O turismo de massa ou convencional é aquele responsável pelo deslocamento de grande número de indivíduos geralmente nos mesmos períodos do ano para destinos normalmente consagrados (GUZZATTI, SAMPAIO E CORIOLANO, 2013). Para Bursztyn et al (2009, p.77), esse tipo de turismo “compromete as condições sociais, prejudica as condições ambientais e descaracteriza as heranças culturais de comunidades tradicionais”.
Nesse tipo de turismo o aumento exorbitante do fluxo turístico normalmente
gera, reforça ou intensifica as injustiças socioculturais pré-existentes. [...]
São poucos os que se beneficiam do patrimônio natural e cultural de todos;
enquanto a maioria, especialmente a população receptiva, não se beneficia e vive um processo de exclusão social e desterritorializacao espacial (MINISTÉRIO DO TURISMO, 2006C, p.9)
A inclusão das comunidades locais na literatura turística no mundo remete à década de 1980 e se deu quando os moradores locais passaram a ser vistos como um recurso-chave na manutenção do produto turístico (HARDY, BEETON, & PEARSON (2002) apud SEBELE (2010).
De acordo com Coriolano (2009, p. 280), o processo de organização do turismo comunitário surgiu pela necessidade de defesa e de reação dos moradores de tais áreas ao turismo “invasor de comunidades”, que, segundo esta autora, “tem revelado o abuso de poder
econômico no processo de especulação das terras para o lazer, sendo a problemática da expropriação de terras um dos fatores de exploração econômica da renda e da força de trabalho”. Assim, o TBC surgiu como “contraposição ao chamado turismo de resorts e dos megaempreendimentos e como forma de evitar que empreendedores externos dominem as comunidades”.
Nesse contexto, o turismo de base comunitária (TBC) é tido como “uma prática turística diferenciada do turismo convencional que visa à promoção da participação de todos os membros da comunidade envolvidos na atividade”. (BURGOS e MERTENS, 2016, p.18).
A produção dos espaços também acontece de maneira diferente no TBC em relação ao turismo de massa já relatado pois, de acordo com Fabrino, Nascimento e Costa (2016, p. 184), no TBC “não existe uma paisagem construída para o turismo, o visitante se integra a uma paisagem social preexistente que independe de sua presença”.
Como já se pode observar, a abordagem do TBC vale-se fortemente do conceito de território tendo em vista que defende um desenvolvimento do turismo a partir de critérios e prioridades pautadas nos interesses das comunidades, induzindo a construção de sistemas produtivos localizados através do fortalecimento de atividades tradicionais. Ela contesta o discurso oficial que expressa concepções idealizadas dos benefícios gerados pelo desenvolvimento do turismo, mascarando ou minimizando os impactos socioculturais e ambientais destes processos (IRVING, 2005).
De acordo com Coriolano & Perdigão (2013, p. 100), os territórios são “meios e produtos das relações de força e de poder que se estabelecem de forma contraditória e articulada, criando regiões e lugares diferenciados”. Ainda de acordo com esses autores, as atividades humanas têm como pressuposto fundamental a comunidade e os territórios, que representam lugares de pequena dimensão e que, portanto, por tais características, oferecem as condições necessárias para a existência do que chamaram de solidariedade orgânica.
Assim, verifica-se que os conceitos de território e comunidades são bastante presentes nos princípios de TBC. No tocante às atividades turísticas comunitárias, Coriolano e Perdigão (2013, p. 108) afirmaram que estas devem estar associadas
[...] às demais atividades econômicas com iniciativas que fortalecem agricultura, pesca e artesanato, fazendo-os atividades preexistentes ao turismo. Prioriza a geração de trabalho de residentes, pequenos empreendimentos, dinamização do capital local, a garantia da participação de todos. Assegura a participação de pessoas de comunidades com o planejamento descentralizado e associativo, luta pela regulamentação fundiária de terras litorâneas, muitas de marinha, pela garantia de posse pelas populações indígenas, pesqueiras, chamadas comunidades nativas.
Assim, o turismo alicerçado no envolvimento e na gestão comunitária, aqui tratado como Turismo de Base Comunitária (TBC), representa um processo de desenvolvimento turístico alicerçado em temas como autonomia decisória, participação, governança compartilhada, território e solidariedade (BURGOS e MERTENS, 2016).
