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1.1 No princípio era apenas uma energia

I. 9 Um artigo de Walter Benjamin para refletir o presente

Como já demonstrado no item anterior sobre o ouvinte, a questão da atuação do repórter com as TICs está inserida em uma discussão muito maior: a alteração profunda no relacionamento do ouvinte com a emissora. Nessa relação, ter acesso a uma reportagem mais completa do que nas ondas hertzianas é apenas parte da questão.

Ao conhecer o funcionamento das TICs, o público participa mais da programação das emissoras, já que tem a chance de manipular as novas tecnologias. Isso torna mais quente sua relação com os apresentadores. De forma ainda controlada, faz com que o ouvinte torne-se um tipo de “especialista”, como quis o filósofo alemão Walter Benjamin em um pequeno artigo chamado Reflections on radio (1930 ou 1931). Benjamin observava, com especial atenção, o desenvolvimento do rádio enquanto linguagem e tecnologia. Via o meio como um ícone que passou a influenciar a produção industrial de cultura nos anos 30 do século passado. O artigo toca na impossibilidade do estabelecimento de uma relação interativa entre o ouvinte e a emissora. Naquela época, essa impossibilidade ocorria por conta do uso da tecnologia e pela linguagem complexa dos apresentadores: “o público, completamente abandonado, continua a ser inexperiente e mais ou menos dependente de uma sabotagem em suas reações críticas (desligar o rádio)” (BENJAMIN, 2014, p. 363. Tradução minha)15. A questão do tornar-se um “especialista”, para Benjamin, significa mais do que a possibilidade do ouvinte conhecer a tecnologia a ponto de manipulá-la como acontece hoje. Ela quer dizer ter uma experiência – termo tão caro aos pensamentos de Benjamin – real. Ela quer dizer participar da programação ativamente. Ser um “especialista” por entrar na emissora e

15 Do original: “the audience, thoroughly abandoned, remains inexpert and more or less reliant on sabotage in its critical reactions (switching off)”.

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falar no mesmo nível do apresentador. Isso é, de fato, debater os problemas do ouvinte. É realizar o ideal que enxergou um amigo e colega de rádio alemão de Benjamin, o teatrólogo Bertold Brecht, quando escreveu em sua Teoria do rádio, nesta mesma época, que:

rádio seria o mais fabuloso meio de comunicação imaginável na vida pública, um fantástico sistema de canalização. Isto é, seria se não somente fosse capaz de emitir, como também de receber; portanto, se conseguisse não apenas se fazer escutar pelo ouvinte, mas também pôr-se em comunicação com ele. A radiodifusão deveria, conseqüentemente, afastar-se dos que a abastecem e constituir os radiouvintes como abastecedores (BRECHT, 2005, p. 42).

Embora tenha sido feito há 85 anos, o artigo Reflections on radio reflete o estado da relação atual entre uma nova tecnologia e seu confronto com comportamentos anteriores ao seu estabelecimento, como ocorre em nossos tempos. Ainda que o ouvinte tenha a chance de manipular as TICs para estabelecer uma participação mais influente, ele se confronta com antigos comportamentos das emissoras. Pois hoje, ao mesmo tempo em que algumas mensagens gravadas ou escritas por ouvintes chegam ao ar, outras dezenas ou centenas de mensagens enviadas às emissoras são filtradas. Elas são descartadas ou simplesmente não lidas em público pelos administradores dessas contas na emissora, sejam eles os produtores e assistentes que selecionam as mensagens de ouvintes ou os apresentadores diretamente.

A questão é que permanece ainda, como sempre no rádio, um bloqueio utilizado para selecionar as mensagens que chegam pelas vias digitais. Ele é o mesmo bloqueio utilizado por jornalistas e produtores de informação de uma emissora para selecionar notícias que interessam segundo critérios jornalísticos e de discussão temática. Isso diminui o espectro possível de discussão de temas que interessam às pessoas que enviaram as mensagens para participarem da edição.

