Nós matamos os cães danados e os touros ferozes, degolamos ovelhas doentes, asfixiamos recém-nascidos mal constituídos; mesmo as crianças se forem débeis ou anormais, nós as afogamos, não se trata de ódio, mas da razão que nos convida a separar das partes sãs aquelas que podem corrompê-las (MISÉS, 1977, p.14).
Como vemos, a rejeição às pessoas com deficiência vem dos tempos primordiais, desde o mais longínquo tempo, conforme revela a citação anterior.
Do mesmo modo, revendo os registros históricos, constatamos que a história da educação especial é traçada por marcas de sofrimento, devido a políticas extremas de exclusão e segregação de crianças marcadas pela deficiência. Durante a Idade Média, as crianças nascidas com qualquer tipo de deficiência eram consideradas demoníacas, efeitos de feitiçaria e, por isso, eram afastadas do convívio social ou sacrificadas em nome da fé.
Só a partir de meados do século XVI, a medicina passa a se preocupar com essa população. Assim, os deficientes, como eram e ainda são chamados até hoje, passam a ser recolhidos em instituições, como asilos e hospícios (séc. XIX) e nas classes especiais (séc. XX).
No Brasil, podemos dizer que a história da educação da pessoa com deficiência se deu de forma tímida, à medida que se expandia o liberalismo no país (final do séc. XVIII).
A fim de mostrar um pouco como se instituiu no Brasil a educação da pessoa com deficiência, traçamos uma linha do tempo, localizando as principais instituições que “cuidaram” dessas pessoas.
Figura 2: Principais instituições que cuidaram da pessoa com deficiência 1726 1ª Roda de Expostos (Salvador) 1730 Irmandade Sta Ana (Vila Rica) 1738 Roda de Expostos (RJ) 1825 Roda de Expostos (SP) 1852 Escola Normal 1893 Asilo para alienados (Juqueri/SP) 1854 Instituto dos Meninos Cegos 1857 Instituto dos Surdos- Mudos 1857 Santa Casa da Misericórdia (PB)
A roda dos expostos ou roda dos enjeitados consistia num modelo de acolhimento, no qual as crianças eram abandonadas por seus familiares por diferentes razões, seja por não terem condição de criar, ou por serem órfãs ou com deficiência. Uma vez rejeitadas, ficavam aos cuidados de instituições de caridade até a idade de sete anos. Lá, eram cuidadas e educadas por religiosas. Depois dos sete anos de idade, as meninas eram encaminhadas para o Seminário da Glória, onde permaneciam até casar; enquanto que os meninos eram transferidos para o Seminário de Sant’ Ana, casa que acolhia crianças órfãs e abandonadas, de onde só saiam quando aprendiam um ofício.
A Escola Normal surgiu, no Brasil, com o objetivo de formar professores para atuarem no magistério de ensino primário. O ensino nessas escolas era oferecido em cursos públicos de nível secundário (hoje Ensino Médio). Muitas de suas matrículas eram ocupadas por algumas moças órfãs que mostrassem condições para o magistério. Desse modo, favorecia a integração na sociedade de mulheres abandonadas na infância. No entanto, não encontramos nenhum registro sobre a atuação de pessoas com deficiência nessa escola.
Outro local de cuidado às pessoas com deficiência foi o Instituto dos Meninos Cegos (IMC) que, posteriormente, passou a se chamar Instituto Benjamim Constant (IBC), de acordo com o decreto n. 1.320 de 24 de janeiro, de 1891 in Diário Oficial [D.O], de 18 de dezembro de 1891. Funcionava em regime de internato e se ocupava do ensino primário, alguns segmentos do secundário, educação moral e religiosa, de músicas, ofícios fabris e trabalhos manuais, acrescidos do ensino literário e de disciplinas científicas e prática profissional. Os internos se formavam e continuavam trabalhando dentro do próprio Instituto, inicialmente como repetidores e depois como professores remunerados pelo governo.
Posteriormente, em 1857, foi fundada a primeira escola para surdos no Rio de Janeiro, o Imperial Instituto dos Surdos-Mudos (IMS), tendo sua denominação mudada posteriormente para Instituto Nacional dos Surdos-Mudos (INSM), mudando depois para Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES.
