Se o universo está em expansão, onde mais ele poderia crescer senão na cabeça dos homens? (CHARLES S. PEIRCE apud SANTAELLA, 2003, p. 219)
o a g imagens se faz
ntemporaneamente o ser humano está inserido em um mundo imagético, é imagem que cerca a vida das pessoas em todas as situações, e a cada dia, anha mais espaço. As crianças interagem neste mundo naturalmente e estas
C
em presentes em todos os momentos de sua vida.Uma pesquisa que abarque a leitura de imagens é relevante para que o seu aprendizado se faça presente no âmbito pedagógico, numa tentativa de fomentar leitores de imagens autônomos e críticos. A partir das relações estabelecidas com esta leitura gerar uma introdução ao mundo imagético que objetiva a possibilidade de formulação de pensamentos abstratos e reflexivos.
Uma leitura de imagens exige habilidades fundamentais como: a observação, orientação espacial, síntese. Estas habilidades permitem a percepção e a organização dos elementos presentes em uma imagem/ilustração de um livro infantil. Além disso, na leitura de imagens estão inseridos os conhecimentos culturais produzidos pela humanidade historicamente. A participação da criança nesta leitura acontece através da sensibilidade, da inteligência cognitiva e emocional.
No livro infantil, a imagem/ilustração é objeto de arte, expressão e criatividade, não somente do seu autor, mas também do leitor que coloca no que lê sua visão pessoal dos elementos presentes nesta imagem, mas também objeto de percepção, reflexão, consciência crítica e conhecimento.
A partir desta pesquisa concluimos principalmente que a percepção na leitura da imagem acontece através da motivação de cada indivíduo, na forma como transporta a realidade à sua volta para o que está lendo, sua história pessoal e cultural. Isso acontece independente da faixa etária na qual se encontra, mas principalmente está relacionado com o repertório de leitura pessoal de cada leitor. Visto que a leitura de imagens nunca é passiva, ela
se dá a partir de um recorte da realidade, recepção do mundo através dos sentidos, da percepção, imaginação, intuição e intelecto.
Esta pesquisa teve como principal foco de investigação o livro de imagem e a literatura infantil, com fundamentação teórica baseada na Semiótica de Charles Sanders Peirce para a análise das imagens presentes nas ilustrações de livros de recepção infantil, especialmente por esta contemplar todas as áreas de conhecimento relacionadas à linguagem. A semiótica investiga os sistemas de significação, conduzindo a uma compreensão no movimento interno das mensagens e a produção de sentidos através das relações entre os signos. O referencial teórico da semiótica se fez útil por criar a possibilidade de descrição e análise das dimensões dos objetos, fenômenos ou processos em categorias organizadas.
Tendo em vista as categorias elaboradas por Peirce, o leitor de informações imagéticas é conduzido por três estágios de leitura que são designados: primeiridade, a pura consciência, imediata; secundidade, relações diádicas, analíticas e comparativas; terceiridade, relações de percepção, comparação e conclusão.
Durante todas as atividades realizadas na pesquisa, pudemos observar os três estágios de interpretação elaborados por Peirce nas leituras produzidas pelas crianças, a partir das imagens do livro Ida e Volta. Em diversos momentos da intervenção realizada, notamos interpretações diferentes, mesmo porque as atividades que a pesquisa contemplou favoreceram estas observações, já que foi realizada em três etapas de leitura, nas quais os alunos dos grupos de pesquisa puderam conhecer em detalhes a história que lhes era oferecida.
Ainda assim, a leitura de imagens não é tarefa fácil, o processo de leitura é complexo, pois devemos considerar toda condição simbólica e abstrata que a imagem contempla cada leitura pessoal. Cada leitor reage à uma imagem de maneira muito individual e particular, levando em conta seu interesse, sua cultura e sensibilidade.
A leitura de imagens em livros infantis se desenvolve com o intuito de enriquecer informações e significados a partir dos elementos apresentados, de acordo como repertório e o contexto de cada leitor. Alem disso, a mesma ilustração lida em momentos diferentes, pode produzir novos significados, inserção de novos elementos, possibilidades de novas descrições, enriquecendo assim sua percepção.
Na leitura de livros de imagens é necessário muito mais do que atos de decodificação, exige-se do leitor um processo de atribuição de sentidos ao texto visual. E é por conta disso, que diante de um livro composto unicamente por imagens, cada leitor tem um ritmo de leitura, estabelecendo relações entre as imagens preenchendo com seu ponto de vista o espaço narrativo entre elas, construindo uma continuidade de espaço e tempo, essa leitura que instiga intuição, emoções, memórias e sentimentos.