O eterno controle de tempo e do conteúdo do ouvinte/internauta é uma barreira ao discurso do ouvinte, bloqueio que se repete em forma e conteúdo igualmente ao que ocorreu em toda a história do meio radiofônico. Essa barreira existe para eliminar a possibilidade de perda do controle sobre os limites da informação que os

96 conglomerados de informação querem manter por acordos políticos corporativos. A difusão de conceitos hegemônicos conservadores por parte dos conglomerados de emissoras elimina a participação efetiva dos que estão às margens do discurso social nessas redes e grandes conglomerados de informação, para refletir, em discurso apoiado pela classe dominante, as necessidades do poder político estabelecido. Os discursos bloqueados normalmente representam as minorias que se estabelecem e dividem o mesmo espaço social do poder hegemônico, mas não são representadas no rádio.

Como reforço, trago um conceito necessário para melhor solidificar esse pensamento: o conceito de centro para o jornalismo, difundido no âmbito do rádio por E. Meditsch (2001), apoiado por M. Gurevitch & Blumer (1982). Para estes autores, o

centro é principalmente um lugar de decisões sobre quais informações serão escolhidas

para serem apresentadas ao público. Ele é o centro de decisões como a redação de uma emissora, e não o local do acontecimento que é escolhido para ser coberto. Mas para Meditsch o centro não é apenas um lugar onde se decide a estratégia de cobertura de um fato, e sim o espaço para, em primeiro lugar, o jornalista se aproximar do poder de uma forma geral por “fascínio” (VILLAFAÑÉ, BUSTAMANTE & PRADO apud MEDITISCH, 2001, p. 107), seja político ou pessoal de figuras públicas. Além disso, para Meditsch há uma espécie de construção de uma malha discursiva em que os poderes públicos são grandes fontes para os jornalistas de qualquer meio de divulgação. Os centros de comunicação deles possuem eficientes estruturas de informações de toda sociedade. Acrescento, a isso, outra observação de Meditsch (2001) baseado em L. Gomis (1991), de que nas rádios de informação voltadas ao público de elite “as fontes fazem parte deste público e a mediação do jornalista (entre fonte e redação), assim como a exercida pela redação (entre fonte e público), fica circunscrita aos jogos políticos que ocorrem no âmbito dessa elite” (MEDITSCH, 2001, p. 107). Somam-se a isso o fator geográfico que caracteriza o centro das informações como a esfera de interesse: “internacionalmente, das metrópoles em relação aos países periféricos; no âmbito nacional, da capital para o interior; no regional, da cidade para o campo; no municipal, do centro para o subúrbio” (MEDITSCH, 2001, p. 107).

Esse estado de coisas gera um espectro de informação que parte do centro de decisões, e parece destinado a contemplar com a informação esse mesmo centro. Essa roda retroalimentar social faz o jornalista “dar as costas” para parte de seu público, pois “ao rádio informativo interessa a audiência dos ‘ricos’” (MEDITSCH, 2001, p. 97). O

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centro, na verdade, é também uma qualidade de discurso que media o status quo e o que

ele necessita para permanecer como tal, negociado social e politicamente com um comedido avanço de forças, grupos, comportamentos, novas necessidades sociais. Todos eles são permitidos pela ideia do centro, em reconhecimento, em geral depois de muita luta dessas minorias.

Essa qualidade do discurso do centro fundamenta uma hegemonia apoiada na sustentação da democracia ocidental. Trata-se de uma “democracia de espectadores” na concepção de Noam Chomsky, em que o “rebanho de desorientados”, como é vista a população pelo poder dominante, é chamado a eleger um líder. Depois de elegê-lo, se afasta do centro dos acontecimentos e assiste ao líder e a uma comissão de escolhidos atuarem diante dos fatos sociais. Há um princípio por trás disso, exposto com ironia por Chomsky:

O princípio moral imperativo é que a maioria da população é simplesmente estúpida demais para conseguir compreender as coisas. [...] precisamos de algo que domestique o rebanho desorientado, e esse algo é a nova revolução na arte e na democracia: a produção do consenso (CHOMSKY, 2013, p. 17- 18).

