Como Beck reconhece, perigos e riscos acompanham a história humana desde o seu início e, de certo modo, risco pode ser visto como um fenômeno onipresente a toda e qualquer ação humana (BECK, 1995b, p.19). Isso pareceria tornar a categoria do “risco” como um meio impreciso para diferenciar épocas sociais distintas. Contudo, em Ecological
Politics in an Age of Risk, ele fornece uma distinção entre os riscos específicos das culturas
não modernas e das fases da Sociedade Industrial (SI) e da Socidade de Risco (SR). Beck (1995a, p. 78) opera duas distinções básicas em relação à questão do risco e tipos de sociedade. A primeira distinção ocorre em relação às culturas não-modernas e modernas e, em segundo lugar, entre duas fases da modernidade (SI e SR). Quanto à primeira, Beck (1995a) faz uma distinção entre perigo e risco. Culturas ou sociedades pré-modernas não se defrontam especificamente com riscos, mas com perigos. A distinção básica entre um e outro reside basicamente em relação à sua origem. Como escreve Beck: os perigos “diferem essencialmente dos ‘riscos’, na minha percepção, desde que eles não são o resultado de decisões, ou mais precisamente, de decisões que se centram sobre vantagens e oportunidades tecno-econômicas e aceitam ameaças como simplesmente o lado obscuro do progresso” (1995b, p. 20)7.
Beck (1992a) tem reconhecido que as ameaças que atingiram a emergência da SI e aquelas às quais nos defrontamos atualmente possuem muitos aspectos em comum. Sejam quais forem as diferenças que atingiram a SI durante os séculos XIX e XX dos riscos
7 No original: “(...) differ essentially from ‘risks’ in my sense since they are not the result of decisions, or
more precisely, of decisions that focus on techno-economic advantages and opportunities and accept threats as simply the dark side of progress”.
contemporâneos, o fato é que eles parecem ter uma mesma origem: modernização. Porém, o envolvimento dos riscos com esta última estaria por ocorrer em bases diferentes. Beck (1995b) fornece três critérios básicos para diferenciar os riscos contemporâneos dos riscos da industrialização do início do século XIX e característicos da SI. Esses critérios são os seguintes:
“Diferente dos riscos da sociedade industrial inicial, as ameaças nucleares, químicas, ecológicas e biológicas contemporâneas não são (1) delimitáveis, seja social ou temporalmente, (2) imputáveis de acordo com as regras prevalecentes de causalidade, culpa e responsabilidade; e (3) nem compensáveis e asseguráveis. Onde companhias de segurança privada recusam a sua proteção (...) a fronteira entre riscos calculáveis e ameaças incalculáveis é violada continuamente” (BECK; 1995b, 02)8.
Assim, as circunstâncias pelas quais os novos riscos surgem e a forma como eles atingem as sociedades modernas são bastante diferentes. Para analisar melhor essa distinção, nós iremos fazer referência ao que podemos chamar da dinâmica espacial, social e política dos novos riscos.
A seguinte configuração busca expressar os diferentes aspectos associados aos novos riscos de grande conseqüência salientados por Beck (1992a):
8 No original: “Unlike the risks of early industrial society, contemporary nuclear, chemical, ecological and
biological threats are (1) not limitable, either socially or temporally, (2) not accountable according to the prevailing rules of causality, guilt, and liability; and (3) neither compensable nor insurable. Where private insurance companies deny their protection (...) the boundary between calculable risks and incalculable threats is violated again and again”.
Figura 2 – Aspectos Envolvendo Riscos de Alta Conseqüência riqueza
(tecnologia e ciência → crescimento econômico)
Jogo de soma zero catastrófricos (sem ganhadores e (escopo global) perdedores)
vitimização
(Diferenciação entre posição de classe e de risco) (Grupos atingidos: “comunidades do perigo”)
(Experiência mediada através de conhecimento e informação científica).
Como Beck (1992a) argumenta, os riscos provenientes da SI estavam associados com a criação e distribuição da riqueza. O que estava em jogo na SI foi a luta entre capital e trabalho sobre os frutos e benefícios gerados por um sistema industrial voltado para a criação de bens materiais. Na SR ocorre um processo inverso. A principal disputa não se dá sobre o acesso e distribuição desses bens, mas, antes, com a disputa para evitar ou
distribuir os males provindos da própria modernização. Como ele deixa claro logo no início
de seu livro Risk Society: “os problemas e conflitos relacionados à distribuição numa sociedade da escassez unem-se aos problemas e conflitos que surgem da produção, definição e distribuição de riscos técnico-científicamente produzidos” (1992a, p. 21)9.
