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1 INTRODUÇÃO 1 2 REVISÃO DE LITERATURA

2.5 TRIAGEM, CLASSIFICAÇÃO DE RISCO E ACOLHIMENTO

Considera-se que a triagem de pacientes foi utilizada primeiramente durante a Revolução Francesa pelo exército de Napoleão, como método para avaliação rápida e identificação do nível de gravidade dos soldados que, exigindo atenção médica mais imediata, eram separados para que seu tratamento fosse priorizado e eles pudessem voltar às suas atividades (COUTINHO; CECÍLIO; MOTA, 2012). Há relatos de que ainda em 1898 um hospital de Londres tinha seus pacientes admitidos um por vez, após serem entrevistados por uma enfermeira, que os encaminhava para um clínico ou cirurgião (GBACR, 2015). Ainda

15 assim, em nenhum dos casos havia uma avaliação precisa do nível de gravidade dos pacientes, mas sim uma diferenciação do tipo de atendimento necessário para cada um deles.

Esse sistema continuou sendo utilizado em contextos de grandes quantidades de vítimas feridas, como guerras e catástrofes, cenário que se manteve até a década de 1960, quando então foi iniciada sua aplicação à população civil. Nesse período, se iniciou uma mudança no cenário de atendimentos médicos nos Estados Unidos, quando os serviços de emergência passaram a substituir os médicos particulares e de família e tiveram sua demanda aumentada. Com essa mudança de referência, mesmo pacientes menos graves passaram a buscar atendimento nesses serviços, tornando-se, assim, necessária a adoção de métodos de classificação que pudessem identificar aqueles mais graves (GBACR, 2015). Nesse período, nos Estados Unidos foi desenvolvida uma classificação em 03 níveis (emergente, urgente e não urgente), evoluindo para 04 níveis, em 1994. Paralelamente, no Canadá, nos anos 70, estudava-se o desenvolvimento de um sistema de triagem, assim como ocorreu na Austrália nos anos 1990, e no Reino Unido no mesmo período (DURO; LIMA, 2010).

Os termos triagem e classificação de risco têm sido diferenciados entre os autores por conta da conotação que representam em relação à assistência ao usuário.

O termo triagem deriva do verbete francês trier, referente aos conceitos de selecionar, escolher, separar. Ele é utilizado especialmente em países anglo-saxônicos, como Estados Unidos, Inglaterra, Suécia, Austrália. Porém esta terminologia denota seleção e exclusão, dessa forma países latinos têm utilizado outros termos. No Brasil, estabeleceu-se a expressão

acolhimento com classificação de risco, utilizada como referência pela Política Nacional de

Humanização do Ministério da Saúde, já que traduz o termo triagem estruturada (ACOSTA; DURO; LIMA, 2012; DURO; LIMA, 2010), além de incluir o componente de humanização do acolhimento, retomado adiante (DURO; LIMA, 2010).

A triagem foi o primeiro sistema formalizado de gerenciamento de risco clínico, projetada para assegurar que sempre que a demanda superar os recursos existentes, estes devem ser direcionados para os pacientes com mais necessidade clínica. Nesse sentido, o problema não é a triagem ou o sistema utilizado para decisão clínica, mas a falta de recursos disponíveis para o atendimento a toda a demanda (WINDLE; MACKWAY-JONES, 2003).

A Classificação de Risco é um processo dinâmico de identificação dos pacientes que necessitam de tratamento imediato, de acordo com o potencial de risco, agravos à saúde ou grau de sofrimento, e não mais impessoal e por ordem de chegada (BRASIL, 2006a).

16 O Manual de Regulação de Emergências Médicas estabelece que os objetivos da classificação de risco em emergência são: “avaliar o paciente logo na sua chegada ao pronto- socorro, humanizando o atendimento; descongestionar o pronto-socorro; reduzir o tempo para o atendimento médico, fazendo com que o paciente seja visto precocemente de acordo com a sua gravidade; determinar a área de atendimento primário, devendo o paciente ser encaminhado diretamente às especialidades conforme indicado em cada situação (exemplo: ortopedia, ambulatórios, etc.); informar os tempos de espera; promover ampla informação sobre o serviço aos usuários; e retornar informações a familiares” (BRASIL, 2006b).

O fato de haver indivíduos que “passam na frente” pode gerar questionamentos por aqueles que se sentem prejudicados, no entanto, isso pode ser minimizado com ampla divulgação aos usuários na sala de espera do processo utilizado. Àqueles que ainda resistam, o processo de escuta deve ser exercitado utilizando-se a própria tecnologia para tanto (BRASIL, 2006b).

As políticas de saúde referentes à atenção em urgência e emergência tratam este processo com a nomenclatura “Acolhimento com Classificação de Risco”, estabelecida pela cartilha de mesmo nome (BRASIL, 2009). Porém, mais que o nome utilizado para um serviço de classificação em emergência, o conceito de acolhimento está relacionado à relação do profissional com o usuário, que deve ouvir e valorizar suas queixas, orientá-lo, identificar suas necessidades como também o contexto em que ele vive (DAL PAI; LAUTERT, 2011; NASCIMENTO et al., 2011b; ZANELATTO; DAL PAI, 2010). Dessa forma, percebe-se que esta atitude é mais que uma atividade de recepção no serviço encarregado a um determinado profissional ou em um local específico (LIMA NETO et al., 2013a).

Cabe ressaltar que o acolhimento não significa resolver todos os problemas do indivíduo, mas se observar a importância de que ele não seja dispensado da unidade sem algum tipo de atendimento, já que, como diretriz operacional, deve garantir a universalidade do acesso, procurando identificar as suas necessidades como também o contexto em que ele vive (ZANELATTO; DAL PAI, 2010).

O acolhimento também pode ser visto como a adoção de uma postura de aproximação e responsabilização durante as atividades assistenciais e de gestão, ao fortalecer a confiança e o compromisso entre usuários, equipes e serviços (DAL PAI; LAUTERT, 2011; LIMA NETO et al., 2013a; ROSSANEIS et al., 2011).

A Política Nacional de Humanização reafirma a importância da recepção dos usuários de forma acolhedora e humanizada. Porém, para que isso seja exercido propriamente, é

17 necessária a estruturação dos serviços, bem como a capacitação dos profissionais implicados neste processo (LIMA NETO et al., 2013a).

Este trabalho se atém especialmente ao processo de classificação como foco, apesar de também considerar aspectos como a humanização e o acolhimento. Desta forma, ao longo desta dissertação será utilizado o termo classificação de risco e, especialmente quando relacionado à cartilha do Ministério da Saúde utilizada como referência, Acolhimento com

Classificação de Risco. Quando extraordinariamente utilizado o termo triagem, ele será

considerado sinônimo do termo “classificação de risco”.

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