Neste período de convívio com a entidade, à qual se dirige uma clientela de grande diversidade cultural, algumas constatações ganharam força em minha escuta, como a de que a consangüinidade não é garantia do amor parental e de cuidados adequados. Se não concebo uma violência inerente às relações familiares, penso que o amor e a devoção também se fomentam a partir das experiências vividas, e consistem em uma conquista interpessoal. Sequer o amor materno está ‘dado’, como algo natural. As convicções ideológicas e românticas que sustentam o amor da mãe pelo filho como um afeto incontestável, somente produzem a ocultação do ódio, que a intrusão comporta. Deste modo, a negação da crueldade presente no circuito relacional mãe-filho, certamente produzirá efeitos sintomáticos nos filhos, tais como a predisposição da criança à hiperexcitabilidade e maior propensão a sofrer acidentes, atuando os anseios mórbidos a ela dirigidos.
Minha experiência clínica confirma as palavras de Winnicott (1956) quanto à inutilidade do sentimentalismo e das idealizações, no que tange aos laços pais-filhos. Este autor reconheceu, guiado por sua vasta experiência com mães e bebês, que um sem/número de mães não ama seus filhos logo de início, desde quando eles nascem. E mais, que seria consideravelmente facilitador se lhes fosse afirmado que “[...]o amor é uma coisa que pode chegar mas não é um botão que se liga. Geralmente, a mãe não tarda em sentir amor pelo seu bebê durante a gravidez, mas isso é uma questão de experiência e não uma expectativa convencional.” 34
Sábias palavras daquele que está certo que o amor espontâneo que se solidifica é aquele que pode chegar naturalmente, sem cobranças ou imposições. O amor e a disponibilidade legítimos, emergirão na profundidade e no ritmo que os envolvidos naquela parceria, puderem cultivar e suportar. Inalcançável pelos decretos judiciais, avesso aos mandamentos religiosos e às convenções, o amor materno-filial não está garantido, mesmo estando a criança imersa em farta provisão material.
Vianna (1991) também discutiu a questão do amor materno recolocando-a em bases psicanalíticas, ao retirá-la da ordem do instintivo pelo qual se torna um sentimento implícito à 33 J. F. Costa, Violência e Psicanálise. op.cit., p. 125.
34 D. Winnicott “Madrastas e Padrastos” (1955b). In: Conversando com os pais. São Paulo: Martins Fontes, 1999, 2ª. ed. , p.14
condição feminina. Esta concepção sustenta o mito do amor parental-filial. Temos pelo vértice da psicanálise que a natureza dota as mulheres exclusivamente da possibilidade de procriar, tanto quanto ovular, menstruar, ser fecundada e desenvolver seios-reservatórios de leite que poderão vir a nutrir sua cria. Isto não as habilita a serem mães, sabemos todos nós. Por vezes a trama do desejo é tecida pelo avesso: a gravidez e chegada de uma criança não encontram a fêmea apta a ser mãe, e não há um instinto natural, que a socorra para fazê-la amar o bebê. Será necessário considerar se houve o cultivo de uma relação afetuosa anterior, para que ela de fato o acolha em seu coração. Não podemos adotar como princípio, que todas as mães amam (ou devem amar) seus filhos igualmente, e os querem vivos e sempre junto a si.
Assim aprendí a tomar em consideração a comunicação das crianças, tendo em vista que não há famílias insuspeitas, pois cenas familiares nefastas podem ocorrer em lares de diversos perfís econômicos e sócio-culturais, como o noticiário revela diariamente nas tragédias que são trazidas à público. Constituem tragédias encenadas nos domicílios, e que não se restringem às camadas populacionais que sobrevivem em condições de pobreza inculta. Tive oportunidade por diversas vezes de constatar, que famílias vivendo em condições insólitas, podem sim oferecer aos filhos um lugar de acolhimento que a criança encontra.
Em minha experiência clínica, constato que a afetividade entre pais e filhos não é algo assegurado, que vigora uniforme e linearmente no convívio familiar. Os sentimentos serão enormemente modulados pelas circunstâncias de crescimento da criança, e de seus efeitos sobre os pais. Há progenitores empáticos com a dependência e fragilidade dos pequeninos, sentindo-se gratificados e exultantes ao cuidarem de um bebê, que se tornam, porém, incompreensivos e hostís por não conseguirem absorver a presença do filho que, ao crescer venha a dispender outras formas de atenção: por exemplo, quando a criança, atravessa a fase das curiosidades, ávida por pensar , formular perguntas e tudo querer tocar para explorar e conhecer. Ao crescer e tornar-se mais autônoma, a criança virá a manifestar um querer próprio de um modo que sua necessidade de afirmar-se pode vir a manifestar-se como rebeldia, hostilidade e desafios, especialmente se suas necessidades de se independizar forem desconsideradas. Pode acontecer contrariamente numa outra perspectiva conflitante, que o filho manifeste uma excessiva persistência da condição infantil e uma necessidade de manter-se dependente nas atividades de vida diária, tais como a falta de autonomia para cuidar do próprio asseio, das vestimentas, das obrigações escolares, exasperando os pais impacientes para se liberarem do trabalho ‘braçal’ que exigem os menores. Eles exigem que o filho se torne autonomo antes que este possa dar sinais de que está pronto para desfazer os laços de comunhão, que garantem a subsistência.
O ímpeto de romper drásticamente os vínculos de dependência na relação pais-filhos, necessidade que se agudiza na adolescência, pode não ser vivido como estímulo ao crescimento, mas ao contrário, gerar confusão, desrespeito, desafios, inseguranças e ameaças em ambos os envolvidos, fomentando um campo propício às manifestações da violência doméstica. Os pais podem se sentir irritados, impotentes e ofendidos narcísicamente, se o filho lhes revela uma imagem falha deles. Para alguns progenitores também, pode ser difícil acompanhar o florescer juvenil do filho, as mudanças psíquicas e corporais que neste se evidenciam. Expressar afetos, sem atuar as excitações produzidas pela presença desconcertante de um(a) jovem, onde antes havia uma criança submissa, abastecendo-os de reconhecimento e admiração, pode se constituir num entrave para alguns pais em sua tarefa formadora. Estes, na impossibilidade de ‘marcar’ simbolicamente o filho, tentarão fazê-lo pela força, transformando-os meramente em sua propriedade. Realiza-se um gozo tirânico no exercício da parentalidade, abrindo para uma sorte de investidas no corpo e no psiquismo do filho, que também deixarão marcas indeléveis em sua alma.
Para prosseguir, julgo que seja necessário traçar um perfil com os dados mais sobressalentes dos membros de famílias violentas e abusivas.