Um aspecto diferenciador desses riscos é a sua dimensão catastrófica. Beck (1995a) adverte recorrentemente sobre os possíveis impactos catastróficos que podem
9 No oiginal: “the problems and conflicts relating to distribution in a society of scarcity overlap with the
problems and conflicts that arise from the production, definition and distribution of techno-scientifically produced risks”.
Risco
surgir com a tecnologia na era nuclear, genética e química10. Além disso, os novos riscos
envolvem um processo diferenciado de vitimização. Ele reconhece que na SR, posições de classe e posições de risco podem coincidir e que possam vir a se reforçar mutuamente. Por isso, ele reconhece que “Pobreza atrai uma abundância infeliz de riscos” (1992a, p. 35). No entanto, tal justaposição não só deixa de ser a única como também a principal lógica a predominar nas condições da SR. Na medida que riscos tendem a se intensificar eles tendem a criar o que Beck (1995b) chama de o “fim do Outro”. Riscos ecológicos de grande conseqüência podem provocar situações em que não há nenhuma norma que possa fazê-los recair em grupos sociais específicos (negros/brancos, ricos/pobres, homens/mulheres, etc). Como ele nos chama a atenção:
“Até agora, todo o sofrimento, toda a miséria, toda a violência inflingida pelas pessoas sobre outras pessoas reconheceu a categoria “o Outro” – trabalhadores, judeus, negros, exilados, dissidentes, e assim por diante – e aqueles aparentemente não afetados estavam seguramente fora desta categoria. (...) Pobreza pode ser marginalizada, mas não as ameaças da era da tecnologia nuclear, química e genética” (1995b, p. 27)11.
Nesse sentido, SR cria uma espécie de igualdade negativa em duas circunstâncias. Riscos ecológicos de grande conseqüência passam a ser “democráticos” uma vez que eles não seguem as linhas de segregação tradicionalmente criadas. O que surge na SR, então, é o que Beck (1992a) chama de comunidades do perigo. “Enquanto sociedades de classe são capazes de ser organizadas como Estados-nacionais”, escreve ele, “sociedades de risco
10 É comum ele fazer a seguinte asserção sobre o potencial destrutivo da SR: “Eu uso o termo ‘sociedade de
risco’ para aquelas sociedades que são confrontadas pelo desafio da possibilidade criada (...) de autodestruição de toda vida sobre a terra” (BECK, 1995a, p. 67).
11 No original: “Until now, all the suffering, all the misery, all the violence inflicted by people on other people
recognized the category “the Other” – workers, Jews, blacks, asylum seekers, dissidents, and so on – and those apparently unaffected were safely outside this category. (...) Poverty can be marginalized, but not the threats of the age of nuclear chemical, and genetic technology”.
engendram ‘comunidades de perigo’ que, no final das contas, podem somente ser consideradas pelas Nações Unidas” (BECK; 1992a, 47)12. Esses novos riscos podem gerar também uma contradição quanto a sua própria produção. Se riscos são produzidos, eles parecem pressupor uma lógica em relação àqueles que “ganham” daqueles que “perdem” com eles. No entanto, eles podem gerar também uma ruptura nesse processo. Offe, que tem endossado essa visão, reconhece que a SR abre espaço para situações de jogo com soma negativa onde todos infligem males sobre si mesmos e outros (OFFE, 1992, p. 66).
Outro fator diferencial envolvendo os novos riscos ecológicos diz respeito ao seu escopo. Como Beck chama a atenção, riscos possuem uma tendência inerente para a globalização. Eles apresentam uma certa universalização que acompanha a produção industrial, independente do local onde eles são produzidos. A cadeia alimentar estaria por unir praticamente a todos sobre o planeta. Por este motivo, a sociedade de risco seria também uma sociedade de risco mundial (1992a, p. 23-26). A comunidade de perigo, nesse caso, pode transcender não só fronteiras sociais, mas também fronteiras políticas e geográficas e tomar um âmbito global13.
Segundo Beck, podemos possuir riqueza, mas, com riscos, podemos apenas nos tornar aflitos com eles (BECK, 1992a, p. 23). Assim, o risco nunca parece tomar uma
12 No original: “While class societies are capable of being organized as national states, risk societies bring
about ‘communities of danger’ that ultimately can only be comprised in the United Nations”.
