CAPÍTULO IV – PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS TRIBUTÁRIOS
5.2 Tributação da renda
A implementação de duas condições são fundamentais, segundo Arthur Seldon e F.G. Pennance183, para a determinação do conceito de renda, a saber: “A existência de um sujeito econômico e o aumento de bens em conexão com a economia ou com a atividade lucrativa do sujeito”. Não há, pois, como concebê-la dissociado do substrato econômico a que se vincula.
O termo renda, formado do verbo render (produzir, pagar, restituir), do verbo latino reddere (render), donde a origem de crédito (juro), é aplicado na linguagem jurídica e financeira em várias significações. Aliás, o Direito Tributário, no capítulo em que regulamenta o imposto sobre a renda, aplica-o nesta significação: é o rendimento, é a receita auferida pela pessoa, física ou jurídica, sem importar sua fonte ou origem184.
Aquisição de disponibilidade jurídica de renda e proventos de qualquer natureza é a obtenção da faculdade de usar, gozar ou dispor de dinheiro ou de coisas nele conversíveis, entrando para o patrimônio do adquirente por ato ou fato jurídico. Esta é a conclusão a que chegou o XI
183
SELDON, Arthur; PENNANCE. F.G. Dicionário de Economia. 2. ed. Rio de Janeiro: Blach Editores, 1978. p.102.
184
Simpósio Nacional de Direito Tributário, sob o tema: Fato Gerador do Imposto sobre Renda e Proventos de Qualquer Natureza185.
A pesquisa de valores que devem ou deveriam impor-se, acima da onipotência do legislador, acima da criação arbitrária de regras formais do direito positivo, conduz, portanto, necessariamente à elaboração de uma ética do legislador186.
O fato econômico se sobressai por si mesmo, valendo dizer que sua existência independe do fenômeno da juridicidade. Nesse sentido, pode se afirmar que os termos renda e proventos estão sempre nele contido, mesmo que não derive de uma situação jurídica devidamente constituída. Porém, a ocorrência da disponibilidade exige que a situação jurídica esteja consolidada.
Para Aliomar Baleeiro, estribado na posição de Rubens Gomes de Souza:
o conceito de renda é fixado livremente pelo legislador segundo consideração pragmática, em função da capacidade contributiva e da comodidade técnica de arrecadação. E se serve de uma, ora de outro dos dois conceitos teóricos para fixar o fato gerador187.
Decerto, nem na seara da Economia há um consenso doutrinário a respeito da noção conceitual de renda, em face de suas variadas definições históricas, como assinalam Arthur Seldom e F. G. Pennance. Entendem que o conceito de renda é consubstanciado pelo tempo e só pode ser concebido em referência a um determinado momento dele. Daí realçar a imprecisão de certas noções a respeito da questão, no âmbito da Economia, visceralmente vinculada “à produção, à criação de riquezas sob a forma de bens reais de serviços”188
. A legislação complementar no CTN absorveu o sentido do excedente econômico construído pela doutrina a fim de emprestar consistência
185
MARTINS, Ives Gandra da Silva (coord.). Caderno de Pesquisas Tributárias, n. 2. São Paulo: CEEU: Editora Resenha Tributária, 1987.
186
BOUUAERT, I. Clacys. Reflexões sobre as bases de uma política fiscal. In: TAVOLLARO, Agostinho Toffoli; MACHADO, Brandão; MARTINS, Ives Gandra da Silva (coord.). Princípios tributários no Direito brasileiro e comparado. Rio de Janeiro: Forense, 1988.
187
BALEEIRO, Aliomar. Uma Introdução à Ciência das Finanças. 15. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1998. p. 334.
188
aos argumentos indispensáveis à justificação teórica de políticas fiscais a serem implantadas. De ordinário, o que se denomina de renda constitui apenas as transferências do setor privado que ingressam no patrimônio público em forma de receita para a satisfação dos gastos públicos.
Waldir Silveira Mello também não discrepa desse entendimento: “O conceito de rendas e proventos não vem definido em nossa legislação específica,...” 189
, de sorte que o enunciado do art. 43 do CTN que estabelece o fato gerador do imposto de renda fixa um critério arbitrário para a mensuração do imposto, suscitando, assim, uma questão de terminologia e não conceitual.
Adam Smith foi quem fixou as vigas mestras do imposto, que devem ser consideradas em razão do processo evolutivo no plano social e econômico. Assim, a ordenação em máximas das Ciências das Finanças propiciou uma melhor compreensão da imposição tributária, no sentido de que esta deve observar quatro princípios gerais: comodidade, certeza, economia e justiça.
A palavra patrimônio deriva do latim patrimonium, de pater,
empregado originariamente para designar os bens da família ou os bens herdados do pai190. No plano jurídico, especialmente do direito público, é entendida como “o conjunto de bens, de direitos e obrigações, aplicáveis economicamente, isto é, em dinheiro, pertencente a uma pessoa, natural ou jurídica, constituindo uma universalidade”191
.
