2. Twitter como plataforma
2.1 Twitter e catástrofes
Os desastres são outro tipo de situações que permitiram ao Twitter reivindicar um espaço como ferramenta de relevância jornalística. Murthy e Longwell (2012) defendem que o site começou a ocupar este espaço com mais força entre 2008 e 2009, período no qual ocorreram eventos como as explosões em Mumbai, na Índia, e o acidente com o voo 1549 da US Airways, que fez uma aterrissagem forçada no Rio Hudson, em Nova York, em 2009. Ainda de acordo com o autor, no ano anterior, a ferramenta já havia sido usada em um
desastre natural nos Estados Unidos para a comunicação de orientações às vítimas. Os incêndios florestais na Califórnia, em 2007, deram à população o cenário para usar o então chamado microblog para compartilhar informações sobre fechamento de estradas e o trajeto do fogo, por exemplo, para que houvesse mobilização contra os riscos.
Ao analisar especificamente as enchentes no Paquistão em 2010, Murthy e Longwell (2012) já identificam algumas tendências no uso do Twitter como reação a desastres naturais. Os autores percebem que os usuários preferem compartilhar entre si links de mídias tradicionais. No entanto, os tweets com mais autoridade na rede e pontos de passagem obrigatória são justamente de atores ligados às mídias sociais, que não estariam, portanto, relacionados a estas mídias tradicionalmente estabelecidas. Eles defendem a importância destas conclusões ao afirmar que "as mídias sociais são um meio não só para manter alto o fluxo de informação, mas também para potencialmente conferir autoridade aos usuários enviando tweets de países menos desenvolvidos afetados por desastres (p. 19)”.
Mendoza et al (2010), ao analisar a dinâmica dos usuários do Twitter durante o terremoto do Chile em 2010, apontam a tendência de disseminação rápida de falsos rumores, contribuindo para gerar o caos na ausência de informações em primeira mão daquilo que chama de fontes tradicionais (p. 2). Os autores retomam os sete estágios de um desastre, propostos por Powell e Rayner (1952), a saber: (1) aviso, (2) ameaça, (3) impacto, (4) inventário, (5) resgate, (6) reparação e (7) recuperação, para indicar que a formação de redes nas plataformas online quando do acontecimento de um desastre ou catástrofe costuma organizar-se em torno dos estágios 3 a 5, ou seja, as conversações do Twitter são mais intensas entre o momento em que o desastre efetivamente acontece, na etapa do inventário, que inclui avaliação do ocorrido e coleta de informações, e na etapa de resgate e socorro às vítimas.
Thomson et al. (2012) debruçam-se sobre o dilema da credibilidade das informações compartilhadas no Twitter durante cenários de desastre, como o terremoto que causou uma catástrofe sem precedentes na região da usina nuclear de Fukushima, no Japão, em março de 2011. A pesquisa japonesa parte de um questionário aplicado pelo Hokudai Earthquake Project (2011), que aponta o Twitter como a menos confiável das fontes de informação sobre assuntos relacionados ao terremoto, ficando atrás de fontes muito tradicionais, como a emissora estatal japonesa NHK, em rádio e TV, e mesmo fontes menos críveis, como o "boca-a-boca". Analisando um corpus coletado sobre a hashtag #fukushima, os autores concluíram que 70% dos tweets contendo informações de alguma outra fonte foram baseados em fontes de alta credibilidade; que o anonimato não teria um efeito negativo na credibilidade dos
tweets para os usuários japoneses, já que usar perfis anônimos seria a tendência mais comum neste público; e que a proximidade geográfica do ocorrido faz com que usuários compartilhem ainda mais informações de fontes de alta credibilidade.
Bruns e Burgess (2012) analisaram as enchentes em Queensland e o terremoto em Christchurch, ambas em 2011, na Nova Zelândia, para concluir que o Twitter desempenha duas funções maiores nos cenários de comunicação de crise para desastres naturais, sob o ponto de vista dos serviços de emergência. A primeira delas é comunicar as mensagens prioritárias para o público afetado, na intenção de mobilizar para salvar vidas, desmobilizar falsos rumores e evitar danos mais extensos. Neste aspecto, os autores defendem a importância de que estes serviços de emergência construam uma presença no site também fora dos momentos de crise, já que pode ser difícil para os usuários confiarem em contas estabelecidas há pouco tempo e sem registro confiável de atividade anterior, o que pode prejudicar o compartilhamento das mensagens. A segunda é monitorar as informações sobre a situação à medida que ela se desenvolve. Para ambas as funções, Bruns e Burgess (2012) deixam claro que é necessário haver uma compreensão do ambiente comunicativo do Twitter, para que os serviços de emergência façam uso dos recursos do site de maneira proveitosa e efetiva.
