4.2 Os moldes informais de análise de argumentos
4.2.1 Trudy Govier e as estruturas argumentativas
A abordagem informal à lógica possui como foco a análise da argumentação como ocorre no dia a dia. Ao ter isso em vista, como vimos no Capítulo 2, os lógicos informais não consideram os padrões lógicos dedutivos formais da lógica como uma boa estratégia para a avaliação eficiente de argumentos cotidianos. Assim, um dos pontos principais, motivo de pesquisas dentro do campo da lógica informal é desenvolver “uma análise teoricamente justificada e uma avaliação da argumentação tal como ocorre nos contextos da vida real.”19
É no contexto apresentado acima que encontramos Trudy Govier, teórica infor-mal renomada com um amplo trabalho nas críticas sobre as maneiras que a lógica dedutiva formal não consegue abranger a espécie de argumento trabalhada dentro da abordagem informal.
Govier se destaca, segundo Eemeren20, por possuir os mesmos traços das críticas de Toulmin em seus trabalhos. Além disso, em seu trabalho metodológico para a análise e avaliação de argumentos cotidianos estão presentes as assimilações de outros autores informais, como Scriven para o uso do princípio de caridade, Hamblin com suas técnicas para a análise de falácias, e pontos em comum com os conceitos de aceitabilidade, relevância e suficiência que Johnson e Blair apresentam para a avaliação do argumento, que também é utilizado para a avaliação de falácias. Apesar de seu método avaliativo ser amplo e complexo, sua parte de análise primária do argumento é simples e bem definida, motivo pelo qual optamos pela autora para essa ilustração. Entre os elementos apresentados no Capítulo 2, encontramos na teoria do argu-mento as noções da teoria da análise e estruturação do arguargu-mento. Para ilustrarmos como ocorrem na prática esses elementos, apresentamos a explicação de Trudy Govier em seu livro A Practical Study of Argument publicado originalmente em 1982.21 Dentro da metodologia exposta pela autora podemos observar como ela trabalha a teoria da análise das premissas e conclusões em conjunto com modelos de formas de estrutura argumentativa. Segundo a autora, um dos primeiros passos para iniciar-se a análise
18Vide seção 2.5 à p. 57.
19Frans H. van Eemeren et. al, “Informal Logic”, In: Handbook of Argumentation Theory, 2014, p. 390, “[. . . ] a theoretically justified analysis and evaluation of argumentation as it occurs in real-life contexts.”
20Idem, pp. 393-394.
de um argumento é reproduzir sua padronização, isso é, mapear as premissas e con-clusões e diagramar uma estrutura que reflita o argumento. Isso é feito a partir de um conjunto de tarefas em relação ao argumento, ou seja, encontrando as premissas e conclusão presentes em um argumento em linguagem natural, ordenando-as e as diagramando.
Para começar a compor essa padronização é necessário conseguir separar o argu-mento, identificando suas premissas e conclusão. Para realizar tal tarefa, é importante saber distinguir entre os indicadores de premissas e conclusão22. Eles funcionam como conectivos entre as sentenças declarativas, e servem como auxílio para localizar os argumentos, pois “mostram que uma alegação está recebendo suporte racional por parte de outras.”23 Dessa forma, Govier apresenta um exemplo ilustrativo de indicadores premissas e conclusão, a partir do qual montamos a seguinte tabela:
Indicadores de premissas Indicadores de conclus ˜ao24
Desde Assim sendo
Porque Desse modo
Para Assim
Como indicado por Consequentemente
Segue de Então
Pode ser inferido de Segue-se que Pode ser derivado de Pode-se inferir que
Alegando que Em conclusão
Por motivo disso Em conformidade
Como mostrado por dado Por esta razão (ou por todas estas razões), podemos ver que Pode ser deduzido de Por estas razões, é claro que
Tabela 4.1: Quadro resumido de indicadores de premissas e conclusão geralmente usados para separação de argumentos.
A tabela acima não expressa todos os indicadores existentes, mas fornece um exemplo dos termos utilizados para apontar as sentenças declarativas que funcionam como premissas e conclusões. Segundo Govier, é necessário observar a construção do argumento para compreender o uso do indicador em questão, pois um termo utilizado em um argumento – como um porque indicando uma premissa – pode ser utilizado em outro contexto apenas demarcando uma explicação sem, necessariamente, ser um argumento. Localizada as partes do argumento, passamos para a próxima etapa da análise: sua padronização.
