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Pierre Bourdieu ao tratar da Ilusão Biográfica alertou sobre os problemas ao se “produzir uma história de vida, tratar como uma história, isto é, como o relato coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e direção”82. O texto de Bourdieu é da década de 1980, muitos anos antes da primeira biografia sobre Marighella ser publicada. Ainda assim, ao analisarmos as biografias produzidas sobre o comunista, percebemos que seus autores procuraram escrever um relato coerente, desde quando o futuro guerrilheiro era uma criança, fazendo com que todas as peças em sua vida encaixem.

Na busca por construir uma história coerente, com significado e direção, Cristiane Nova e Jorge Nóvoa inferiram sobre a gênese revolucionária de Carlos Marighella, utilizando como argumento as origens dos pais dele, Augusto Marighella e Maria Rita Marighella. Assim sendo, cabe reafirmar que Augusto era italiano, enquanto Maria Rita Santos descendia de negros escravizados. Ele, que era ferreiro e mecânico, e ela, que antes do casamento trabalhava e morava na casa de uma família francesa, se

80 MAUROIS, André apud AVELAR, Alexandre de Sá. Figurações... op. cit., p. 139. 81

AVELAR, Alexandre de Sá. A biografia... op. cit., p. 162. 82 BOURDIEU, Pierre. op. cit., p. 185.

estabeleceram na Rua Barão do Desterro, na Baixa dos Sapateiros, e tiveram oito filhos83.

Cientes da origem de Augusto e Maria Rita, Cristiane Nova e Jorge Nóvoa caracterizaram Marighella como “rebelde e contestador” desde sua gênese, como se os traços da personalidade dele já estivessem determinados antes mesmo do seu nascimento. Para os autores, “a união selada pela mistura de duas culturas diversas” e, consequentemente, “o encontro desses dois mundos daria origem à trajetória singular de Carlos”84

. Nova e Nóvoa ratificaram que traços da personalidade de Marighella se deveram à origem de seus pais, ao afirmar que:

Dessa união, portanto, Carlos herdara a consciência de estruturas em crise (da Itália do norte e do Recôncavo baiano, em finais do século XIX) e o espírito rebelde e contestador (dos haussá e dos anarquistas), que permaneceram como marca constitutiva de sua personalidade e de uma sensibilidade contrária à exploração social85.

Em nosso entender, tais afirmações carregadas de determinismo são insustentáveis, na medida em que supõe que características de origens teriam sido passadas para Carlos apenas em função de sua filiação. Todavia não negamos que haja influência, em alguma medida, dos pais sobre seus filhos, inclusive nos aspectos políticos, algo que seria passado pelo processo de educação e imersão no ambiente familiar. Segundo Norberto Bobbio, o processo de socialização política tem como agentes, por exemplo, a família e a escola, mas há uma gama de “muitas e variadas influências”, e mesmo reconhecendo que “a infância e a adolescência são períodos formativos por excelência, [...] é possível demonstrar que certas propensões políticas se estruturam na idade adulta”86.

Ainda sobre a gênese revolucionária atribuída pelos autores de Marighella: o

homem por trás do mito, se o espírito rebelde estivesse determinantemente ligado às

origens dos pais, a partir do “encontro desses dois mundos”, poderíamos nos questionar por que tal espírito foi incorporado apenas ao primogênito dos oito filhos do casal. Certamente incorreríamos no mesmo determinismo se quiséssemos que os oito filhos carregassem “a sensibilidade contrária à exploração social” devido à origem dos pais, o

83

MAGALHÃES, Mário. op. cit., p. 33-37.

84 NOVA, Cristiane e NÓVOA, Jorge (Org). op. cit., p. 39. 85 Ibidem, p. 40.

86

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Trad. Carmen C. Varriale, et al. 11ª Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. p. 1204-1206.

que não é nossa intenção. Da mesma forma, pela lógica dos autores, todos aqueles que, assim como Carlos, tivessem nascido de pais italianos com descendente de escravizados, o que não nos parece ser um exemplo exclusivo da família Marighella, deveriam carregar tais características. Assim sendo, entendemos que os autores buscaram justificar, a partir da origem dos pais de Marighella, as ações desenvolvidas por ele ao longo de sua vida.