O Asilo dos Alienados do Juqueri foi inaugurado em 1898, sob a administração do médico psiquiatra Francisco Franco da Rocha. Como instituição ligada ao governo do Estado de São Paulo, constituiu-se, na época, como o mais novo e famoso hospital psiquiátrico do Brasil e permaneceu como referência por muitos anos.
Numa sociedade pouco urbanizada e sustentada pela agricultura, a preocupação com educação era mínima. Desse modo, a escola não foi determinante na luta educacional das pessoas com deficiência, já que estas eram acolhidas e educadas nos hospitais e os próprios
36
médicos e demais profissionais da saúde cuidavam de sua educação, salvaguardando a sociedade do contato com os “anormais” (CARDOSO, 2003, grifo nosso).
Como podemos observar na linha do tempo, a educação para surdos e cegos no Brasil era fato, mas o atendimento para os deficientes mentais foi um tanto deixado de lado, só pensado para a rede regular de ensino no final do século XIX.
Após a primeira guerra mundial, quando o país vivia uma época de reflexão política, social e econômica, a educação brasileira ganha um novo impulso, com reflexos na educação das pessoas com deficiência. A mudança na vida e estrutura do país fez emergir a necessidade de se repensar e refletir sobre a criação de um espaço efetivo para a concretização de uma ação pedagógica para as pessoas com deficiência, conforme menciona Jannuzzi:
Se, de um lado, no discurso e na prática os profissionais vão refletindo as expectativas daquela sociedade de então, patenteando e justificando a separação do deficiente, vão também viabilizando, tornando possível a vida dos mais prejudicados, juntamente com a família e os outros setores da sociedade, através de alguns conhecimentos mais sistematizados e procura de efetivação de alguma prática social mais eficiente (2004. p.24-25).
Nesse contexto, a ênfase era na educação profissional, sob a garantia de dar ao deficiente e sua família o sustento financeiro. Para isso, eram oferecidas atividades de formação de profissões manuais, como charuteiro, torneiro, cigarreiro, empalhador, tapeceiro, colchoeiro, todos os trabalhos de cordoaria, fabrico de escovas, esteiras, cestas etc.
A partir da década de 80, surge o movimento de integração, que defendia o ensino das crianças com necessidades educativas especiais no âmbito das escolas regulares. Esse movimento diferenciava-se da política de inclusão que vivenciamos atualmente, segundo Mantoan (1997) e Sassaki (1997). Para Mantoan (1997), integração e inclusão são processos diferentes, com bases teóricas diferentes, porque apontam conceitos distintos de homem, mundo e educação. Para ela, a integração fixa as ações na deficiência do aluno, visando minimizar as problemáticas encontradas por ele que possam interferir na sua trajetória escolar. A inclusão, por sua vez, defende a inserção do estudante com deficiência na escola regular, focando nas possibilidades e potencialidades do aluno e nas condições da escola, que ainda mantém-se inadequada para promover e ampliar o conhecimento desse aluno.
Para Sassaky, a integração significa a inserção da pessoa com deficiência, preparada para conviver na sociedade, e a inclusão significa a modificação da sociedade como pré- requisito para que a pessoa com deficiência possa buscar seu pleno desenvolvimento e exercer a cidadania. (SASSAKI, 1999, grifo nosso).
No entendimento desses autores, incluir transcende a simples inserção do aluno com deficiência na escola regular lado a lado com o aluno dito “normal”; significa uma adequação dos espaços físicos, do currículo, das práticas educativas, da maneira de ver e sentir o outro. Na escola inclusiva, o sistema educacional deve adaptar-se para atender às necessidades dos alunos e não o contrário. Essa é uma premissa ditada nas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica5:
[...] Inclusão, portanto não significa simplesmente matricular todos os educandos com necessidades educacionais especiais na classe comum, ignorando suas necessidades específicas, mas significa dar ao professor e à escola o suporte necessário a sua ação pedagógica (2001. p.40).