13 Em seus primeiros trabalhos, Beck (1992a) usou o termo “Sociedade de Risco” de uma forma genérica e,
apenas em passagens como estas, ele salientou o caráter global dessa nova sociedade. Isso ocorreu também porque Beck (1992a) deu a entender que suas teses ganhavam mais força quando analisadas em perspectiva ao contexto de paises como o da Alemanha, seu país de origem. Como ele observou neste livro: “Na Alemanha Ocidental nós temos nos defrontado com o início desta transição desde o início dos anos 70 até mais recentemente – esta é a minha tese”. [“In West Germany we have faced the beginning of this transition since the early 1970s at the latest – that is my thesis”] (BECK, 1992a, p. 20). Porém, ultimamente, o autor tem vindo a fazer mais uso do termo “sociedade de risco mundial” do que, simplesmente, “sociedade de risco”. O caráter global da SR torna-se cada vez mais explícita em trabalhos como World Risk Society (BECK, 1999) e “Qué es la Globalizacion?” (BECK, 1998a).
forma nitidamente concreta e material. Isso não apenas porque os riscos colocam-se como tipos de perigos ou ameaças futuras potenciais, mas também porque seu surgimento envolve muitas vezes um processo de expropriação dos sentidos tornando os riscos imperceptíveis (1995b, p. 64-5; 1992a, p. 27, 45). O conhecimento científico toma um papel central nesse quadro. Nessa situação, as pessoas dependem cada vez mais da ciência e de seus representantes (institutos de pesquisas, cientistas e especialistas) para nos dizer o que está acontecendo conosco e com a própria natureza. A ciência passa a ser uma mediadora pela qual riscos são percebidos. Como Beck tem observado:
“Muitos dos mais novos riscos (contaminações nucleares e químicas, poluentes em gêneros alimentícios, doenças da civilização) escapam completamente da capacidade humana de percepção direta para as vítimas; perigos que em alguns casos podem nem mesmo produzir efeitos no tempo de vida dos atingidos, mas, ao invés, durante aquele de suas crianças; perigos que, seja como for, requerem os “órgãos sensores” da ciência –
teorias, experimentos, instrumentos de medida – a fim de tornar visíveis ou interpretáveis como perigos” (1992a, p. 27)14.
Nesse processo, os “órgãos sensores” da ciência tornam-se fundamentais para que os perigos tornem-se visíveis. Risco e percepção do risco estão interligados. E percepção, aqui, diz respeito à percepção científica. Desse modo, conhecimento científico torna-se fundamental para definir até mesmo quem está ou não em posição de risco. Em suma, quem são as vítimas potenciais e reais. Para Beck, isso significa que aqueles grupos que tendem a ser atingidos por riscos são aqueles que possuem um bom nível de educação e que buscam se informar sobre eles de uma forma ativa e contínua. Assim, como ele chama a atenção em SR, a vitimização envolvendo estes riscos não é determinável, exclusiva e unicamente,
14 No original: “Many of the newer risks (nuclear or chemical contaminations, pollutants in foodstuffs,
diseases of civilization) completely escape human powers of direct perception to the victims; hazards that in some cases may not even take effect within the lifespan of those affected, but instead during those of their children; hazards in any case that require the ‘sensory organs’ of science – theories, experiments, measuring instruments – in order to become visible or interpretable as hazards at all”.
pelos meios cognitivos de suas vítimas, mas envolve uma reelaboração dessa experiência via o conhecimento científico e a informação que é adquirida sobre eles (1992a, p. 53).
Beck (1998a) tem estipulado três tipos diferentes de riscos globais. Dentre estes estão aqueles: a) provenientes da riqueza e associados ao desenvolvimento tecno-industrial (ex: buraco de ozônio, acidentes envolvendo tecnologias de alto risco como engenharia genética, nuclear e química); b) aqueles condicionados pela pobreza. Beck (1998a) reconhece o papel do Relatório Brutland ao nos chamar atenção para o fato que a pobreza, tal como a riqueza, pode ser um estímulo para a degradação ambiental. E, em terceiro lugar; c) estão os riscos provindos do uso de armas de destruição de grande escala em circunstâncias excepcionais. Essas circunstâncias excepcionais podem surgir do embate entre nações (no caso específico de uma guerra) ou das ações provindas de grupos terroristas (BECK; 1998a, p. 69).