Neste sentido, acreditamos na mediação como forma de proporcionar uma leitura de imagens mais eficiente. Para os leitores menores se faz necessária maior intervenção do adulto, seja ele professor ou não. Verificamos que a partir de questionamentos a respeito das imagens, estes alunos conseguiram observar com maior clareza os elementos presentes nas imagens do livro Ida e Volta, construindo assim sentidos múltiplos para as imagens que viam.
A mediação se faz necessária para contribuir na compreensão da história e facilita a narrativa contada através das imagens, já que a palavra é elemento de internalização, através dela, a palavra mediadora, existe o incentivo para a observação e compreensão dos elementos inseridos das imagens.
Todas as leituras produzidas pelos alunos do grupo de pesquisa, a partir das imagens do livro variaram, no primeiro momento: na leitura individual, com a interferência da pesquisadora; no segundo momento: na leitura no grupo ou no último momento: na leitura das imagens de forma individual sem a interferência da pesquisadora.
Durante as atividades pode-se perceber que os alunos do 5º ano demonstraram compreender o principal foco da narrativa, enquanto os alunos do 1º ano, mesmo compreendendo, optaram por uma construção narrativa mais simples e com poucos detalhes.
Descrevendo o que viam nas páginas, em todas as atividades realizadas, mas especialmente na última atividade de leitura, sem se deter às possíveis argumentações que a narrativa trazia, sem estabelecer muitas relações entre as sequências lógicas e temporais das cenas. Para os alunos do 5º ano, as abstrações e os detalhes presentes nas entrelinhas se fizeram mais marcantes, criando outras narrativas paralelas e atribuindo características de cunho social e cultural ao desenrolar da narrativa.
Isto se dá, porque cada leitor destaca elementos diferentes e ideias variadas a partir de explicações e sentimentos pessoais das coisas que vê. A partir de sua visão de mundo, sua
formação de leitor e seu acervo cultural particular, o leitor construirá textos narrativos através das imagens sequenciais apresentadas, tornando os personagens reais e vivos. Criando novos significados para a leitura apresentada e inserindo elementos próprios na narrativa. Pois a leitura é sempre um ato de criação, diversos pontos de vista de um mesmo texto. Ler é sempre uma prática que visa a criação de significados.
Em todas as leituras realizadas, pelos sujeitos da pesquisa, houve intensa variabilidade na percepção de detalhes apresentados na narrativa.
Cada leitor lida com as imagens de forma bastante subjetiva, e assim destaca elementos e ideias diferentes, assim consegue narrar o que vê de forma pessoal e particular. Através de seu repertório de leitura, sua bagagem cultural e social, sua própria visão do mundo e das coisas conseguirá elaborar um texto narrativo, de forma escrita ou oral, para as imagens que lê.
Isso pode ser percebido nas leituras realizadas pelos alunos do 1º ano, já que sentiram maior necessidade da intervenção da pesquisadora para perceber os elementos que compunham a narrativa. A mediação se fez mais necessária, especialmente a mediação realizadas através dos signos, já que perguntas relacionadas às imagens apresentadas aos alunos foram mediadoras do reconhecimento e observação.
Esta pesquisa certamente trouxe vários questionamentos sobre outras possibilidades de estudos a serem realizadas com o livro de imagem, neste caso específico, o livro Ida e Volta, que poderia ser analisado sob outras perspectivas, entre elas, a Estética de Recepção para a comprovação de quais maneiras esse tipo de leitura seria recebido por alunos de diversos níveis de ensino.
Um aprofundamento na teoria da mediação de Vygotsky também poderia ser de grande valia para a constatação de que maneira a mediação pela palavra, e a mediação pelo professor poderia interferir ou não na maneira pela qual o livro de imagens é narrado.
Outra possibilidade de pesquisa poderia estar baseada em um paralelo de comparação entre o outro livro de Juarez Machado, entitulado Emoções, que tem a mesma perspectiva de Ida e Volta: a necessidade de se descobrir o personagem e as surpresas que este encontra pelo caminho da narrativa. Uma pesquisa que relacionasse estes dois livros, através de análises a partir da Estética da Recepção e da Semiótica poderia contribuir no sentido de fortalecer a
leitura de imagens a partir do reconhecimento de signos, especialmente visando a interpretação e compreensão das imagens para uma leitura efetiva.
Além disso, também existe a oportunidade de fazer uma análise do livro Limite, que em 1969 foi publicado como primeiro livro de imagem, segundo os dados fornecidos pelo autor, e que nunca foi reconhecido como tal, já que os pesquisadores citam o livro como publicado em 2001. Este livro nunca teve grande amparo de pesquisa e reconhecimento, circulando pouco entre pesquisadores e estudiosos de literatura infantil. Em uma visão global, Limite pode até ser visto como um livro destinado a leitores mais competentes, já que apresenta um conteúdo mais “maduro”: o personagem tentando encontrar maneiras de sair da caixa na qual está preso. Vale lembrar que o livro foi publicado em 1969, ano em que ainda se estruturava uma ditadura militar no Brasil, época de censura e opressão. Não seria este livro uma forma de estudar a ideologia daquela época?