Para o Ministério do Turismo (BRASIL, 2010) os princípios comuns ao TBC devem ser
[...] a autogestão, o associativismo e cooperativismo, a democratização de oportunidades e benefícios, a centralidade da colaboração, parceria e participação, a valorização da cultura local e, principalmente, o protagonismo das comunidades locais na gestão da atividade e/ou na oferta de bens e serviços turísticos, visando à apropriação por parte destas dos benefícios advindos do desenvolvimento da atividade turística. (BRASIL, 2010)
Já de acordo com a Rede de Turismo Comunitário do Ceará (TUCUM), pode-se sintetizar os princípios do TBC em 8 (oito), quais sejam:
1. As atividades de turismo são desenvolvidas por grupos organizados e os projetos são coletivos, de base familiar;
2. O turismo se integra à dinâmica produtiva local, sem substituir as atividades econômicas tradicionais;
3. O planejamento e a gestão das atividades são de responsabilidade da organização comunitária local;
4. O turismo comunitário baseia-se na ética e na solidariedade para estabelecer as relações comerciais e de intercâmbio entre a comunidade e os visitantes;
5. O turismo comunitário promove a geração e a distribuição equitativa da renda na comunidade;
6. O turismo comunitário fundamenta-se na diversidade de culturas e tradições, promovendo a valorização da produção, da cultura e das identidades locais;
7. O turismo comunitário promove o relacionamento direto e constante entre grupos que também desenvolvem a experiência de um turismo diferente, estabelecendo relações de cooperação e parceria entre si;
8. O turismo comunitário fundamenta-se na construção de uma relação entre sociedade, cultura e natureza que busque a sustentabilidade socioambiental.
(TUCUM, 2018).
Dentre os principais pesquisadores do fenômeno do TBC, pode-se citar Maldonado (2009), Irving (2009), Coriolano (2006; 2012), Sampaio (2009; 2014), Bursztyn, Bartholo e Delamaro (2009) e Mielke e Pegas (2013). Maldonado (2009), o qual tem estudado os movimentos baseados em comunidades no contexto da América Latina, define-o como uma forma de organização empresarial sustentada na autogestão sustentável dos recursos patrimoniais comunitários baseada em práticas de cooperação e equidade no trabalho e na
distribuição dos benefícios gerados pela prestação dos serviços turísticos (MALDONADO, 2009, p. 31).
De acordo com Sampaio et al. (2014), o TBC se refere a uma prática social de resistência e de (re)afirmação dos grupos tradicionais frente a práticas e pressões dos atores hegemônicos através de uma atividade econômica – neste caso, o turismo – que possibilite a sua permanência e a manutenção de sua identidade. Outro aspecto do TBC que é destacado por Coriolano (2013) é a importância da posse do território pela comunidade nativa para o fortalecimento da sua identidade e viabilidade dessa prática turística, pois somente através dessa posse é que a geração de trabalho priorizará os residentes e contribuirá com a formação da consciência coletiva da vida em comum.
Complementando essa ideia de coletividade no TBC, Irving (2009, p. 111) o apresenta como um turismo que “favorece a coesão e o laço social e o sentido coletivo de vida em sociedade, e que por esta via, promove a qualidade de vida, o sentido de inclusão, a valorização da cultura local e o sentimento de pertencimento”. Observa-se que o principal vínculo entre os conceitos apresentados é o envolvimento comunitário de maneira ativa, como protagonistas do processo e não apenas como coadjuvantes.
De acordo com Almeida (2016), ainda não se tem um mapeamento consolidado de iniciativas de turismo alicerçadas sob a denominação de TBC no Brasil, mas a Rede de Turismo Comunitário da América Latina (REDTURS) destaca a atuação de trinta e sete destinos ou experiências de TBC no Brasil. De acordo com Lopes e Sá (2012), os estados do Ceará e do Rio de Janeiro concentram o maior número de experiências de TBC no Brasil.
Esses mesmos autores destacam ainda que, apesar do número dessas experiências virem se multiplicando nos últimos anos, o processo de construção e consolidação do TBC enfrenta muitos desafios e obstáculos, entre os quais citam: o controle efetivo da terra pela comunidade ante a especulação imobiliária; a participação efetiva das comunidades nas práticas turísticas no local, desde a concepção até sua implantação; e o enquadramento do turismo como atividade complementar e não substitutiva de outras atividades econômicas já desenvolvidas, a exemplo da agricultura e da pesca (CORIOLANO, 2003; SAMPAIO et al, 2008; LOPES;
SÁ, 2012).
É importante destacar que o turista que se propõe à experiência do TBC não deve criar a expectativa de encontrar nas comunidades onde este tipo de turismo é desenvolvido as mesmas estruturas relacionadas à hospedagens e alimentação do turismo convencional tendo em vista que estas são construídas com os recursos limitados dos moradores que muitas vezes não tem acesso à linhas de crédito acessíveis. Dessa forma, de acordo com Coriolano (2009,
p. 282), no TBC tais estruturas costumam priorizar “o rústico e não o luxo” e associam “a atividades que dizem respeito à sustentabilidade socioespacial, priorizando valores culturais e descobrindo formas inteligentes de participação da cadeia produtiva do turismo, com produtos diferenciados”. A própria visão de lugar, de lazer e turismo também precisa ser totalmente diferente no TBC em relação ao turismo de massa pois se trata de um turismo que não é voltado apenas ao consumo, mas à “troca de experiências, fortalecimento de laços de amizade e valorização cultural.”