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2 REFERENCIAL TEÓRICO

19 Art 206 O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

2.4 SOCIEDADE CIVIL

2.4.1 Um Breve Percurso sobre a História do Conceito

Pareceu-nos oportuno dar prosseguimento a esse estudo recuperando, nas excelentes revisões localizadas na literatura pesquisada, interpretações históricas do significado de um termo que nesse estudo também tem centralidade: sociedade civil. Entretanto, e desde já, queremos deixar registrado que o que apresentamos neste capítulo não exaure a discussão sobre um conceito que, conforme Scherer-Warren (2006) é um clássico da sociologia política.

De acordo com Gohn (2005), a Aristóteles atribui-se historicamente a autoria do conceito sociedade civil. De origem grega, koinonia politike, traduzido para o latim como societas civilis, o termo originalmente diz respeito a uma comunidade pública ético-política, possuidora de um ethos compartilhado pelos membros que a constituem (GOHN, 2005, p. 62). A sua distinção com referência ao Estado, ainda de acordo com essa autora, somente ocorreu na Idade Moderna, período no qual a limitação do poder do Estado passou a ser defendida a fim de resguardar a sociedade de seus possíveis excessos.

Gohn (2005) leciona ainda que na doutrina do Jusnaturalismo, a sociedade civil é compreendida como o oposto à natureza, etapa primitiva da humanidade. Assim, em Hobbes e Locke, a sociedade civil compreende toda a sociedade que se opõe ao estado selvagem, comportando assim tanto a sociedade política como a sociedade civilizada. Já Rousseau exclui a sociedade política do conceito de sociedade civil, pois postula que aquela surgirá do contrato social. Mas é somente a partir de Hegel, já no século XIX, que o conceito de sociedade civil passa a ser compreendido como a parte situada entre as esferas da família e do Estado (GOHN, 2005, p. 62-63). Esse filósofo, agora de acordo com Bresser-Pereira (1995) propôs a existência de um Estado neutro, racional, ao qual a sociedade civil deveria estar subordinada. Tal definição vai de encontro ao postulado marxista que a compreende como “todo o intercâmbio material dos indivíduos numa determinada etapa do desenvolvimento das forças produtivas” (GOHN, 2005, p. 63). Já segundo Alexis de Tocqueville, sociedade civil é uma associação cívica e se constitui de associações voluntárias tais como legiões de entidades assistenciais, de caridade, fraternais, ligas cívicas, associações religiosas, dentre outras oriundas da aspiração e desejo de pessoas livres (GOHN, 2005, p. 65).

Na filosofia gramsciana, ainda seguindo Gohn (2005), o espaço da sociedade civil é o espaço principal para a disputa pela hegemonia e pelo poder político. Ela não se contrapõe ao Estado, mas é uma de suas partes constitutivas, juntamente com a sociedade política. Bobbio (1999) nos apresenta uma importante passagem dos Cadernos, onde Gramsci pontua: “Podem ser fixados, por enquanto, dois grandes planos superestruturais: o que pode ser chamado de sociedade civil, ou seja, o conjunto de organismos habitualmente dito privados, e o da sociedade política ou Estado” (GRAMSCI, apud BOBBIO, 1999, p. 55). Conforme Nogueira (2003), a idéia de Gramsci sobre sociedade civil tem conteúdo político-estatal, visto que nela agrupam-se luta social e luta institucional. Apresentando a fórmula gramsciana (Sociedade Política + Sociedade Civil = Estado), esse autor afirma que, nesse pensamento:

na noção geral de Estado entram elementos que devem ser remetidos à noção de sociedade civil (no sentido, seria possível dizer, de que Estado = sociedade política + sociedade civil, isto é, hegemonia couraçada de coerção) (GRAMSCI, apud NOGUEIRA, 2003, p. 191).

De acordo com Gohn (2005) as definições até aqui apresentadas foram agrupadas por Jeffrey C. Alexander no livro Real Civil Societies (1998) em formas típico- ideais: Na primeira delas, a sociedade civil funcionaria como um guarda-chuva para a gama de instituições fora do Estado (tal qual concebido por Hobbes, Locke, Rousseau, Hegel e Tocqueville) e decorre da teoria social sobre a sociedade civil. Esse pensamento político, agora seguindo Bobbio

(1999), mescla o processo de racionalização do Estado, típico das teorias jusnaturalistas, com o da estatização da Razão, próprio das teorias hegelianas que considera a racionalidade do Estado não apenas como uma exigência, mas como um evento da história (BOBBIO, 1999, p. 43).

Já a segunda forma engloba as definições de inspiração marxista. Nessa tipologia, a sociedade civil passa a ser vista como um campo de interesses puramente privados, parte da superestrutura (ALEXANDER, apud GOHN, 2005). Na concepção marxista, e como leciona Bobbio (1999), o Estado contém a sociedade civil, representa a “violência concentrada e organizada da sociedade” e, como “comitê da classe dominante”, “administra os negócios comuns de toda a classe burguesa” (BOBBIO, 1999, p. 46). Nesse conjunto de abordagens, de acordo com Alexander (apud GOHN, 2005), as atenções se concentram no Estado, fazendo emergir temas como o da participação, pobreza e conflitos de classes, dentre outros

A terceira forma para se compreender a sociedade civil é a que surge no final do século XX, quando os processos culturais e simbólicos passam a interessar às ciências sociais. O senso comum concebido a partir de então assume a sociedade civil não apenas espaço para ações individuais, refúgio para tudo o que não está no âmbito estatal, mas como “um tipo de comunidade civil, uma esfera solidária na qual certo tipo de comunidade universal cresce gradualmente, expressa pela opinião pública”. (ALEXANDER, apud GOHN, 2005, p. 68).

Do exposto, resta-nos concordar com Nogueira (2003) quando, de maneira sucinta, afirma que a história do conceito de sociedade civil originada no mundo clássico e medieval, ressurge com a afirmação do pensamento liberal, chega ao século XIX, passando pelo Iluminismo, incorpora-se à cultura teórica contemporânea mediante as formulações de Hegel e Marx e se converte, nas correntes mais recentes, ou em recurso gerencial destinado a viabilizar tipos específicos de políticas públicas, ou em fator de reconstrução ética e dialógica da vida social (NOGUEIRA, 2003). Tem-se, portanto que sociedade civil é um termo vivo, construído historicamente e que se reformula constantemente conforme a conjuntura sociopolítica e econômica se apresenta, bem como as orientações teórico- ideológicas que se adota.

2.4.2 Alternativas de Organização da Sociedade Civil: Movimentos Sociais, ONG e