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TREINANDO O OLHAR: OBSERVAR, SENTIR, ESTRANHAR, OUVIR E COMPREENDER

o dia 6 de agosto, chego à USF e fico observando sua estrutura física e o seu entorno. É uma Unidade pequena, porém com bastante espaço externo, no qual fica localizado o estacionamento e uma árvore que serve de proteção para os pacientes aguardarem a abertura da USF para o início do atendimento. Durante meu passeio de reconhecimento da área, observo que há um salão de múltiplo uso, equipado com uma mesa grande, algumas cadeiras, uma caixa de som fixa na parede. Esse é o espaço onde são realizadas as atividades coletivas e que recebeu a denominação pelos funcionários de “Espaço Cultural”. Ao lado do salão fica o consultório odontológico que há quase três anos está sem funcionar por problemas na estrutura física. As salas da Unidade de Saúde são todas gradeadas, o que se justifica pelo alto índice de roubos de equipamentos nas Unidades de Saúde do município.

Entrar em uma Unidade de Saúde, apesar de trabalhar em uma e já ter sido gestora, sempre me causou certo estranhamento. Talvez por algumas experiências não muito acolhedoras em momentos que acompanhava algum parente aos serviços públicos de saúde. Entro na Unidade e procuro algum profissional que facilite a minha inserção no ambiente.

Encontro uma enfermeira e uma dentista que estão preenchendo um instrumento do PMAQ. As duas funcionárias já eram conhecidas e a enfermeira já havia contribuído com a pesquisa, no momento em que realizei o mapeamento das atividades educativas nas USF do município de Natal. Deu-me as boas-vindas e ao ouvir minha exposição de motivos sugeriu que eu fosse participar da reunião do grupo de idosos denominado “Conviver para Melhor Viver”. Esse grupo se reúne toda segunda-feira à tarde, informa a enfermeira. Dirigi-me, então, ao espaço onde estava acontecendo a atividade. Apresentei-me ao grupo e falei do meu propósito. A atividade ainda não havia iniciado e as mulheres que participam do grupo estavam sozinhas no salão. Aos poucos fui conversando e descobri que algumas faziam parte da área de abrangência da minha equipe em outra Unidade no mesmo bairro. Elas imediatamente justificaram a participação no grupo em virtude da falta de médico em nossa equipe. Nesse dia, o grupo contou com a presença de um médico e três estudantes de medicina, que conduziram a atividade. O tema abordado foi depressão na terceira idade. Os estudantes tiveram que realizar a atividade de forma diferente do que haviam planejado em virtude de alguns problemas de logística. Estando ali presente não poderia me furtar de colaborar com a viabilização da atividade, propondo outra metodologia (roda de conversa mediada pelas experiências das mulheres). A falta de apoio logístico institucional foi logo percebida ali. Apesar das dificuldades, o conteúdo foi discutido de forma dinâmica e contou com a participação de todas as idosas. Ao final do encontro, o médico solicitou às participantes que dissessem uma palavra que representasse a avaliação da atividade. As mulheres avaliaram como bastante proveitoso e alegre. Sinto que minha presença no grupo, de certa forma proativa, abriu perspectiva de estabelecer vínculos, tanto com o profissional que coordenou o grupo quanto com as participantes.

Esse meu primeiro contato na condição de pesquisadora colocou-me diante das primeiras dúvidas. A minha participação no grupo teria sido pertinente? Será que eu me portei de forma correta? Sinto que preciso me apropriar melhor do método. Retorno às leituras.

A escolha pela observação participante como fonte principal da coleta de dados nos impõe a condição de estar muito atento ao que Malinowski denominou de imponderáveis da vida social. É preciso estar atento a como os processos investigados se organizam na prática; quais as incongruências entre o que se percebe nas falas dos informantes e o que se observa; como se dão as relações entre os investigados e, por último estar atento aos sinais e símbolos e seus significados para a pesquisa (MINAYO, 2010). É preciso, portanto, treinar o olhar. Tornar estranho o conhecido e reconhecer o estranho. Como bem nos lembram Caprara e

Landim (2008) ao citarem Banyai (2002) “o fenômeno não pode ser compreendido fora do seu contexto, por isso o significado emerge da relação com outros signos e, na antropologia, o significado é sempre construído culturalmente: nada é o que parece ser” (CAPRARA; LANDIM, 2008, p. 365).