Assim, mesmo com as restrições apontadas pelos autores na atualidade, a integração no contexto de efervescência do pós-guerra trouxe consigo a preocupação com a educação da pessoa com deficiência, a exemplo do trabalho da psicóloga russa Helena Antipoffe que criou no Brasil os serviços de diagnósticos, classes e escolas especiais.
Enquanto na esfera governamental prosseguia a política de atenção a esses alunos por meio da criação de escolas junto a hospitais e ao ensino regular, a sociedade civil começava a organizar-se em associações de pessoas preocupadas com o problema da deficiência. Nesse sentido, os movimentos passam a ganhar força, até porque os alunos desta modalidade de ensino não tinham outra opção na sociedade normalizadora que os negava.
Do ponto de vista legal e teórico, o discurso pregava a igualdade de oportunidade, no entanto, parecia ocorrer uma falta de acesso às escolas regulares. Sendo assim, o mesmo ensino criado para educar os Alunos com Necessidades Educativas Especiais (ANEE) contribuiu para mantê-los segregados e excluídos da sociedade.
1874/1889 15 anos 2 instituições para deficientes mentais
6 instituições para outros (de visão e/ou audição e/ou múltiplo)
1889/1920 31 anos 7 instituições para deficientes mentais 8 instituições para outros
1920/1929 9 anos 7 instituições para deficientes mentais 6 instituições para outros
Quadro 5: Número de instituições que atendem aos intitulados deficientes mentais
38
A história da educação das pessoas com deficiência foi sendo construída paulatinamente, a partir de esforços de pessoas sensíveis à sua causa e pelos próprios sujeitos com deficiência, a exemplo do Braille, desenvolvido por Louis Braille, um jovem cego, a partir do sistema desenvolvido por Charles Barbier para facilitar a comunicação noturna em campos de batalha.
Contudo, a partir de alguns movimentos sociais, ocorridos na primeira metade do Século XX, a sociedade é levada a repensar seus valores e suas práticas voltadas para as pessoas com deficiência. Desse modo, a década de oitenta foi marcada por muitos encontros e congressos internacionais com o objetivo de mobilizar os diversos países a reestruturarem suas políticas a favor da inserção das pessoas com deficiência no convívio social. Então, a partir dos encontros internacionais sobre a defesa dos direitos das pessoas com deficiência, o Brasil passa a incorporar em suas leis garantias de atendimento a essas pessoas.
O principal acordo legal assumido pelo Brasil na perspectiva da inclusão ocorreu em junho 1994, quando representantes de 92 (noventa e dois) países e 25 (vinte e cinco) organizações internacionais realizaram, em Salamanca/Espanha, a Conferência Mundial de Educação para Todos, que redundou num documento conhecido como Declaração de Salamanca. Essa conferência teve como propósito discutir, entre outras temáticas, a educação como um direito de todos.
Um dos aspectos mais ressaltados nesse encontro foi a exclusão das minorias, promovida pelo sistema de ensino, em benefício dos alunos ditos “normais”.
A Declaração de Salamanca (1994, p. 9) apresentou a seguinte ideia:
As escolas regulares, com orientação para a educação inclusiva, são o meio mais eficaz no combate às atitudes discriminatórias, propiciando condições para o desenvolvimento de comunidades integradas, base da construção da sociedade inclusiva e obtenção de uma real educação para todos.
Da Declaração de Salamanca e da Política em Educação Especial resultou um documento das Nações Unidas, intitulado “Regras Padrões sobre Equalização de Oportunidade para Pessoas com Deficiências”, o qual demanda que os Estados membros assegurem que a educação de pessoas com necessidades educacionais especiais (NEE) seja parte integrante do sistema educacional. Reafirma ainda o compromisso para com a Educação para Todos, ao reconhecer a necessidade e urgência em providenciar uma educação para as crianças, jovens e adultos com NEE, dentro do sistema regular de ensino. (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994, p. 08).
Essas recomendações explicitam, assim, a necessidade de configurar que a responsabilidade pela Educação das pessoas com deficiência é do sistema educacional e não apenas da Educação Especial. Sendo assim, cabe aos educadores da escola como um todo dispensar a esses alunos um atendimento adequado, desafiar suas potencialidades, acreditar na sua capacidade de desenvolvimento e contribuir para a sua evolução como pessoa.