria de mais tempo para processar informações,
provocando linhas de encontro em direção ao que chamamos de corpomente.
Em nossos encontros trabalhamos com fatores como: desenvolvimento muscular, precisão física, atenção, ritmo, respiração como condutora de energia, percepção da inteireza do corpo, mudança de foco de atenção, direcionamento de atenção e energia, tensão muscular,
tracionamento muscular, relaxamento muscular, oposição muscular, enraizamento, controle de
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informação entre participantes. Esses fatores nos conduzem na exploração de exercícios derivados das praticas de colaboradores do grupo36.
Determinados músculos ativados durante a realização do treinamento carregam memórias que esse corpo não encontra em estado consciente/cotidiano; esses estados estão em camadas mais profundas. O toque, ou a percepção da existência dessas camadas, abre a possibilidade para um entendimento maior de si mesmo e, como conseqüência, um aumento de vocabulário consciente para o ato da criação/representação.
A repetição embebida de verdade apareceu em nossas discussões desde o início do projeto. Repetição pelo saber lidar com a técnica dia após dia e fazendo dela um usufruto que não bloqueie estados de espontaneidade/verdade no jogo apresentado a publico. Por colocar em jogo materiais/experiências de trabalhos anteriores, adiantamos esse questionamento no intuito de criar um espetáculo atraente para diversos públicos; e ao mesmo tempo particular em suas escolhas.
Na atual fase do trabalho pudemos começar a responder nossos próprios questionamentos. Percebemos que a transição do treinamento físico ao processo criativo é mais subjetiva do que pensávamos. O corpo acostumado aos treinamentos diários e ao contato com determinados estados de energia37passa a encontrar esses estados em um tempo menor e a mantê-los ativos com mais sabedoria. Assim como experiências cotidianas grudam na pelememória do homem e o acompanha, a práxis assumida pelo grupo em fase de treinamento, inevitavelmente, se faz presente no corpo pós-treinamento. E é esse mesmo corpo que entrará em processo criativo.
CONSIDERAÇÕES
Talvez em busca de um corpo sem órgãos, que já explodiu a torre cartesiana e agora é ocupado só de intensidade, de energia = matéria (DELEUZE & GUATTARI, 1947, p.13), o artista cênico se realiza na própria e singular busca do “como fazer”. Caminha atrás de um ponto em contínuo deslocamento.
A arte do ator é um trabalho complexo e frutífero. Ator como aquele que age e se coloca a mostra, trazendo o invisível aos olhos do público, em devir e a criar devires, espaços entre;
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Prática em oficinas com o LUME TEATRO, treinamentos de AIKIDÔ, dança butô e trabalho com o clown. Dentre os colaboradores estão Kysy Fischer, Larissa Lima e Heidy Mayumi.
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Nesses estados de energia estão inclusos a reverberação de impulsos subcutâneos no corpo inteiro, o estado de atenção e percepção mais apurada aos movimentos do grupo no espaço e ao estado de alteração fluida entre qualidades de movimento (leveza, rapidez, lentidão, etc.)
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promovendo questionamentos, (co-) movendo, (pro-) movendo encontros e fazendo desses encontros um espaço peculiar de comunhão, de vida, de entrega. Espaço que se desdobra em outros espaços. Espaço onde se sonha acordado.
De todo um entrelaçado de idéias e pesquisas, o ator é marcado por uma infinidade de materiais e referências no desenvolvimento de sua pesquisa individual, na formação desse corpo à mostra, que executa e aprende enquanto executa. Passa por técnicas, mantendo suas singularidades e idiossincrasias em constante fluxo. Corpo vibrátil (ROLNIK, 2006), aberto a informações “externas”, a transitar na diversidade espaço-temporal. O ator, sem receios para perpassar por estéticas que desconhece ou que pré-conceitua, passa a mergulhar em territórios abissais, a criar caminhos por onde possa vir a expressar os seus maiores desejos e afetações. Assume, assim, seu papel de grande catalisador e observador, trabalhando sobre o que é instável e tão somente humano.
A ação consciente em concomitância a atmosfera de novo e de presença é um objetivo, algo a ser pesquisado, discutido, trocado com colegas até que aos poucos se vislumbrem brechas e pontos de luz.
REFERÊNCIAS
BROOK, Peter. O Teatro e seu Espaço. Tradução de Oscar Araripe e Tessy Calado. Apresentação de Oscar Araripe. Editora Vozes LTDA. Petrópolis. 1968.
DELEUZE, Guilles. GUATTARI, Félix. Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 3. Editora 34. 1947. 6. Como criar para si um corpo sem órgãos.
GREINER, Christine. Por uma dramaturgia da carne: o corpo como mídia da arte. In Temas
em contemporaneidade, imaginário e teatralidade / organizado por Armindo Bião, Antonia
Pereira, Luiz Cláudio Cajaíba, Renata Pitombo. – São Paulo: Annablume: Salvador:/ JIPE-CIT, 2000. GROTOWSKI, Jerzy. Invocação– para o espetáculo Orfeu. In O Teatro Laboratório de Jerzy
Grotowski 1959-1969 / textos e materiais de Jerzy Grotowski e Ludwik Flaszen com um escrito de
Eugenio Barba; curadoria de Ludwik Flaszen e Carla Pollastrelli com a colaboração de Renata Molinari; tradução para o português Berenice Raulino. São Paulo: Perspectiva: SESC; Pontedera, IT: Fondazione Pontedera Teatro, 2007.
GROTOWSKI, Jerzy. Resposta a Stanislavski - tradução de Ricardo Gomes - Revista Folhetim do Teatro do Pequeno Gesto, Rio de Janeiro, número 9, p. 2-21, 2001.
JEUDY, Henri-Pierre. O Corpo como Objeto de Arte / Henri-Pierre Jeudy; tradução Tereza Lourenço. – São Paulo: Estação Liberdade, 2002
O Mosaico: R. Pesq. Artes, Curitiba, n. 6, p. 126-134, jul./dez., 2011
NUNES, Sandra Meyer. As metáforas do corpo em cena / Sandra Meyer Nunes – São Paulo: Annablume/ UDESC, 2009.
ROLNIK, Suely. Geopolítica da cafetinagem / Artigo. São Paulo, 2006. http://eipcp.net/transversal/1106/rolnik/pt. Acesso em: 20/01/2011.
SETENTA, Jussara Sobreira. O fazer-dizer do corpo: dança e performatividade/ Jussara Sobreira Setenta. – Salvador: EDUFBA, 2008.