Padronizar um argumento, de acordo com Govier, significa deixar claro suas premissas e conclusões, de maneira que possamos elucidar a passagem das premis-sas para a conclusão de tal argumento. Para isso, numeramos suas sentenças, o que
22Iremos nos referir, de modo geral, aos indicadores de premissas e conclusão como indicadores inferênciais ao longo do texto.
23Trudy Govier, A Practical Study os Argument, 2010, p. 6.
demarca o início de sua estruturação. Dessa forma, a padronização de um argumento “nos dá uma visão clara de onde elas [as sentenças apresentadas] estão indo e nos obriga a olhar atentamente o que o argumentador disse.”25 A importância da padro-nização é o suporte que ela fornece no momento da avaliação dos argumentos, de maneira que deixa claro os pontos essenciais que fornecem auxílio na análise. Assim, um argumento como o apresentado pela autora:
(3) É um erro pensar que os problemas médicos podem ser tratados unicamente
por medicação. Primeiro, a medicação não aborda problemas psicológicos e de estilo de vida. E em segundo lugar, a medicação geralmente tem efeitos colaterais.26
Possui sua padronização feita localizando suas premissas e conclusão a partir dos indicadores, numerando-as e ordenando-as, chegando sua representação final da seguinte maneira:
(1) A medicação não aborda problemas psicológicos e de estilo de vida. (2) A medicação geralmente tem efeitos colaterais.
Portanto,
(3) Problemas médicos não podem ser tratados unicamente por medicação.27
Observa-se que o argumento (3) inicia-se por sua conclusão. Logo, as premissas (2) e (3) são as razões para aceitar tal conclusão. Desse modo, altera-se a ordem da apresentação do argumento para evidenciar a cadeia inferencial que ele constrói. A sentença conclusiva também é alterada na padronização, pois isto reflete um fator estilístico para deixá-la mais eficiente à análise. Logo, segundo Govier, a padronização assim apresentada permite que todos os elementos do argumento sejam evidenciados, facilitando sua análise. Isso é útil, por exemplo, em argumentos mais complexos, pois suas premissas principais serão isoladas, de maneira que tanto o texto circundante a ele, como observações que completam o contexto do argumento sejam separadas, facilitando sua análise.
Com a padronização pronta do argumento (3), podemos esquematizar o argu-mento, e assim esclarecer como o argumentador pensou. Nesse sentido, o argumento é estruturado em diagramas, como segue:
25Trudy Govier, A Practical Study os Argument, 2010, p. 23, “[. . . ] gives us a clear view of where they are going and forces us to look carefully at what the arguer has said.”
26Idem: “It is a mistake to think that medical problems can be treated solely by medication. First, medication does not address psychological and lifestyle issues. And second, medication often has side effects.”
27Ibidem.
Figura 4.1: Estrutura argumentativa apresentada por Trudy Govier em Practical Study of Argument.29
Na estrutura representativa do argumento (3) observa-se pelo uso das setas que as premissas trabalham em suporte a conclusão, mas não há ligação entre elas. A diagramação do argumento elucida sua estrutura, e assim, esclarece como ocorre o suporte das premissas para a conclusão do argumento, de acordo com a ideia da estrutura dentro da teoria do argumento mencionada no Capítulo 2.30
Govier trabalha ainda com outros tipos de estruturas de argumentos, aprofun-dando o estudo ao entrar no tópico ‘subargumentos’. Ela esclarece que os subargu-mentos são “um componente de um argumento maior, que pode ser considerado como um argumento completo.”31 Esse tipo de argumento, ao ser estruturado deixa evi-dente as premissas que trabalham juntas, apontando premissas que funcionam como subconclusões do argumento e que se vinculam a outras como suporte da conclusão. A diferença da estrutura de um argumento para um subargumento é verificada no exemplo apresentado pela autora e exposto abaixo:
(4) Um computador não pode trapacear em um jogo, porque a trapaça exige
deliberadamente quebrar as regras para ganhar. Um computador não pode deliberadamente infringir as regras porque não tem liberdade de ação.32
A partir da exposição do argumento, e seguindo os passos da padronização, segundo Govier, possuímos o seguinte esquema:
(1) Um computador não tem liberdade de ação. Assim,
(2) Um computador não pode deliberadamente infringir regras. (3) A trapaça exige quebrar regras deliberadamente.
Portanto,
(4) Um computador não pode trapacear.33
30Vide Capítulo 2, seção 2.5 à p. 60.
