CAPÍTULO IV – PROJETO ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL: CONTEXTO
4.4. O Trabalho Docente na Escola De Tempo Integral
4.4.2. Caracterização da função na escola
4.4.2.2. Turmas que atendem e contexto de trabalho com as mesmas
A Escola Municipal TEI possui um total de treze turmas conforme a tabela abaixo:
Tabela 2 - Quantidade de turmas da Escola Municipal TEI
Turmas Quantidade 1º ano 2 2º ano 3 3º ano 3 4º ano 3 5º ano 2
Para cada turma tem uma professora e uma tutora específica, como foi optado por identificar os sujeitos docentes entrevistados pela turma que atendem, já foi contemplado anteriormente neste capítulo (no quadro 3 no item 1). Essa organização de ter uma professora e tutora para cada sala corrobora com o que Tardif & Lessard (2014) afirmam que o trabalho
docente acontece em uma estrutura celular, tendo em vista que “(...) as classes, ou seja, espaços relativamente fechados (na maior parte do tempo fechadas), nos quais os professores trabalham separadamente cumprindo aí essencialmente a sua tarefa” (TARDIF & LESSARD, 2014, p. 60 e 61). Os autores enfatizam ainda que o professor é o responsável por manter a ordem na sala e essa ordem está fundamentada em uma dupla realidade: numa estrutura organizacional estável, isto é, na sala não entra quem deseja a qualquer momento e, num trabalho sistêmico do mestre que age no sentido da vigilância, da advertência da punição (TARDIF & LESSARD, 2014). Nesse sentido a classe é um espaço social no qual o docente organiza e administra as situações utilizando-se de regras e dispositivos educacionais.
Desta mesma forma acontece na Escola Municipal TEI, as crianças possuem as referências das professoras no turno da manhã e das tutoras no turno da tarde. Tais docentes desenvolvem suas ações nas salas de aula e são responsáveis por manter os alunos organizados dentro delas. Mesmo as crianças passando o dia na escola, as tutoras não podem desenvolver atividades nas áreas externas da escola. Segundo orientação do Coordenador da Tutoria e do Programa Ciranda Curricular, as tutoras tem que manter as crianças em sala e desenvolver atividades de reforço escolar nas disciplinas de português e matemática. As crianças só podem sair da sala quando vão para as oficinas. No dia que não tem oficina tem que permanecer na classe.
Esse aspecto de manter as crianças o tempo inteiro em sala é bem controverso com a proposta educacional de educação integral e escola de tempo integral, tendo em vista que se propõe o aumento de horas na escola para propiciar aprendizagens significativas que contribuam para a formação do ser humano em suas múltiplas dimensões (MACHADO, 2012). Tal fato também se contrapõe as muitas experiências históricas que influenciaram a motivação para implantar as escolas de tempo integral, como é o caso do Movimento das Cidades Educadoras e do Programa Mais Educação, que serviram de ações indutoras para se pensar as escolas em tempo integral.
Tanto o Movimento das Cidades Educadoras quanto o Programa Mais Educação orientam a prática de atividades intersetoriais promovidas pela ação conjunta das políticas públicas para se constituir redes educativas, explorando os espaços disponíveis no entorno da escola e na cidade na qual os educandos estão inseridos, para significar a aprendizagem e o conhecimento adquirido. Titton & Pacheco (2012) afirmam que é um desafio histórico repensar e superar as práticas tradicionais que centram a educação escolar nas salas de aula, com o ensino fragmentado do conhecimento. Para as autoras “O paradigma da educação integral que ora se estabelece agrega outros princípios nessa direção: a territorialização, a
intersetorialidade e os arranjos educativos representam avanços para a superação desse desafio” (TITTON & PACHECO, 2012, p. 150).
Mesmo diante da concepção de educação integral que muitas vezes traz a escola em tempo integral como um espaço para o desenvolvimento da mesma, as ações educativas escolares ainda estão centralizadas no espaço da escola. Não está se defendendo aqui que as ações educativas aconteçam exclusivamente fora das salas de aula e/ou da escola, mas se pretende esclarecer que a atitude de manter as crianças dentro da sala de aula durante o dia inteiro e todos os dias da semana, não condiz com a proposta de educação integral, nem com as experiências educativas de escolas de tempo integral que existiram no país.
Esse fato que acontece na Escola Municipal TEI, remete ao entendimento que Arroyo (1988) coloca quanto à uma perspectiva da escola em tempo integral que traz muito forte a questão do controle social do desenvolvimento das classes menos favorecidas da sociedade. Segundo ele
Não se amplia o tempo para poder ensinar e aprender mais e melhor, mas para poder experimentar relações e situações mais abrangentes: alimentar-se, assear-se, brincar, relacionar-se, trabalhar, produzir coletivamente na escola. Acredita-se na força educativa de experimentar vivenciar uma ordem, uma organização social o mais total possível (ARROYO, 1988, P. 4).
Como consequência dessa regra de manter os educandos sempre em sala, suscita certa indisciplina nas crianças. Em muitos momentos foi possível observar as crianças brincando em sala, muitas circulam pelos corredores da escola até que os inspetores as conduzam novamente para sala e/ou dependendo da situação sejam encaminhadas para a sala dos especialistas e diretoria. Percebe-se que o momento mais esperado é o horário do recreio, no qual eles podem extravasar suas energias. Tal indisciplina se intensifica mais no período da tarde. A Tutora do 5º ano B menciona essa questão:
Porque durante a manhã, as crianças, elas estão calmas, porque acordaram, o sono tá ainda né? E a tarde não, elas já estão saturadas de uma manhã cansativa né?, a tarde também. Então, é mais trabalho e você vai tá com a turma agitada, uma turma que não vai ser… que não vai ter… aquela concentração (Tutora do 5º ano B)
Esse contexto remete ao entendimento que a ação que vem sendo desenvolvida na Escola Municipal TEI acarreta o disciplinamento dos corpos infantis, legitimados nos discursos de ordem, de obediência de disciplina (PROBST & KRAEMER, 2012). Ainda nessa direção STRAZZACAPPA (2001) explica que
Embora conscientes de que o corpo é o veículo através do qual o indivíduo se expressa, o movimento corporal humano acaba ficando, dentro da escola, restrito a
momentos precisos como as aulas de educação física e o horário do recreio. Nas demais atividades em sala, a criança deve permanecer sentada em sua cadeira, em silêncio e olhando para a frente (STRAZZACAPPA, 2001, pp. 69-70).
Parafraseando Arroyo (2012), para conseguir desenvolver uma educação integral em escolas de tempo integral se faz necessário superar o reducionismo do trabalho docente enclausurado na sala de aula, deixando de ver os educandos como mentes, pensamento e saberes incorpóreos. Isto porque “somos mentes de sujeitos corpóreos, temporais-espaciais, de vida, não mentes, vontades abstratas incorpóreas aespaciais, atemporais que pouco temos relacionados as possibilidades de aprender com as possibilidades de viver” (ARROYO, 2012, p. 42). Assim, para garantir o direito da integralidade das vivências dos corpos precisa priorizar outros espaços diferentes da sala de aula, diversificar os espaços, as atividades e os recursos (ARROYO, 2012)