Como se observa, nem a Constituição Federal, nem o Código Tributário Nacional, tampouco o regulamento do imposto de renda explicitaram o conceito de renda, ações que podem ser tributadas a esse título. Não poderia ser diferente, pois essa tarefa deve ser construção da doutrina, à luz dos elementos fornecidos pela área econômico-financeira ou mesmo da ciência das finanças.
189
MELLO, Waldir Silveira. Fato gerador do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza. In: MARTINS, Ives Gandra da Silva. Cadernos de Pesquisas Tributáriasb. São Paulo: CEEU: Editora Resenha Tributária, 1986, p. 509. v. 11.
190
SILVA, De Plácido e, op. cit. 191
Esse fato é da maior relevância, na medida em que delimita o campo de abrangência da atividade legislativa no plano da feitura das leis. Na verdade, o legislativo não detém poderes exorbitantes para dizer o que é renda e o que não é. Daí revelar certo exagero a posição do emérito jurista Rubens Gomes de Sousa no sentido de que o legislador tem aquela liberdade para estabelecer o conceito de renda.
Por conseguinte, o econômico-financeiro pauta as finanças públicas delimitando, sobretudo, a ação política voltada para a consecução das rendas das pessoas, jurídica e física, visando ao financiamento dos gastos públicos. Isso implica dizer que os fluxos dos rendimentos devem ser retirados efetivamente de certas expressões econômicas, pois segundo Emanuele Morselli192:
Com esta visão conclusiva pertinente à necessidade de uma noção financeira (fiscal) da Renda, estamos aptos a declarar, se não a impossibilidade da ordem conceitual, as insuperáveis dificuldades de ordem prática de determinar e medir, singularmente, os rendimentos individuais dos quais pretende participar a finança pública193.
Para Klaus Tipke apud Nascimento:
La Constitución no otorga al legislador poderes en blanco para establecer a su capricho el contenido de las leyes. El poder de la mayoría parlamentaria elegida democráticamente está sometido los derechos fundamentales. La Constitución identifica La democracia con el Estado del Derecho. Es tarea del Tribunal Constitucional impedir que la legislación tenga un contenido que abandone de modo injustificable el ámbito del Derecho, en concreto de los principios de Justicia. El Tribunal Constitucional es también el guardián de la moralidad fiscal. El vigilante de dicha mora. El grado con que asuma esta labor depende de que opte por el judicial sel – restante o el judicial activismo194.
192
Operando, assim, penetra a finança nos mais variados aspectos da atividade econômica dos seus subordinados, desviando, a seu favor, parte dos lucros de toda a produção, onde estão incluídos os frutos dos trabalhos e do capital. Além disso, a finança exige para si um agravo de sacrifícios por parte do particular, quando guarda para certos consumos e diversões, ou executa certas operações de troca, ou é sujeito de transferências patrimoniais. In: MORSELLE, Emanuele. Curso de Ciências das Finanças Públicas: introdução e princípios gerais. Rio de Janeiro: Edições Financeiras, 1959. p. 56.
193
Ibidem, p. 57. 194
TIPKE, Klaus. Moral tributaria del Estado y de los contribuyentes (Besreuerungsmoral und Steuermoral). Madrid: Marcial Pons, 2002, apud NASCIMENTO, Carlos Valder do. O Supremo contra o Direito: o caso da contribuição dos inativos. Ilhéus: Editus, 2010. p. 91.
No tocante a base imponível relativa ao imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza, esta deve atingir um universo maior de contribuintes, devendo, para tanto, contemplar base de imposição ampliada, como, em linhas gerais, recomenda Fernando Rezende195:
a tributação de renda deve ser feita de forma abrangente, reduzindo- se ao mínimo as deduções e abatimentos, eliminando-se os regimes especiais e restringindo a progressividade das alíquotas ao imposto cobrado sobre a renda familiar. A pesada carga que onera os lucros deve ser reduzida, extinguindo-se o tratamento discriminatório concedido ao capital estrangeiro.
Todas as rendas e proventos devem ser objetos de tributação e não apenas os salários decorrentes daquelas pessoas formalmente empregadas. Os ganhos de capital, renda variável também podem dar margem a base imponível sobre a renda. A tabela deve permitir a inserção de todos os rendimentos tributáveis conjugados com alíquotas progressivas com impacto expressivo na arrecadação.
A progressividade da tributação da renda revela-se importante na medida em que, conforma Paul Hugon196, "tende a realizar mais justiça no imposto, procurando fixar a capacidade contributiva em função da igualdade de sacrifício". Busca estabelecer igualdade do sacrifício fiscal entre os contribuintes, ainda na percepção do referido autor, que aduz ao seu raciocínio:
Com a progressividade, a taxa do imposto se eleva à medida que a importância da matéria tributável aumenta. O imposto progressivo permite atingir uma parte dos recursos taxados tanto maior quanto mais importante for o valor destes recursos197.