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Por fim, do egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso extrai-se o acórdão proferido no Agravo de Instrumento nº 22395/2006, julgado em 31 de maio de 2006.

TESTEMUNHA DE JEOVÁ – PROCEDIMENTO CIRÚRGICO COM POSSIBILIDADE DE TRANSFUSÃO DE SANGUE – EXISTÊNCIA DE TÉCNICA ALTERNATIVA – TRATAMENTO FORA DO DOMICÍLIO – RECUSA DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA – DIREITO À SAÚDE – DEVER DO ESTADO – RESPEITO À LIBERDADE RELIGIOSA – PRINCÍPIO DA ISONOMIA – OBRIGAÇÃO DE FAZER – LIMINAR CONCEDIDA – RECURSO PROVIDO.

Havendo alternativa ao procedimento cirúrgico tradicional, não pode o Estado recusar o Tratamento Fora do Domicílio (TFD) quando ele se apresenta como única via que vai ao encontro da crença religiosa do paciente.

A liberdade de crença, consagrada no texto constitucional não se resume à liberdade de culto, à manifestação exterior da fé do homem, mas também de orientar-se e seguir os preceitos dela.

Não cabe à administração pública avaliar e julgar valores religiosos, mas respeitá- los. A inclinação de religiosidade é direito de cada um, que deve ser precatado de todas as formas de discriminação.

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Se por motivos religiosos a transfusão de sangue apresenta-se como obstáculo intransponível à submissão do recorrente à cirurgia tradicional, deve o Estado disponibilizar recursos para que o procedimento se dê por meio de técnica que dispense-na, quando na unidade territorial não haja profissional credenciado a fazê-la.

O princípio da isonomia não se opõe a uma diversa proteção das desigualdades naturais de cada um.

Se o Sistema Único de Saúde do Estado de Mato Grosso não dispõe de profissional com domínio da técnica que afaste o risco de transfusão de sangue em cirurgia cardíaca, deve propiciar meios para que o procedimento se verifique fora do domicílio (TFD), preservando, tanto quanto possível, a crença religiosa do

paciente.51 (grifo nosso).

Essa decisão foi propositadamente deixada por último, tendo em vista possuir um objeto diverso às decisões anteriormente analisadas.

A ação foi proposta pelo próprio paciente, uma vez que o estado do Mato Grosso não possuía profissionais habilitados para a realização da cirurgia nos moldes por ele aceitos e visava tão somente ao fornecimento dos meios necessários para seu deslocamento até o estado de São Paulo, onde o aludido procedimento seria realizado pelo Sistema Único de Saúde – SUS – e com técnicas que dispensam a transfusão de sangue.

O desembargador relator sustentou que a concessão para a realização da cirurgia cardíaca, de acordo com as conveniências religiosas do agravante, feriria o princípio da isonomia, negando, portanto, provimento ao recurso.

O voto do relator foi acompanhado, em um primeiro momento, pelo magistrado Leônidas Duarte Monteiro (1º Vogal).

Após, veio a decisão do 2º Vogal, Orlando de Almeida Perri, o qual mencionou que, no caso em análise, não se estava diante de confrontação entre o direito à vida e o direito à liberdade, mas entre o “[...] direito à saúde e a obrigação de o Estado proporcionar ao cidadão tratamento médico que não implique em esgarçamento à sua liberdade de crença religiosa.”52

Perri mencionou que o Estado não poderia impor ao cidadão se submeter a um tratamento ao qual ele recusa, devido às suas crenças religiosas, pelo motivo de não haver, em seu quadro de funcionários, um profissional habilitado a realizar o procedimento almejado, pois, se assim agisse, estaria desrespeitando o direito fundamental à liberdade, principalmente, a religiosa.

Ressaltou, ainda, que, após diversas pesquisas, constatou a existência de várias técnicas alternativas ao tratamento com transfusão de sangue:

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BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso. Agravo de Instrumento nº 22395/2006. Relator: Des. Sebastião de Arruda Almeida. Cuibá, MT, 31 maio 2006. Disponível em:

<http://www.tjmt.jus.br/servicos/jurisprudencia/ViewAcordao.aspx?key=18b3af29-7a81-4004-aec8- 64e2860a35e8&render=1>. Acesso em: 16 maio 2012.