Antes mesmo de Cristiane Nova e Jorge Nóvoa inferirem acerca das características que Marighella carregava devido às origens de Maria Rita e Augusto, Jorge Amado ficcionou sobre tal influência em 1954, quando escreveu o livro Os

Subterrâneos da Liberdade - Os Ásperos Tempos. Na obra, o personagem Carlos,

reconhecidamente inspirado em Marighella, era assim descrito: “seu pai era um operário italiano que se casara com uma negra e ele herdara dos dois a imaginação ardente e o senso musical”87. Diferente do romancista, consideramos bastante problemática a afirmação dos biógrafos sobre aspectos tão subjetivos, por isso, acreditamos que essa só ocorreu devido à imaginação inerente ao fazer biográfico.

Ainda sobre as características que Marighella carregava devido à origem dos pais, os demais biógrafos não se arriscaram em fazer afirmações tão deterministas. Emiliano José e Edson Teixeira da Silva Júnior foram bastante sucintos ao descreverem as origens de Marighella, não arriscando nenhum tipo de ilação a respeito. Por outro lado, Mário Magalhães ao dedicar parte de um capítulo sobre a Revolta dos Malês88, e ao afirmar, por exemplo, que Augusto Marighella compartilhava “identidades” com os anarquistas, e, posteriormente, que ele era a pessoa que mais influenciou Marighella89, induz o leitor a concluir com a mesma perspectiva apresentada por Nova e Nóvoa.

De uma forma ou de outra, ao longo da sua vida, Marighella reivindicou fortemente suas origens paternas, assim como reivindicou a mestiçagem dos brasileiros. Talvez por conta disso, Cristiane Nova e Jorge Nóvoa inferiram acerca da rebeldia de

87

AMADO, Jorge. Os Subterrâneos da Liberdade: I - Os Ásperos Tempos. 28ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 1976. p. 291.

88 A respeito da Revolta dos Malês protagonizada pelos Haussás em 1835, sugerimos o livro Rebelião

Escrava no Brasil de João José Reis.

origem, inclusive, citando na obra um trecho do poema Canto para o atabaque90 escrito

por Marighella, em que diz:

Ei Brasil-africano! Minha vó era nega haussá,

ela veio da África num navio negreiro. Meu pai veio foi da Itália,

operário imigrante. O Brasil é mestiço,

mistura de índio, de negro, de branco.

Embora Marighella tenha escrito que sua avó fosse “nega haussá” e que viera da África, é bastante improvável que de fato ela fosse africana, considerando que em 1850 findou o tráfico negreiro no Brasil91. O mais provável é que sua avó tenha nascido em solo brasileiro, assim sendo, possivelmente foram os bisavós de Marighella os que foram escravizados e trazidos da África. Os historiadores Cristiane Nova e Jorge Nóvoa, atentos a esta questão, informaram que Maria Rita era neta “de escravos haussá”, sem tecerem, contudo, maiores informações acerca do assunto92. Dos biógrafos, apenas Mário Magalhães teve o cuidado de problematizar a afirmação de Marighella, esclarecendo ao leitor a probabilidade de tal equívoco93. Por outro lado, Emiliano José ratificou a afirmação de Marighella, enquanto Edson Teixeira da Silva Júnior apenas informou que Maria Rita “descendia dos negros haussá”94.

Independentemente do equívoco de Marighella sobre sua avó ser africana ou brasileira, ressalta-se que ele reivindicava sua descendência do povo escravizado e a importância desse para o Brasil, perceptível em outra parte do poema citado acima:

Quem fez o Brasil foi o trabalho de negro de escravo, de escrava, com banzo, sem banzo,

mas lá na senzala, o filão do Brasil veio de lá foi da África

90 MARIGHELLA, Carlos. Poemas: Rondó da Liberdade. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 64.

91 Consideramos que seja bastante improvável que a avó de Marighella fosse africana, tomando como base o ano de nascimento de Maria Rita Marighella (1888). Ciente que em 1850 findou tráfico negreiro, caso a avó de Marighella tivesse nascido na África, sido escravizada e em seguida trazida ao Brasil, ela teria dado à luz a Maria Rita, no mínimo com trinta e oito anos, se supormos que ela tenha chegado ao país recém-nascida.