Desta forma e segundo essa visão, o propósito da mídia, antes de informar o que acontece, seria de construir a opinião pública de acordo com a vontade do poder dominante, com a ferramenta do consenso. Esse conjunto é composto para manter o

status quo da classe dominante. Se nos anos 30 do século passado, quando Benjamin

identificava a não participação do ouvinte, o conceito de centro das informações já estava estabelecido, como na contemporaneidade, esse sistema se sofistica. Ele cria uma falsa impressão de interatividade e influência do ouvinte na programação das emissoras, através das TICs.

Mantem-se limitada a participação do ouvinte, a despeito das muitas vias e provocações, digitais ou analógicas, que existem hoje a pedir sua interação com as emissoras. Isso sempre aconteceu no rádio, como em outros meios de comunicação pertencentes a conglomerados hegemônicos por onde transita a informação. A interação é barrada no momento em que tenta atravessar as normas do discurso do centro. Essa situação mostra que, desta perspectiva, o artigo de Benjamin ainda está representado nos

98 dias de hoje, quanto à não participação do ouvinte na programação, como indica

Reflections on radio.

As margens sociais ficam às margens do discurso, e não melhoram exponencialmente sua participação na roda da informação. Isso numa cidade e num país em que essas margens não têm nem acesso nem reconhecimento público de sua realidade privada através dos meios a ponto de que se tornem não somente identificadas, mas reconhecidas pelo outro. Em momento no qual não se expande de forma igualitária a necessária informação de todos para todos, o ser social contemporâneo torna-se refém da irrealidade na internet. Segundo um dos ex-gurus do Silicon Valley, nos Estados Unidos, e atual crítico ferino da internet “estamos ao mesmo tempo em toda parte e em parte alguma, a irrealidade absoluta é a presença real; o totalmente falso é também o totalmente real. Isso, como percebi, era o retrato mais verdadeiramente falso da vida conectada do século XXI” (KEEN, 2012, p. 22).

No universo digital, dois dos valores fundamentais da dimensão humana, espaço e tempo, são modificados. O tempo é intemporal, os espaços se dão por fluxos. Segundo Castells, essas são as duas bases principais desta nova cultura. “Localidades ficam despojadas de seu sentido cultural, histórico e geográfico e reintegram-se em redes funcionais ou em colagens de imagens, ocasionando um espaço de fluxos que substitui o espaço de lugares” (CASTELLS, 1999, p. 462). À mesma vez, o “tempo é apagado do novo sistema de comunicação, já que o passado, presente e futuro podem ser programados para interagir entre si na mesma mensagem” (CASTELLS, 1999, p. 462). Isso aponta para a percepção de que a realidade virtual logra oferecer ao usuário a experiência de transcender espaço e tempo. Estes ficam compactados nas telas com as quais interagem, algo suportável apenas na ficção, antes da vida digital se estabelecer entre nós. Apoiado em um pensamento de David Harvey (1989), Stuart Hall (2014) afirma que a globalização, em sua última fase, tem como impacto uma diferença na compressão espaço-tempo, situação semelhante com a impressão do irreal espaço e tempo no desenvolvimento das mídias digitais. Mas a diferença fundamental entre essas duas concepções é de que as minorias tentam sobreviver em uma sociedade real sob compressão de tempo e de espaço, não virtual.