52

Após exaustivas pesquisas e informações tomadas com os profissionais da área, constatei a existência de técnicas alternativas que dispensam, em cirurgias e procedimentos cardíacos, a transfusão de sangue, podendo citar a auto-transfusão, a utilização de máquina que permite reaproveitar o sangue do próprio paciente, o bisturi elétrico, que cauteriza ao mesmo tempo que corta, a estimulação de glóbulos vermelhos por hormônio, etc.53

Foi objeto de sua argumentação o direito à liberdade de crença, o qual não está apenas adstrito à liberdade de culto, mas de também poder agir e orientar-se de acordo com seus preceitos religiosos, de modo que o estado não pode violar tal direito, por mais estranha que a crença do agravante lhe pareça.

Além do que, “não cabe à Administração Pública avaliar e julgar valores religiosos, mas respeitá-los. A inclinação de religiosidade é direito de cada um, que deve ser precatado de todas as formas de discriminação.”54

Percebe-se da decisão do 2ª Vogal o respeito ao direito à liberdade do agravante, a qual também deve ser respeitada pelo Estado, haja vista tratar-se de direito fundamental expresso na Constituição. Mas até que ponto o estado deveria arcar com o respeito à liberdade do agravante?

O desembargador Perri esclareceu que a existência na comunidade médica de procedimento cirúrgico substitutivo, não disponível no estado do Mato Grosso, era a exceção necessária para que o procedimento se desse fora do domicílio do agravante, haja vista a legislação do Estado do Mato Grosso atinente às normas do SUS mencionar que “o tratamento fora do domicílio constitui recurso de exceção e somente será admissível quando esgotados todos os meios de tratamento existente no Estado de Mato Grosso [...].”55

Desta feita, o voto do 2º Vogal seguiu o entendimento segundo o qual o Estado do Mato Grosso deveria arcar com os gastos atinentes ao tratamento fora do domicílio (TFD), haja vista ser a única via que possibilitaria respeitar o direito individual à liberdade do paciente/agravante.

Diante dos argumentos exarados na decisão do 2º Vogal, o 1º Vogal optou por retificar seu voto, passando a compreender ser obrigação do Estado do Mato Grosso proporcionar um tratamento compatível com as crenças do agravante, de modo que, agindo assim, estar-se-ia respeitando o direito à liberdade e, sobretudo, o direito à vida. Com a mudança do voto do 1º Vogal, portanto o recurso foi provido.

53

BRASIL. Agravo de Instrumento nº 22395/2006. Loc. cit.

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Ibid.

55

Esse caso mostra-se um pouco diferente do observado neste trabalho, porém extremamente interessante. Vê-se um titular de direitos – o paciente – e um titular de uma obrigação – o Estado –, de modo que se pode dizer, por um lado, não existir um conflito entre eles, pois o paciente tem assegurado o seu direito à saúde e o Estado tem a obrigação em proporcionar tal direito, pois, conforme assevera Mendes, Coelho e Branco, o Estado tem “[...] em relação ao indivíduo, primeiro, deveres e, depois, direitos.”56

Por outro lado, poder- se-ia dizer haver um conflito entre o direito à saúde do paciente e o direito do estado de se organizar financeiramente, da melhor maneira, o direito de preservar seus recursos financeiros para beneficiar, também, o restante da população.

Independente da existência de possível conflito ou não, o juiz Perri sustentou que o Estado tem o dever de fornecer ao cidadão procedimento médico que não atente à sua liberdade, preservando, assim, tanto o direito à vida quanto a liberdade de crença.

O desembargador que negou provimento ao recurso mencionou também a questão da isonomia, asseverando que a concessão do pedido feriria tal princípio, de modo que, se fosse concedido tal benefício a um, ter-se-ia que conceder a outros. Entretanto, como afirmou o próprio desembargador, a aplicação do princípio da isonomia exige a existência de igualdade de condições, o que só pode ser analisado no caso concreto. Assim, na análise do caso em tela, observa-se que o desejo do paciente de proceder a uma cirurgia em outro estado não extrapolava os limites da sua liberdade de escolha, em especial, a liberdade religiosa.

Portanto constata-se dessa decisão que inexiste conflito de normas quando um paciente opta por tratamento diverso à transfusão de sangue. Ainda, diante da possibilidade de um conflito entre o direito à saúde e o direito do Estado de se organizar financeiramente, da melhor forma, verifica-se que não há porque presumir-se que, em casos como o analisado, o efetivo respeito à liberdade religiosa individual conflitaria com os interesses do restante da população, considerados os recursos financeiros estatais que a todos devem beneficiar.