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5. A TELEVISÃO NO BRASIL

5.4 TV Interativa/Digital

Antes e, não há tanto tempo assim, havia um grande aparelho na sala principal das casas, diante da qual sentavam-se os membros da família para assistir a programação televisiva. Nos tempos atuais com o advento da TV Digital, o acesso à programação das TVs segue outra lógica, antes inimaginável. Pelo computador, pelo telefone, ou mesmo em pequenas telas ambulantes nos carros, os usuários acessam a qualquer momento e pelos recursos interativos participam da

programação opinando, criticando e, em certos programas, até enviando conteúdos gravados a partir de micro câmeras que captam imagens com boa qualidade e que muitas vezes vão ao ar com a tarja de filmagem amadora, porém, com forte impacto para os demais telespectadores, impondo assim uma nova dimensão para o universo das narrativas televisuais.

Alexandre Kieling (2013) em seu artigo “Convergência e a TV Social: a narrativa expandida e a Sala Virtual”, aborda essa nova configuração da cobertura da televisão. Para ele, a convergência midiática que é uma tendência indissociável da digitalização do suportes da televisão, sobretudo da TV Digital, exigem uma atualização nessas relações entre as instâncias de produção e recepção. “Essas instâncias, com o advento da digitalização da TV, vêm configurando um fenômeno que envolve as construções narrativas cujo referente é o mundo real” (KIELING, 2013, p. 157). Esse autor sustenta que essa convergência presente nos relatos jornalísticos e documentais demonstra a expansão do espaço televisivo, não só pelo percurso da narrativa audiovisual, mas pela absorção do telespectador desses conteúdos.

De acordo com Kieling, as novas tecnologias promovem maior sociabilidade e interatividade da instância de recepção com a instância de produção.

A emergente configuração do uso de múltiplas telas, das ofertas interativas e dos processos de interação, estimulada pelas possibilidades das novas tecnologias digitais e pelos hábitos de consumo que surgem com as gerações que nascem em meio ao mundo destes aparatos, embaralha gramáticas discursivas originadas de formatos narrativos sedimentados. Necessariamente os produtores recorrem às estratégias de atualização enquanto o público segue sendo chamado a ativar diversas competências de leitura. Porém, verifica-se uma tensão mais equilibrada entre as instâncias de produção e recepção. Observam-se variações cognitivas do espectador que agora trazem demandas para o produtor (KIELING, 2013, p. 158).

Nessa perspectiva, Kieling nos convida à percepção de que dentro dessa ambiência midiática digital, as organizações produtoras, em seus sistemas de criação e profusão de conteúdos, seguem seu esforço de formatar e controlar o sistema midiático, criando um círculo retro alimentador de todo o processo do marketing, promovendo deslocamentos dentro de sistemas de função autorreferentes em todo o leque dos meios de distribuição: TV, Internet, Cabo, Satélite, Rádio e Telefonia, em ações transmidiáticas. “O sistema dos meios e suas interfaces forma uma rede sociotécnica muito parecida com um hipertexto. Em alguns momentos, alguns nós desta rede se ativam e começam a relacionar-se com outros dando lugar a novas configurações” (KIELING, 2013, p. 160).

Kieling destaca que a chegada da televisão digital no Brasil, na primeira década do século XXI, pode ser considerada um momento de experimentação de novas linguagens e formatos audiovisuais digitais que ganham dimensão econômica e social de relevância nos países em desenvolvimento. Experiências que envolvem não apenas a expansão de um conteúdo televisivo para outras telas, mas que mobilizam as audiências em processos mais dinâmicos. Ele lembra que no Brasil esse mesmo comportamento de telespectador já vem sendo mapeado e algumas experiências vêm ocorrendo em transmissões esportivas, telejornais, carnaval, novelas e outros, quando o os espectadores são estimulados a opinarem sobre tais transmissões. Cria-se, com isso, um espaço de midiosfera digital que promove a expansão do simples ato de ver televisão, para fazer parte dela.

Contudo, o citado autor, ressalta que deve haver criatividade das instâncias de produção para estimular o interesse do espectador na interatividade, caso contrário, o objetivo será frustrado. “a estrutura textual necessita de núcleos dramáticos (plots) não ficcionais, mas que introduzam personalidades que inspirem emoção ou comportamento passível de algum nível de interação paralela ao fluxo principal da historia. Planos de drama e emoção precisam surgir de maneira intensa” (KIELING, 2013, p. 166). Segundo ele, as histórias devem contemplar questões sociais, motivações de temas cotidianos. Até mesmo objetivos do percurso narrativo traçados pelo realizador devem ser passíveis de ramificações que permitam compartilhar e interagir com a audiência. “O caminho sugere um embaralhamento narrativo no qual o código comunicacional tende a ser permanente negociado entre produção e recepção” (KIELING, 2013, p. 167).