Assim sendo, podemos perceber as múltiplas possibilidades oferecidas pelo livro de imagem, tanto para pesquisadores, quanto para leitores. E neste trabalho verificamos o papel e a importância do livro de imagens, gerando um diálogo entre autor/ilustrador, a criança leitora e o mundo. Uma comunicação que interage com a imaginação e traz o convite para a entrada no mundo fantástico que os livros habitam.
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MACHADO, J. Emoções. Rio de Janeiro: Agir, 2001.
MACHADO, J. Domingo de manhã. Rio de Janeiro: Primor, 1976.
ANEXO B – Termo de Consentimento do Aluno
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Dados de identificação:
Título do projeto: Lendo imagens: um passeio de “Ida de Volta” pelo livro de Juarez Machado
Pesquisador responsável: Maria Laura Pozzobon Spengler Profa. Orientadora: Dra. Eliana Santana Dias Debus
Instituição a que pertence o pesquisador responsável: Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL – Programa de Pós Graduação em Ciências da Linguagem
Telefones para contato: (47) 9652-3248/ 3332-5906
Nome do voluntário: _____________________________________________ Idade: _______ anos
Responsável legal: _____________________________________________ Idade: _______anos
O Sr. (a) está sendo convidado (a) a participar do projeto de pesquisa “Lendo imagens: um passeio de Ida e Volta pelo livro de Juarez Machado”, de responsabilidade da pesquisadora Maria Laura Pozzobon Spengler, sob orientação da profa Dra. Eliane Santana Dias Debus.
A pesquisa tem como objetivo estabelecer as relações da utilização do livro de imagens Ida e Volta, do artista plástico catarinense Juarez Machado, com as múltiplas possibilidades narrativas oferecidas pela leitura de imagens. Considerando que as imagens presentes nesta modalidade de livro destinados à recepção de crianças, é fonte de ampliação de conhecimento, por estabelecer múltiplas possibilidades de leituras e interpretações.
Como forma de coleta de dados será realizada uma leitura das imagens com a criança e será feito o uso do gravador, no qual será coletado o depoimento oral sobre a compreensão das imagens presentes no livro. Também será realizado registro fotográfico.
A participação é voluntária, cabendo aos participantes a autorização para a utilização das informações fornecidas, para isto contamos com a sua colaboração para o desenvolvimento desta pesquisa.
Eu, ___________________________________________________, RG número
__________________responsável legal por _________________________________________ declaro ter sido informado e concordo
com sua participação, como voluntário, no projeto de pesquisa descrito.
Assinatura do responsável: __________________________________
Assinatura da mestranda: ___________________________________
ANEXO D – Textos produzidos pelos alunos do 5º Ano na atividade em grupo
IDA E VOLTA
Grupo 1
Certa vez, um homem chamado Lucas tomava seu banho diário relaxadamente. Terminando o seu banho, foi até seu quarto, se secou e se vestiu.
Escolheu seu macacão de natação e botou sua bota.
Foi tomar seu café da manhã, onde tomou café, comeu um pedaço de pão com geleia, deixou migalhas de pão no prato e um restinho de café na xícara.
Como iria ao clube, pois era professor de natação, passou pela sala e avistou seu gramofone, lhe deu vontade de ouvir uma música. Botou uma música e começou a dançar.
Quando já estava cansado, parou de dançar e seguiu seu rumo para pegar sua touca de natação.
Saindo de casa, pegou uma maçã da árvore e seguiu seu caminho comendo-a. Acabou de comer a maça, jogou-a no lixo. Ouvindo seus passos um cachorro começou a seguí-lo.
Avistando um poste o cachorro urinou e seguiu junto com Lucas. Quando viu sua casinha, parou ali e ficou.
Lucas seguiu seu caminho e chegou a uma floricultura, comprou uma flor para botar em sua casa.
Andou mais um pouco e viu a mãe de seu amigo, então lhe deu a flor, porque sempre foi um rapaz muito gentil.
Lucas estava quase chegando ao clube quando encontrou um perna de pau saindo de uma casa.
O perna de pau, todo atrapalhado, atravessou na frente de Lucas. Como Lucas era alto e desengonçado, quase caiu.
Passando por uma casa encontrou uma bola, começou a chutá-la até que uma hora bateu na janela da casa e correu como se não fosse com ele.
Para chegar ao clube mais rápido comprou uma bicicleta e saiu pedalando. Como estava muito rápido e não viu a placa, perdeu o controle da bicicleta.
E bateu em uma escada que tinha tintas de várias cores embaixo. Caindo em cima delas, se sujou todo, estragou sua roupa e seu tênis e teve que voltar para casa e tomar outro