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A temática da velhice é complexa. Pode ser vista por diferentes prismas e cada olhar atribui a ela sentidos diversos. Por um lado, pode ser concebida como um processo biológico humano que atinge nossas dimensões físicas, sociais, mentais e espirituais. Ou como um conjunto de modicaficações físiomórficas e psicológicas ininterruptas à ação do tempo sobre as pessoas. Para Matsudo (1995), trata-se de uma série de processos, pelos quais passam os seres vivos e que, com o tempo, perdem-se gradativamente a adaptabilidade e a capacidade funcional, caminhando eventualmente para morte, colhido em Safons (1999). Tais percepções evocam um ponto de vista biológico sobre a velhice.

Por outro lado, Le Breton (2011) reconhece o caráter social da velhice e sublinha o estigma socialmente construído sobre ela. Para o referido autor, a velhice, no senso comum, está reduzida ao corpo. O velho é objeto do corpo. A singularidade, a subjetividade, a qualidade humana na velhice são apagadas sob o estereótipo do corpo danificado, do corpo fragilizado, do corpo que precisa de cuidados. O velho não é visto pela sua história, pela experiência vivida. Sua função social deixou de existir.

Nessa perspectiva, trago as palavras de Loureiro (1999, p. 15), para quem o envelhecimento é um processo inexorável para todos os seres vivos ainda vivos, mas o homem, espécie, e não gênero, mesmo sabendo-se da finitude, imagina-se imortal e portador de eterna juventude: “[...] quem envelhece, ou já envelheceu, é o outro, não eu”. Estranha-se ver alguém envelhecido, exibindo as marcas do tempo. O que o espelho denuncia cruelmente, não merece atenção. A melhor alternativa é iludir-se, trocar o espelho. Há de se ponderar sobre a negação da velhice, que traz à tona reflexões interessantes. A primeira delas refere-se ao fato de o idoso não se enxergar como tal e, portanto, não se identificar com as representações existentes. A segunda remete-nos ao fato de o idoso construir uma nova forma de se identificar, contrapondo as percepções que se tem no imaginário coletivo da pessoa idosa.

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Quem é de fato idoso? Quando a pessoa passa a ser idosa? Por se tratar de posicionamentos e conceitos relativos e difusos, a ONU estabelece uma classificação cronológica e propõe uma divisão dos idosos em três grupos distintos: pré-idosos (pessoas entre 55 e 64 anos); idosos jovens (pessoas entre 65 e 79 anos) e idosos de idade avançada (pessoas a partir de 80 anos). Para a orientação a esse respeito, o Estatuto do Idoso, busca fundamentação na determinação da OMS e considera idoso aquele com idade igual ou superior a sessenta anos de idade. Obviamente, o próprio fator cronológico não pode ser um marcador preciso para as alterações que acompanham a velhice. Torna-se impar considerar o contexto, visto que ele pode exercer considerável influência nas condições de saúde, participação social e autonomia da pessoa idosa (BARRETO, 1999).

Ao idoso tem-se atribuído uma profusão de nomes e cada um carrega uma carga semântica distinta. Problematizar tais termos parece ser relevante, pelo meu interesse no exame de identidades sociais de pessoas idosas. Destaco aqui os termos mais recorrentes nos dados etnográficos, são eles, terceira idade, idoso e velho. A categoria “terceira idade” foi criada pelo gerontologista francês Huet (1962 apud ZACHARIAS, [S.d.]), em razão da introdução de uma política de integração social, auxiliando a consolidar transformações da concepção que se tinha da velhice. Desse modo, a velhice antes entendida como decadência física, invalidez, passa a significar etapa propícia à realização pessoal, à criação de novos hábitos e ao cultivo de laços afetivos (SILVA, 2008).

A denominação “idoso” era restrita aos indivíduos que vinham das camadas mais privilegiadas, geralmente ocupavam cargos políticos ou exerciam uma atividade valorizada socialmente no território francês. A partir dos anos sessenta, assinala Peixoto (1998), os aposentados na França passam a ser mais valorizados do ponto de vista salarial e começam a ser vistos como maior respeito e prestígio. Tal forma de representação chega ao Brasil, no final da década de sessenta, período em que a concepção francesa da velhice é adotada. Com efeito, o termo idoso, a partir de então, passa a ser utilizado nos documentos oficiais.

A categoria “velho” é oriunda de um período em que a força de trabalho no processo de produção era a moeda de troca das classes menos favorecidas. Infelizmente, no imaginário coletivo, essa representação negativa da velhice ainda perdura. O termo “velho” encontra-se na atualidade associado à estagnação, às perdas, ao isolamento, à doença e à incapacidade. É imprescindível desconstruir essa concepção equivocada e propor um discurso fortalecedor, capaz de reverter ideologias cristalizadas na vida social e garantir ao idoso sua dignidade (RODRIGUES; SOARES, 2006).

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Abro um parágrafo para apontar, na brevidade deste ensaio, um traço da alma do idoso como um corolário da sua experiência de vida em termos de conduta, atitudes positivas, ainda que possam ser até mesmo consideradas como ingênuas diante de uma sociedade tão complexa, na qual encontramos no contexto de pobreza a pérola da riqueza do gesto amigo. Numa manhã de quarta-feira, em comemoração ao dia do professor, fui agraciado com diversos presentes que encheram meu coração de alegria. Dona Cléria, sabendo da aproximaçãoo desta data festiva, foi ao lixão e encontrou livro (O Evangelho Segundo o Espiritismo de Alan Kardec) e uma camisa (poída e sem botões). Lavou-a e acrescentou novos botões. Colocou os presentes numa sacolinha e me presenteou.

Vale ressaltar que sob qualquer ângulo em que se aborde a questão do envelhecimento, deve-se considerar os aspectos históricos, culturais, políticos, econômicos, ideológicos, crenças, preconceitos, estereótipos, sistemas simbólicos que permeiam os modos de vida em sociedade. Pois é a partir desses parâmetros socioculturais que se definem o olhar que a sociedade tem sobre os idosos e sua relação com eles (RODRIGUES; SOARES, 2006). Por fim, ao indagar os idosos desta pesquisa sobre o termo mais adequado à categoria etária, a resposta foi uníssona: idoso, por ser um termo mais mais elegante, segundo seus depoimentos.

Uma vez apresentado o contexto de pesquisa e seus matizes, trago no próximo capítulo os pilares teóricos que serviram de suporte para discutir os dados de natureza etnográfica e assim como os dados de natureza documental.

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