Entende-se que a interatividade ganhou força e velocidade a partir das novas mídias e telas que foram sendo colocadas à disposição dos usuários, como modernos palimpsestos gregos. O que antigamente ocorria por meio de cartas e depois pelo telefone, ganhou, com os novos instrumentos tecnológicos, a instantaneidade delirante. Para isso, a digitalização da TV trouxe colaboração indispensável. Vera Íris Paternostro (2006) fala do surgimento da TV Digital no Brasil, ressaltando que abriu um caminho para que todos venham a ter uma televisão com tecnologia de ponta, como nos países desenvolvidos já possuem há muito tempo.

Vera lembra que a Rede Globo e a Rede Record disputam o posto de pioneira na transmissão do sinal de alta definição.

A Record realizou uma grande festa no Memorial da América Latina, em São Paulo, no dia 6 de junho de 1998, um sábado, e transmitiu de sua torre localizada no bairro da Barra Funda, um vídeo totalmente produzido no sistema digital (a captação de imagens, a edição e a transmissão) para os convidados da festa. Foi uma transmissão em circuito fechado, para um público exclusivo.

A Globo aproveitou a Copa do Mundo na França para, no domingo, 7 de junho de 1998, fazer a primeira transmissão digital intercontinental, ao vivo. O jornalista Pedro Bial apresentou o Fantástico, de Paris, poucos dias antes do início da Copa, gerado direto do IBC, o International Broadcast Center, em HDTV. Todos que assistiram em casa perceberam apenas a diferença entre o formato 4x3 (sistema analógico) e o 16x9 (sistema digital) – mais largo do que o convencional. Privilegiados, somente os frequentadores de um shopping center de São Paulo, onde foram colocados aparelhos digitais, viram as vantagens: nitidez da imagem, sem ruído ou fantasma, luminosidade, clareza de detalhes e som similar ao Compact Disc (PATERNOSTRO, 2006, p. 62).

Sem nenhuma pretensão em aprofundar a análise técnica sobre o sinal digital, trazemos aqui algumas considerações apontadas por Vera Íris, para se ter uma ideia da diferença sobre os sinais analógico e digital. Vera registra que o formato analógico converte intensidade luminosa (pontos de luz) em sinais eletrônicos que variam no tempo e na frequência, gerando sinais de variadas amplitudes que trafegam em uma banda específica do satélite de comunicação. Os telefônicos tradicionais funcionam pelo sistema analógico. Já o formato digital transforma os sinais de áudio e vídeo em dados ou bits de um computador, ou seja, gera e processa informações digitalizadas. Os telefones celulares e os satélites de comunicação, por exemplo, funcionam pelo sistema digital.

Ainda observando os apontamentos de Vera Íris, o formato analógico só recebe um sinal com boa qualidade se não houver obstáculos entre a torre retransmissora e a antena do televisor. Caso contrário, diz ela, o sinal chega com chuviscos, ruídos, fantasmas. No formato digital, não importa se existe ou não obstáculo entre a transmissão e a recepção. Quando digitalizados, os sinais de áudio e de vídeo podem trafegar por vários meios de transmissão, satélite ou cabo, sem sofrer qualquer prejuízo. A vantagem, segundo Vera, é que os sinais chegam à casa do telespectador com a mesma qualidade que saíram da emissora de onde foram gerados. Todavia, é bom lembrar que o sistema digital para ser implantado e disponibilizado para toda a população tem um custo de investimento altíssimo, daí o nosso atraso na disponibilização dessa nova tecnologia.

De toda forma, a digitalização dos sinais trouxeram maior velocidade e qualidade nas transmissões de áudio e vídeo e ampliou generosamente as opções de acesso e de participação do usuário. Isso, certamente, impactou na interatividade constante das instâncias de produção

com as instâncias de recepção. Como abordou Alexandre Kieling, é a “sala expandida”, ou seja, o acesso rápido, na palma da mão, onde quer que esteja, na rua, em casa, no trabalho, no metrô, na praia, no bar, enfim, em toda parte. Essa nova realidade provocou mais uma mudança nos costumes das famílias, que têm se desdobrado para acompanhar a modernidade desses novos tempos.