92 NOVA, Cristiane e NÓVOA, Jorge (Org). op. cit., p. 40. 93

MAGALHÃES, Mário. op. cit., p. 40–41.

Apesar de Marighella ter reivindicado sua descendência escrava, e não negamos a possível intencionalidade desta reivindicação sob o aspecto político, em geral, as biografias relegaram ao silêncio quase totalmente as possíveis influências maternas na formação do jovem Marighella. Ressalva pode ser feita a Edson Teixeira da Silva Júnior, que se baseia no depoimento de Tereza, irmã de Marighella, para afirmar que Maria Rita teve grande influência sobre Carlos, sobretudo no que tange a educação, haja vista que Augusto se dedicava quase que integralmente à sua oficina95. Em seu depoimento, Tereza Marighella atribui a preocupação de Carlos “com os pobres e excluídos” como fruto de seu “contato com a mãe”96.

Suspeitamos que o silêncio majoritário das biografias em relação às possíveis influências maternas seja, provavelmente, em consequência de Marighella ter escrito que desde criança se habituou a “meditar sobre um problema a respeito do qual meu pai falava quase que diariamente”, que era o fato de que “o pobre trabalha toda a vida e nunca tem nada”97

. Acerca desta afirmação, é factível que esta decorra de uma prática comum em quem produz um texto sobre si, que é “fixar um sentido em sua vida e dela operar uma síntese. Tal condensação, envolve omissões, seleção de acontecimentos a serem relatados e desequilíbrio entre os relatos”98. A afirmação de meditação sobre a pobreza a partir do contato com o pai, de alguma forma, dá sentido à trajetória política de Marighella. Por isso, é provável que tal afirmação tenha atuado sobre seus biógrafos para atribuírem, quase que exclusivamente, a Augusto Marighella a influência da luta social do filho, sendo imputado ao italiano, ainda, o contato com as ideias socialistas e/ou anarquistas em seu país de origem.

Acerca da possível potencialização da veia revolucionária de Marighella em decorrência da influência do pai, Emiliano José afirma que “o velho Augusto tinha simpatia pelo socialismo” e “orgulhava-se [...] de ver o filho assumir ideias de justiça, liberdade, democracia”99. Cristiane Nova e Jorge Nóvoa acrescentam que além das ideias socialistas, Augusto também tinha simpatia pelas ideias anarquistas, no entanto, o

95 Idem.

96 MARIGHELLA, Tereza. Entrevista concedida a Edson Teixeira da Silva Júnior. In SILVA JÚNIOR, Edson Teixeira da. op. cit., p. 187.

97 MARIGHELLA, Carlos. Por que... op. cit., p. 23.

98 ALBERTI, Verena. LITERATURA E AUTOBIOGRAFIA: a questão do sujeito na narrativa. Revista

Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 4, n. 7, 1991. p. 78.

italiano “não se envolveu com atividades políticas no Brasil”100

. Segundo Nova e Nóvoa, diariamente o italiano levava jornais para o filho, o que poderia ser interpretado como uma “vontade inconsciente de Augusto querer que o filho viesse a ser um revolucionário”101. Para Mário Magalhães, Augusto, “embora não vestisse a camisa rubro-negra dos anarquistas, compartilhava identidade com eles”102. O autor ainda acrescenta que “ninguém influenciou Marighella como o pai, cujas ambições maiores contemplaram o primogênito”103. Entre os biógrafos, ressalve-se Edson Teixeira da Silva Júnior, como o único que não se refere às possíveis ideologias e influências de Augusto sobre Carlos, baseado, indiscutivelmente, no depoimento de Tereza Marighella. Para a irmã de Carlos, o pai não havia o influenciado politicamente, mas ela acreditava que Augusto “desconfiava, certamente ele sabia de alguma coisa”104

, em relação às atividades políticas do filho.

Nota-se que não há consenso entre os biógrafos em relação às suposições sobre posicionamento político e as ideias professadas por Augusto Marighella, muito embora, a maioria deles tenha atribuído grande influência do italiano sobre o filho. Nas biografias, a influência paterna induz o leitor a perceber coerência na vida do comunista, afinal, em tais obras, a partir do contato com o pai, desde muito jovem Marighella teve um referencial para as lutas sociais, quiçá revolucionárias, além de conhecer o comunismo e/ou anarquismo presente em grande parte de sua vida. Ademais, a referida atribuição de influência extrapola a mencionada meditação sobre os problemas sociais a partir do contato com o pai, escrita por Marighella.