O discurso hegemônico dos meios de comunicação tradicionais, portanto do rádio também, enquanto pertencente a grandes empresas de comunicação, não

99 representa as minorias e, no caso das grandes cidades, as maiorias que formam bolsões de pobreza em grandes cidades. Essas maiorias desfavorecidas, mescladas com as minorias fora de seu lugar, ocupam espaço nas periferias das metrópoles e se esforçam por enraizarem-se no novo país ou na nova região para onde foram. Isso ao mesmo tempo em que tentam aplacar a violência desse enraizamento cultural com a lembrança de seus costumes culturais originais. Promovem encontros, mantendo suas festas e celebrações no novo país ou região, ou até criando uma nova “tradição”. Apresentam uma cultura híbrida (CANCLINI, 2008) em relação a sua origem, somando à da nova realidade.

Se o rádio hegemônico, por um lado e às vezes, consegue representar em reportagens e entrevistas essas manifestações de fusão cultural, por outro lado, não consegue representar essas inúmeras fusões que acontecem diante de nós, em programações e linguagens. Essas ações concomitantes de desenraizamento e de memória da raiz por parte de grupos imersos em novas realidades culturais movimentam-se de forma a provocar fusões culturais. A cobertura hegemônica das rádios pertencentes aos grandes conglomerados tampouco logra representar posturas e discursos de minorias locais brasileiras, sejam elas identificadas por lutas em nome de diferenças de gênero, credo, pensamento político, econômico ou moral.

Dessa forma, Reflections on radio, de Walter Benjamin, faz certo sentido ainda hoje, quando reivindicava uma participação do ouvinte no rádio. Vejo que a participação efetiva do ouvinte na programação de hoje não é ideal em termos sociais e históricos, a despeito da magnífica interação que é possível pelas condições oferecidas pelas TICs.

O rádio certamente está num processo de relação em andamento com a internet, de forma que tudo o que se coloca aqui, no presente momento, tende a se modificar em um tempo curto e num espaço medido em bits. O instigante na relação entre rádio e

internet é justamente esse movimento constante, que faz a pesquisa também se

movimentar e se atualizar.

O trabalho tentou, neste Capítulo 1, estabelecer, em princípio, uma discussão para o seguinte problema: não conseguimos converter rapidamente em conteúdo as possibilidades que os avanços tecnológicos proporcionaram ao rádio nos momentos históricos anteriores. Isso considerando seus quase 100 anos de vida, salvo raras

100 exceções. Essa ausência de competência na relação do conteúdo com a tecnologia se deu em ao menos 3 dos 4 principais marcos tecnológicos do rádio, quer sejam: sua invenção e seu início; a invenção do transistor; a transmissão em frequência modulada. Todas essas situações impactaram na evolução da linguagem jornalística para o rádio e, por conseguinte, na linguagem da reportagem no rádio. Por outro lado, na relação do rádio com a internet, com o mundo envolto numa onda de globalização, diminui o tempo em que a nova tecnologia passa a ser usada. A evolução do Brasil nas últimas décadas nos faz participar do bloco dos países para os quais os avanços tecnológicos chegam rápido. Portanto, nesta contemporaneidade, rompe-se uma relação de muitos anos de defasagem tanto para a chegada da tecnologia, quanto para a geração de conteúdo a partir dela. Isso ainda que este último processo seja excludente e, muitas vezes, feito para o controle da opinião pública, quando se enxerga a mensagem produzida pelos grandes conglomerados de comunicação.

Talvez tudo isso aconteça porque passamos muito tempo a tentar explorar apenas as possibilidades, como afirmou Brecht, sem pensarmos no resultado que elas podem produzir. Diante da novidade tecnológica, entramos numa estonteante e estonteada busca de produzir mais, sem necessariamente produzir melhor.

A opção pela exposição mais democrática da forma e do discurso, no uso social das TICs, está quase sempre, com raras exceções, fora do círculo discursivo dos grandes conglomerados de comunicação, como apresento no Capítulo V deste trabalho.

Antes, porém, é necessário caminhar por um trajeto de conceitos e de definições que fazem a base da reportagem no jornalismo e da reportagem para o rádio, o que apresento a seguir.

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CAPÍTULO II