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5.1 F RAMEWORKS USADOS NO PROCESSO ARES

5.1.3 Triângulo de Couclelis

Em seu trabalho Couclelis (2010), propõe um framework ontológico baseado na noção epistemológica de informação e guiado pela noção teleológica de propósito. Desta forma, a ontologia é apenas um vértice de um triângulo de conhecimento que inclui ainda epistemologia e teleologia. Enquanto a ontologia lida com o que existe em um determinado domínio, num determinado tempo, a epistemologia está preocupada com a natureza e o escopo do conhecimento, enquanto que a teleologia está preocupada com a razão. No entendimento da autora, conciliada nos conceitos e filosofia do processo ARES, sem epistemologia, não haveria uma compreensão sistemática da natureza da correspondência entre ontologias e o domínio geral ou específico de investigação que cada uma delas representa; e, sem teleologia, não seria possível distinguir entre os resultados dos processos causais, por um lado, e os resultados das ações intencionais dos atores ou máquinas sencientes, por outro.

O triângulo de Couclelis, considera a informação o pilar para a estruturação epistemológica da ontologia. A informação, enquanto noção fundamental da epistemologia, apresenta-se como escolha natural. Informação por si é um conceito relacional não absoluto que expressa uma relação intrínseca entre fonte de informação e destinatário (WILLIAMSON, 1994; HUCHARD et al., 2007). Essa característica da informação estabelece uma base para levar em consideração os interesses do usuário e, assim, forjar um elo entre ontologia e teleologia. O uso da informação como noção central traz ainda a inevitabilidade da epistemologia, visto que seu uso, em oposição ao uso de conceitos ou termos linguísticos mais diretamente associados ao mundo empírico, é precisamente que ela levanta a questão da relação entre esse mundo empírico e a ontologia em consideração. Por fim, uma vez que a informação vem em quanta, possibilita uma abordagem construtivista ao desenvolvimento de ontologias, orientando o framework.

A consideração teleológica do propósito tem seu respaldo na imprescindível necessidade de propósito no desenvolvimento de uma representação. Além do fato de que muitas das entidades empíricas representadas numa ontologia – quer seja no contexto da ciência da informação geográfica proposto pela autora, quer seja no contexto da pesquisa aplicada de engenharia abordado no processo ARES – também foram criadas ou modificadas pelo homem com propósitos específicos em mente. Por conseguinte, o propósito pode ser visto como a interface entre entidades observáveis e necessidades e desejos.

O framework ontológico de Couclelis consiste em uma sequência ordenada de sete níveis hierárquicos sistematicamente relacionados: propósito, função, objetos compostos, objetos simples, classes ou similaridades, observáveis e existência. Os níveis são diferenciados pelo seu grau de riqueza semântica, variando de mínima a máxima complexidade semântica. A ideia subjacente à construção da hierarquia é a seguinte. Ciência da informação é sobre representações de entidades, não sobre as entidades em si. As representações são compostas de informações selecionadas e organizadas para algum propósito, quer seja um propósito implícito ou explícito – esta organização adequada de informações com um propósito, ou com a intenção de ser útil, partilha da definição de conhecimento de diversos autores (ZINS, 2007), e serve ao propósito da gestão do conhecimento tal como adotada no processo ARES. O objetivo da estrutura delineada no framework é apresentar em modelo sistemático de como as representações de entidades se relacionam com as informações disponíveis e com os propósitos para o quais tais representações são construídas.

Nível 7 – Propósito: Esse nível descreve a interface entre o mundo das entidades e o mundo social dos agentes intencionais. Propósito determina quais funções precisam ser representadas, quais entidades distintas pertencem para formar um objeto complexo, com objetos simples são nomeados e categorizados, quais propriedades mensuráveis correspondem às entidades de interesse e como elas devem ser analisadas, que tipo de informação é relevante e, finalmente, qual estrutura espaço-temporal deve estar subjacente às representações apropriadas para o propósito em questão. Os propósitos selecionam, portanto, subconjuntos de

informação adequados a partir de um domínio abrangente de dados possíveis e constroem, a partir deles, os objetos de informação semanticamente apropriados para esses propósitos.

Nível 6 – Função: Toda representação é projetada para funcionar cognitivamente de formas particulares, de modo a apoiar os propósitos para os quais ela foi desenvolvida. Além disso, em entidades artificiais ou naturais adaptadas para fins humanos, a função é a realização desses propósitos.