Ainda sobre a influência paterna, Mário Magalhães atribui grande importância de Augusto sobre o filho, também em relação aos estudos, já que “propiciou-lhe chances que não batiam à porta de todo garoto da Baixa dos Sapateiros”105. De forma semelhante, Cristiane Nova e Jorge Novóa afirmam que Augusto “queria que seu filho se tornasse ‘doutor’”106

, enquanto Edson Teixeira da Silva Júnior escreve que o pai de Marighella o incentivava nos estudos comprando-lhe livros107. A respeito da educação

100 NOVA, Cristiane e NÓVOA, Jorge (Org). op. cit., p. 41. 101 Ibidem, p. 43.

102 MAGALHÃES, Mário. op. cit., p. 37. 103

Ibidem, p. 43.

104 MARIGHELLA, Tereza. op. cit., p. 197. 105 MAGALHÃES, Mário. op. cit., p. 43. 106

NOVA, Cristiane e NÓVOA, Jorge (Org). op. cit., p. 42. 107 SILVA JÚNIOR, Edson Teixeira da. op. cit., p. 20.

de Carlos, seus biógrafos foram unânimes em relação à sua dedicação aos estudos e, também, acerca da sua inteligência. Em todas as obras foi afirmado que a alfabetização de Marighella aconteceu aos quatro anos de idade, algo que lhe permitiu auxiliar na alfabetização de sua mãe e ajudar seus irmãos nas tarefas escolares. Embora não haja nas biografias informações acerca do ensino primário de Marighella, segundo seus biógrafos, o primogênito de Maria Rita e Augusto teria se interessado desde cedo pelo mundo das letras, sendo afirmado por Emiliano José que ele era um “devorador de livros” e “estudioso como poucos”108

, a ponto de Tereza se impressionar “com o conhecimento do irmão”, como escreveu Edson Silva Júnior109. Para Cristiane Nova e Jorge Nóvoa, “na adolescência, seu desejo pelo mundo das letras se desenvolveu ainda mais”, e “Carlos, já disciplinado, lia os jornais, à luz de vela, deitado em dois tijolos, na oficina, onde dormia e podia realizar suas atividades estudantis mais tranquilamente”110. Notadamente, foi exaltada nas obras biográficas a precoce alfabetização de Marighella e seu tino para os estudos. No entanto, ele foi matriculado na 4ª série do ensino secundário aos dezesseis e finalizou tal série com dezessete anos111, sendo que a idade escolar adequada para aquela série era aos quatorze anos112. Assim sendo, a não problematização deste elemento nos faz crer que para os biógrafos tal fator não se mostrou importante, além disso, nos indica como foram construídas as biografias de Marighella, nas quais os autores buscaram fazer uma história com direção, sentido, contínua e sem percalços. Certamente não podemos inferir sobre os motivos pelos quais Marighella não estava na idade escolar adequada quando se matriculou no Ginásio da Bahia, porém isto suscita questões. Teria sido ele reprovado em algumas das séries anteriores; iniciado seus estudos após os seis anos, idade em que estava previsto o início do curso primário; ou, ainda, ambas as possibilidades? Diante da impossibilidade em afirmar a respeito, e ciente das dificuldades de acesso às escolas, principalmente pela parcela mais pobre da população, entendemos ser pertinente fazer uma breve incursão sobre a educação na Bahia.

108 JOSÉ, Emiliano. op. cit., p. 124-126. 109

SILVA JÚNIOR, Edson Teixeira da. op. cit., p. 21.

110 NOVA, Cristiane e NÓVOA, Jorge (Org). op. cit., p. 42-43.

111 Dossiê Carlos Marighella. Arquivo Histórico do Colégio Estadual da Bahia - Central. Salvador. 112

BAHIA (Estado). Lei 117, de 24 de agosto de 1895. Dispõe sobre a Organização do Ensino na Bahia. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/122520. Acessado em: 27 dez. 2015.