Tempos depois, encontro com João no CAPS, ele estava ainda mais magro, bastante machucado, muito sujo e com um cheiro muito ruim. Assim que me avista ele diz uma série de palavras em um ritmo acelerado, sem pausa para respiração: “eu preciso de um lugar para ficar não dá mais para ficar na rua estou sendo ameaçado vou morrer, querem me pegar eu não posso ir para casa da minha vó não posso ir para casa de ninguém estou ameaçado dos dois lados. Pode me internar, eu preciso sair da rua”.
Naquele momento, o mundo parecia girar rápido, enquanto eu paralisava. Todas as minhas certezas falham, ele pedia pela internação. Era a primeira vez que eu ouvia alguém pedir pela internação, para salvar sua própria vida. Mais uma vez não sabia o que fazer, tentava recordar na minha cabeça, das portarias, dos textos acadêmicos que eu havia lido até então. Nada havia me preparado para aquilo. Conversamos mais um pouco numa tentativa de acolhê-lo, disse que levaria o que ele estava dizendo para a equipe que estava reunida naquele momento e que pensaríamos em uma forma de ajudá-lo.
Levei a situação para os profissionais, disse o que João trouxe enquanto demanda e sugeri que João participasse daquele momento da reunião, afinal estávamos decidindo sobre a vida dele. Responderam-me que João não participaria da reunião, que aquele local era para equipe e que não era lugar para usuários do serviço.
Consideraram a pauta importante e começou uma intensa discussão. A Unidade de Acolhimento foi o primeiro lugar colocado como opção. Porém, Ingrid estava lá, e devido à agressão, a convivência entre os dois era considerada impossível. Os coordenadores dos abrigos da assistência social se negavam a abrigar João, diziam que apenas com ordem judicial aceitariam um usuário de drogas perigoso, que seria uma ameaça e má influência para as crianças e jovens que ali viviam.
Alguns consideravam os “adolescentes muito imediatistas, queriam tudo na hora e que ele poderia estar exagerando, que eu deveria ouvir um pouco mais, que era preciso fazer uma análise semanal individualmente em um ambiente que ela chamou de clínico e não uma intervenção naquele momento, que não necessário “ceder aos excessos dele”.
A discussão sobre o caso continuava. Alguns profissionais diziam que João Vitor já estava acostumado a viver nas ruas e que provavelmente conseguiria lidar com essa situação, que não era a primeira vez que vinha até o serviço para pedir ajuda e depois que eles o colocavam em um abrigo sempre fugia e voltava para a rua.
Foi sugerido que João dormisse naquela noite no leito no CAPSAD adulto, mas sem intervenção medicamentosa já que ele não estava em abstinência, apenas fazendo do CAPS um lugar onde ele pudesse dormir em segurança até que uma outra saída fosse pensada.
A coordenação do CAPSAD ficou visivelmente incomodada, trouxe seu receio e também da equipe em “botar as mãos em menor de idade”, quase como se ter menos de 18 anos fosse algo ilegal e criminoso. Com muita relutância aceitaram a proposta. Pediram que eu levasse a notícia para João.
Apesar de não concordar com aquela decisão de apenas informa-lo para onde ele devia ir, sem que isso fosse construído com ele, fui até João e falei da opção que o CAPSi estava dando para aquela noite.
Pediu para que eu fosse com ele, até o outro CAPS para conhecer o local. Naquele instante, vi em João uma fragilidade que não tinha visto até então, achei estranho como ele, que já havia vivido tantas coisas consideradas perigosas, ainda sim, pedia que eu o acompanhasse, frente ao desconhecido.
Chegando no CAPSad, havia um segurança na porta, que anunciou que iria revistar João. Ele perguntou o motivo, o segurança disse que não era permitido que ninguém entrasse no serviço com drogas ou álcool. João perguntou, mas só vai me revistar? Porque não revista a Psicóloga também? O segurança continuou dizendo, “só pode entrar aqui se for revistado. Se tiver alguma coisa com você vou ter que pegar, não pode entrar com droga aqui de jeito nenhum, nem cigarro nem bebida e você vai ter que passar pela revista, todo mundo passa pela revista”. João respondeu: “isso aqui não é CAPS, nunca vi CAPS revistar, parece o DEGASE isso aqui”.
João não estava com medo frente ao desconhecido, mas medo do real, daquilo que ele já tinha vivido no corpo, revistas, situações de violência, agora dentro de um serviço de saúde.
Esta cena fala da memória de um corpo que está constantemente passando por este tipo de situação, e por isso ele precisa estar atento. Devemos pensar a partir disso, na microcapilaridade das relações e mecanismos de poder, principalmente em contextos sociais advindos dos processos de colonização e onde os elementos de colonialidade ainda são fortes. Pois nestes contextos, a morte e a possibilidade do matável constituiu o organizador das relações sociais (LIMA, 2018).
Esse é o modo que bio-necropolita opera, “por um gênero de reversão entre vida e morte, como se avida não fosse o médium da morte. Procura sempre abolir a distinção entre os meios e os fins. Daí a sua indiferença aos sinais objetivos de crueldade (MBEMBE, 2017, p. 65).
Como revistavam pessoas antes de entrar em um serviço de saúde?Era o protocolo, eles disseram, todos que eram usuários do serviço CAPSad passavam por isso. E que para João passar a noite ali, teria que ser revistado.
No meio daquela emboscada, João me olhou, não sei que tipo de olhar foi aquele. Disse, “então beleza, vou ali fumar um cigarro e já volto”. Aquela foi a última notícia que tive de João, por muitos anos.
Pimentel (2016) defende a função da crítica ao passo que ela consiste em ver em que tipos de evidências, de familiaridades, de modos de pensamento adquiridos e não refletidos repousam as práticas que se aceitam, nos mostram que as coisas não são tão evidentes quanto acreditamos.
A aposta é em uma política pública que nos permita produzir saúde pelo caminho da liberdade, e não do assujeitamento. Políticas que nos permitam de fato ação, transformação das nossas práticas e do mundo. A ideia é fazer alianças, redes conspirar juntos estratégias que operem para favorecer a vida.