31Trudy Govier, A Practical Study os Argument, 2010, p. 24: “[. . . ] a component of a larger argument, which can be called the whole argument.”
32Idem: “A computer cannot cheat in a game, because cheating requires deliberately breaking rules in order to win. A computer cannot deliberately break rules because it has no freedom of action.”
Percebe-se dentro do argumento (4) que novamente sua conclusão é apresentada no início do argumento, dessa forma, sua padronização começa com a inversão das premissas e conclusão de modo a demarcar o suporte das premissas para a conclu-são. Além disso, observa-se que o argumento (4) possui apenas dois indicadores de premissas, o que exige a atenção de quem o analisa, para perceber que a segunda parte do argumento constitui duas premissas. Ao possuir o indicador de premissa ‘porque’ a premissa (2) ressalta o suporte existente pela premissa (1), o que demarca a existência de um subargumento dentro do argumento. Logo, as premissas (2) e (3) são os suportes para a conclusão (4), o que fica claro na apresentação da estrutura desse argumento:
Figura 4.2: Representação da estrutura do argumento (4) apresentada por Trudy Govier em Practical Study of Argument.35
Govier elucida as conexões existentes dentro do argumento (4), com o uso de setas para baixo que representam as subconclusões e conclusões. O sinal de “+” é usado para demonstrar as premissas que se complementam, trabalhando em conjunto como fundamentos para a conclusão.
A padronização de subargumentos gera a possibilidade de exibir diversas formas de estruturas, sempre apresentando elementos para auxiliar a análise como setas “↓” e sinais de mais “+”, unidos de circulos numerados para a representação das premissas. As setas trabalham mostrando a divergência ou convergência em direção a conclusão, enquanto o sinal de “+” demonstra como as premissas se unem fornecendo razões para a conclusão, além de informações que se complementam as próprias premissas.
Argumentos ou argumentos com subargumentos que possuem uma estrutura divergente, algumas vezes mostram que a premissa apresentada pode derivar duas conclusões. No caso das estruturas de Govier, essa relação é bem captada pelas dia-gramações do método que ela propõe. Observa-se esse caso, no exemplo apresentado pela autora:
(5) O trabalho é a base de todas as propriedades. Disto se segue que um homem
possui o que ele faz por suas próprias mãos e o homem que não trabalha não
tem nenhuma propriedade de direito.36
Após sua padronização chegamos ao seguinte quadro:
(1) O trabalho é a base de todas as propriedades. Portanto,
(2) Disto se segue que um homem possui o que ele faz por suas próprias mãos. e,
(1) O trabalho é a base de todas as propriedades. Portanto,
(3) O homem que não trabalha não tem nenhuma propriedade de direito.37
E a sua estruturação:
Figura 4.3: Representação da estrutura do argumento (5) apresentada por Trudy Govier em Practical Study of Argument.39
Esse argumento ilustrativo apresentado por Govier, adaptado da filosofia polí-tica de John Locke possui uma premissa (1), a qual a partir do indicador de conclusão ‘disto segue-se que’ estabelece duas conclusões distintas. Esta relação entre uma pre-missa que origina duas conclusões é expressa por duas formas de representações como exposto no quadro acima; a da esquerda demonstra a estrutura mais usual dentro da metodologia apresentada por Govier, ela demarca as duas conclusões partindo da mesma premissa. Em contrapartida, a estrutura apresentada à direita, menos usual, apresenta outra maneira de estruturar o argumento, montando duas estruturas que repetem a mesma premissa inicial, e visualmente parece demarcar melhor as con-dições pensadas para esse argumento. Além disso, observa-se que esse argumento não possui subargumentos, haja vista, subargumentos necessitarem de mais de uma premissa para realizarem sua tarefa.
36Trudy Govier, A Practical Study os Argument, 2010, p. 26: “Labor is the basis of all property. From this it follows that a man owns what he makes by his own hands and the man who does not labor has no rightful property.”
37Idem.
A padronização e a diagramação da estrutura dos argumentos auxiliam no iní-cio de sua análise, pois fornecem condições para visualizarmos o argumento de uma maneira mais clara, elucidando suas premissas e conclusões. Entretanto, essa análise ainda não possui caráter avaliativo, ela não nos diz nada sobre a aceitação ou não do argumento. Ela apenas expõe os pontos principais para que possamos começar a tra-balhar os pontos para sua aceitação. A partir desse ponto, passaremos a apresentação de um dos métodos de como a teoria do argumento realiza seu propósito, mas na visão de outro lógico informal: Alec Fisher.