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Um almanaque e o mundo em duzentas páginas

Outro projeto editorial do diretor Escragnolle Doria foi o livro O ano de 1822, volume XX das Publicações do Arquivo Nacional, que apresenta um panorama do Brasil e do mundo no ano da Independência. A intenção foi mostrar a situação dos países naquele ano e os fatos mais importantes, inclusive no Brasil, em diversas áreas, delineando uma espécie de pano de fundo dos acontecimentos de 1822. Se comparada aos volumes anteriores das Publicações, trata-se de uma obra bastante enxuta, que não possui prefácio nem menciona qualquer documento. Para ressaltar a relação do volume com as comemorações do centenário, foi acrescentada uma abertura (Figura 33) após a página de rosto padrão da série.

A obra é composta de uma série de textos e listagens, cada seção apresentando o título do volume e, entre parênteses, os títulos das partes (Figuras 34 a 36), que tratam

dos seguintes temas: “principais sucessos na história universal”, “fenômenos, descobertas e invenções”, “principais chefes de Estado em 1822”, “representantes da cultura humana”, “formas de governo das principais nações do mundo”, “principais populações do globo”, “principais estadistas”, “o reconhecimento da Independência do Brasil pelo mundo”, “atos políticos luso-brasileiros sobre a Independência”, “ideia geográfica” do país, “efemérides principais”, “a família real no Brasil”, “o Ministério da Independência”, a Igreja no Brasil, e no Rio de Janeiro, relação dos governos das províncias, “alguns aspectos do Rio de Janeiro”, “um pouco da vida brasileira”, dividida entre a vida artística, literária, religiosa, pedagógica, jornalística e jurídica. Há textos mais longos, outros mais curtos, outros ainda que são enumerações, como uma lista de chefes de Estado ou as populações dos países.

Figura 32 – Página de abertura do volume O ano de 1822, v. XX, 1922

Figura 34 - “Alguns representantes da cultura humana” Figura 35 – Seção “Alguns aspectos do Rio de Janeiro”

Como dissemos, este livro é bastante diferente dos que tinham sido publicados anteriormente na série, tanto dos catálogos e publicações de documentos, como das miscelâneas. A principal diferença é a ausência de documentos, fossem transcritos, reproduzidos ou apenas mencionados – não existe nem bibliografia. A organização do livro, a forma de apresentação sintética dos conteúdos, ausência de fontes e bibliografia, levaram ainda mais longe a intenção de Escragnolle Doria de conquistar leitores. Trata- se, pela primeira vez, de uma obra de interesse geral, com textos de autoria do próprio diretor, e pode-se dizer que se encontra entre o catálogo e o almanaque.

Essa caracterização da obra O ano de 1822 vai ao encontro da definição de almanaque de Chartier, um “gênero ao mesmo tempo literário e editorial utilizado para difundir textos de natureza extremamente diferente”.68

Um tipo particular de impresso – que remontaria aos calendários da Antiguidade e aos livros de horas medievais, e, como os conhecemos hoje, ao século quinze –, os almanaques costumam se destinar a um

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conjunto amplo de leitores e remetem a uma leitura intensiva,69 que não se conclui ao término da obra, à qual se pode retornar para consulta com certa frequência. E a passagem do tempo, “a parte nuclear do que chamamos almanaque”,70

encontra-se na própria origem da obra, elaborada com base no ano da Independência.

Se considerarmos as três características propostas por Guerreiro e Correia, esse aspecto de almanaque da obra torna-se mais claro: de “fácil e permanente consulta”, com estrutura baseada na cronologia e conhecimentos de natureza variada.71 O volume XX das Publicações estaria mais próximo de um “almanaque histórico”, no sentido apontado por Le Goff, “com as cronologias, os grandes personagens, os acontecimentos históricos ou anedóticos; utilitário, com a indicação das feiras, das chegadas e partidas dos correios; literário, com anedotas, fábulas, contos; e, finalmente, astrológico”.72 Não apenas os temas são diversos – literatura, monumentos, política, demografia, religião –, mas também os tipos textuais, que, como dissemos, incluem de listagens e pequenos artigos não assinados.73

Algumas seções se aproximam dos catálogos, como as “Principais populações do globo em 1822 e 1922”, com informações sobre cada país, separados por continente, outras se assemelham mais aos almanaques.74 Uma comparação possível seria com obras como O Brasil na Exposição Universal de 1873 em Viena d’Áustria,75 mencionada na advertência como “breve notícia”. A estrutura e a forma de apresentação, um panorama nacional nas diversas áreas, parece semelhante ao que foi utilizado por Luís Gastão Dória em O ano de 1822.

Apesar da intenção de lançamento no centenário, a obra só sairia em 1923, devido ao processo de exoneração de Escragnolle Doria. Como ele estava elaborando os textos, sua saída significou a interrupção do trabalho. Em outubro de 1922, Alcides Bezerra Cavalcanti tomou posse como diretor do Arquivo Nacional, logo após as comemorações, e o relatório das oficinas de outubro daquele ano deu conta de que:

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DARNTON, Robert. História da leitura. In: BURKE, Peter (org.). A escrita da história. São Paulo: Unesp, 1992, p. 212.

70

GUERREIRO, Manuel V.; CORREIA, J. David P. Almanaques ou a sabedoria e as tarefas do tempo. Revista ICALP, v. 6, ago.-dez. 1986, p. 43.

71

Ibid., p. 46.

72

LE GOFF, Jacques. Calendário. In: ______. História e memória. Campinas, SP: Ed. Unicamp, p. 527.

73

ANDRIES, Lise. Almanaques: revolucionando um gênero tradicional. In: DARNTON, Robert; ROCHE, Daniel (org.). A revolução impressa: a imprensa na França (1775-1800). São Paulo: Edusp, 1996; PARK, Margareth B. Histórias e leituras de almanaques no Brasil. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 1998.

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“Folheto ou livro que, além do calendário do ano, traz diversas indicações úteis, poesias, trechos literários, anedotas, curiosidades etc.” DICIONÁRIO eletrônico Houaiss da língua portuguesa, op. cit.

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Com a retirada do Dr. Luiz Gastão d’Escragnolle Doria, da direção do Arquivo, ficou interrompida a confecção do XX volume das Publicações, com 176 páginas já impressas, até ulterior deliberação desta Diretoria.

Pelo motivo exposto e não podendo a oficina paralisar o trabalho determinou V. Ex. fosse começada, imediatamente, a composição do XXI volume, a qual já tem compostas 48 páginas.76

Deu-se início, então, à composição do vigésimo primeiro volume das Publicações do Arquivo Nacional, o Índex alfabético das leis, cartas régias, decretos e mais ordens que

há no Arquivo da Provedoria da Fazenda Real, resultado mais direto do trabalho

técnico com os documentos e que, portanto, poderia prosseguir independentemente da exoneração do diretor. 0 1 2 3 4 5 6 Joaquim Portela (1886- 1898) Pedro Rebelo (1899-1902) Francisco Bethencourt (1902-1910) Alcebíades Furtado (1910-1915) Frederico Schumann (1915-1917) Escragnolle Doria (1917- 1922)

Figura 36 – Número de volumes Publicações do Arquivo Nacional por administração

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3.5 Por dentro da coleção: elementos do projeto editorial das