Os níveis seis e sete, função e propósito, estão intimamente ligados em um relação meio-fim; no tocante em que as funções servem a um propósito. As duas perspectivas simétricas de projeto e análise são refletidas nessa relação: o projeto opera do nível sete ao seis, enquanto a análise sobe do nível seis para o sete. Nesses níveis mais altos da hierarquia, os construtos de informação coincidem com as representações das entidades no sentido comum. Cada entidade assim representada pode ter várias finalidades e funções correspondentes, e várias entidades diferentes podem ter propósitos iguais ou semelhantes.

Nível 5 – Objetos compostos: Entidades compostas de partes discretas ou não homogêneas são reconhecidas como objetos únicos na extensão exigida pelas funções necessárias para atender os propósitos específicos.

As propriedades que caracterizam o nível cinco ainda são bastantes abstratas, no sentido de que a inteligência necessária para distinguir e descrever objetos compostos deve ir além de quaisquer qualidades diretamente mensuráveis. Propósito e função são agora reduzidos a um papel nomeado, um atributo não essencial de objetos que não permite consultas relacionadas a mudanças funcionais e/ou associadas.

Nível 4 – Objetos simples: Os objetos homogêneos conectados são categorizados e nomeados dependendo de seu papel no contexto de objetos complexos ou diretamente em sua função. Esse é nível mais baixo no qual os objetos de informação são identificados como entidades específicas do mundo real.

Nível 3 – Classes: As classes podem ser definidas por propriedades únicas ou por complexos de propriedades. Nesse nível, padrões espaço-temporais e atributos de objetos são analisados e classificados com base em suas propriedades

mensuráveis, embora as informações disponíveis não sejam mais suficientes para identificar os objetos de informação resultantes com entidades empíricas específicas.

Nível 2 – Observáveis: Objetos de informação bruta neste nível somente permitem o conhecimento qualitativo de que tipos distintos de informação relevante existem em pontos específicos no espaço-tempo.

Nível 1 – Existência: Todo conteúdo semântico foi drenado do framework, exceto pela noção de que pontos específicos do espaço-tempo estão associados a informações apropriadas para os propósitos especificados no nível sete. Há apenas uma propriedade nesse nível: a existência, ou a capacidade de ter certeza de que algum tipo de informação relevante pode existir em um grânulo particular de espaço e tempo.

A abordagem ontológica do triângulo de Couclelis permite a estruturação do conhecimento gerado durante a pesquisa a partir de seus propósitos específicos até os artefatos técnicos particulares de cada disciplina. Desta forma, a sequência dos modelos, da modelagem cognitiva à modelagem da implementação do sistema, define a estrutura ontológica do processo ARES e contempla a organização, retenção e apropriação do conhecimento nele gerado – num mapeamento um para um com o triângulo de Couclelis. A escolha desse framework se deu por três fatores que expressam as relações entre ontologia, epistemologia e teleologia:

• Por sua consistência interna – relação ontologia-epistemologia. O mapeamento hierárquico proposto no framework permite a análise de inconsistências e lacunas internas pela apreciação e exploração dos objetos disponíveis em um nível inferior da hierarquia.

• Por possibilitar a representação de objetos artificiais e mudanças intencionais dentro da mesma estrutura ontológica que objetos naturais e mudanças causais – relação ontologia-teleologia. O nível de propósito minimiza as diferenças pelo crivo de um propósito comum de interesse para o usuário. Tanto os objetos naturais quanto as mudanças causais podem ser aproveitados e modificados para cumprir um propósito, tornando-se agentes

de um processo intencional (por exemplo, imagem geradas por ultrassom ou energia gerada pelos ventos).

• Por sua abordagem guiada pela noção teleológica de propósito – relação teleologia-epistemologia. O framework parte da identificação dos objetos de informação nos níveis superiores da hierarquia que correspondem aos propósitos de interesse. Em seguida, tendo mapeado a ontologia do domínio em questão para a estrutura hierárquica, segue-se os caminhos de ramificação relevantes descendentes do nível mais alto – de propósito para função para objetos compostos, etc. –, no qual os elementos da ontologia em consideração podem ser encontrados.

5.2 O PROCESSO ARES DESCRITO SOB A PERSPECTIVA DE SUAS