Meus primeiros contatos se deram com profissionais que já eram meus conhecidos, o que, de certa forma, causou-me sensação de tranquilidade por um lado e, por outro, certa apreensão de como eu poderia conduzir a pesquisa sem me perder no caminho das afetividades. Outra questão que me deixava apreensiva era o fato de já ter sido coordenadora da ESF e de como esse fato poderia interferir na minha inserção no campo. Entretanto, a maioria dos funcionários era para mim desconhecida. Àqueles que eu ia encontrando pelo caminho eu falava sobre meu propósito naquela Unidade. Poucos se interessavam, entretanto, acolheram-me de forma bastante solícita. Um médico, que já era meu conhecido, depois de me ouvir comentou que achava muito complexo o tema que seria abordado na pesquisa e prontamente aceitou colaborar.

A construção da identidade do pesquisador pelo grupo vai se forjando nas várias instâncias de convivência, desde o primeiro contato. Na pesquisa qualitativa, por se tratar de naturezas semelhantes (objeto/observador), a relação sujeito/objeto se dá mediante um contexto que, ao mesmo tempo que é transformado, promove a transformação dos sujeitos (pesquisador/pesquisado). Nesse sentido, a construção de alteridades se faz primordial e exige a construção de empatias, humildade (MINAYO, 2010).

O pesquisador constrói de sua parte seu objeto, tecnicamente e teoricamente, seleciona fatos, define conceitos e interpreta seus resultados. Contudo, sua capacidade criadora e sua experiência são fundamentais para um bom desempenho na pesquisa qualitativa, salientando- se que essa capacidade criadora é de difícil definição por se tratar de algo oriundo da história pessoal e da experiência subjetiva. Corresponde à capacidade reflexiva, à memória intelectual e ao nível de comprometimento do pesquisador com o objeto. No entanto, jamais pode pensar que o estudo corresponde à totalidade da realidade, pois o conhecimento produzido é um conhecimento aproximado e inacabado (MINAYO, 2010).

Ciente dessas questões, senti a necessidade de me apresentar para toda a equipe e expor os meus propósitos durante o tempo que ficaria frequentando aquela Unidade, observando, perguntando, registrando. Procuro saber se tem alguma reunião geral prevista para aquele mês. Disseram-me que aconteceria uma no dia 30 do mesmo mês. Programo-me para participar. Enquanto a reunião não acontecia, continuei fazendo minhas observações.

Resolvi acompanhar de forma mais sistemática o grupo “Conviver para Melhor Viver”, por ser semanal e já ter mais de dez anos, o que me pareceu ter grande sustentabilidade. Portanto, me programo para estar na Unidade de Saúde de uma forma mais constante no turno vespertino. Além das atividades coletivas, observaria todo o processo de trabalho no intuito de explorar melhor outras atividades que estivessem acontecendo e que se relacionasse ao objeto de estudo. Então, passei a frequentar a Unidade de Saúde durante toda a semana em dias alternados. Sempre que chegava à Unidade de Saúde, olhava os corredores e estes sempre estavam com bastantes usuários à espera de algum tipo de atendimento. Saía à procura do que observar, com quem conversar e descobrir que tipo de atividade se realizaria naquele momento, como se desenvolvia o processo de trabalho da Unidade. Sempre com o propósito de estabelecer relações entre as atividades de educação em saúde e as demais; os significados dessas ações para profissionais e usuários.

A VISITA DOMICILIAR: LOCUS PRIVILEGIADO DAS AÇÕES DE EDUCAÇÃO