Abdullah (2017), ao rever a bibliografia recente sobre a confiabilidade das informações compartilhadas no Twitter, considera que a plataforma tem uma potencialidade para espalhar rumores falsos, mas, ao mesmo tempo, mobilizar a população para que estes rumores sejam derrubados. Aplicando um questionário a um grupo de usuários do Twitter no Japão, ou seja, amostra de um público familiarizado com situações de emergência, especialmente terremotos, o autor levantou quatro características que mobilizam os indivíduos a replicar informações sobre desastres nesta rede, a saber: a vontade de oferecer informação atualizada porque aquela informação seria confiável, compartilhar o que acredita ser importante, um sentimento ou interesse subjetivo e conseguir feedback e/ou alertar outras pessoas. Já Kogan et al. (2015) analisam a dinâmica das redes durante o Furacão Sandy, nos EUA, em 2012, e apontam que os usuários geograficamente vulneráveis, isto é, que estão mais próximos das áreas afetadas, tendem a compartilhar mais informações de qualidade e, por isso, conseguem mais retweets e mobilizam uma rede mais densa.
Outros autores, inclusive, consideram usuários do Twitter como nodos de uma grande rede de "sensores sociais", que pode contribuir com valiosas informações sobre estas crises diretamente dos locais onde elas ocorreram. Os sites de redes sociais, como o Twitter, seriam um instrumento importante para cumprir esta função pela sua grande popularidade, sua
capacidade de influenciar as pessoas e mobilizá-las sobre determinado assunto. Os pesquisadores Sakaki, Okazaki e Matsuo (2010) trabalharam em um algoritmo para a detecção de terremotos no Japão, baseado nas informações providas pelos usuários do site. Os autores assumem que o Twitter possibilita a detecção de eventos, como um terremoto, a passagem de um tufão ou até mesmo um engarrafamento cotidiano no trânsito de uma grande cidade. Estes eventos de grande escala seriam visíveis nos tweets, como mostra o estudo dos japoneses. Para viabilizar a análise semântica dos tweets, os autores estabeleceram três características que a máquina usa para identificar os tweets: estatística, que se relaciona com o número de letras e palavras nos tweets, de palavra-chave, que ensina à máquina que determinado vocabulário deve acionar os mecanismos de detecção, e de contexto de palavras, para fazer da análise ainda mais apurada e retirar os tweets que eventualmente compartilhem daquela palavra chave para falar sobre outros assuntos.
A literatura sobre o uso do Twitter em situações de emergência e comunicação de crise na cobertura dos desastres é ampla e variada. Suas conclusões e abordagens variam enormemente de acordo com as especificidades culturais e geográficas dos públicos cobertos, do tipo de evento que desencadeia estas mobilizações e até mesmo da natureza de cada estudo, que analisa a repercussão do ponto de vista sociológico, tecnológico ou comunicacional, entre outros. Se for possível traçar uma linha mestra entre os vários estudos disponíveis, ela passa justamente pela relevância do Twitter nestes cenários, tanto como instrumento de resposta rápida para serviços de emergência, de monitoramento das situações em tempo real ou mesmo do revelador interesse jornalístico na leitura e difusão de mensagens pelo site. Nossa intenção ao mobilizar esta literatura é justamente caracterizar o Twitter como um lugar ou uma ferramenta de diversos usos possíveis. Dentre eles, a configuração do site privilegia não só a repercussão em tempo real dos acontecimentos, mas a prática e consumo do jornalismo.
Além disso, os diferentes estudos perpassam um segundo ponto de interesse comum, que é compreender claramente o ambiente comunicativo que o Twitter configura e como as características desta plataforma são capazes de moldar as especificidades das relações comunicacionais nela estabelecidas. Isso significa que as análises acima elencadas ou mesmo aquela que propusemos nesta pesquisa seriam sensivelmente diferentes se desempenhadas em uma outra plataforma, como o Facebook, por exemplo, com outas práticas estabelecidas, outras funcionalidades e dinâmicas, além de funções tecnogramáticas diferentes. Por outro lado, os aspectos que a leitura da comunicação em desastres ressalta serão úteis para entender outros episódios de formação de redes nesta mesma plataforma, por exemplo, ligados aos
outros usos e aplicações do Twitter enquanto instrumento de disseminação e repercussão de informações.