3.3. As polémicas acerca da intervenção política dos católicos e a dinâmica democrata-
3.3.1. Um católico activo nas Obras do Congresso
Não encontrámos qualquer tomada de posição pública de António Lino Neto acerca das polémicas em torno de A Voz de Santo António, o Partido Nacionalista ou o Partido Progressista. Em carta privada dirigida ao padre Neves Correia, que o escolhera como advogado para tratar do «caso de Barbacena», António Lino Neto, traçava um quadro muito negativo do ambiente social em Lisboa gerado pela «questão religiosa». Atribuía esse ambiente pesado quer ao activismo laicista, quer à desunião entre os católicos, quer à atitude de ordens religiosas não identificadas: «Lisboa continua cada vez pior, quase em anarquia. Jornais e folhetos de toda a ordem pregam a revolução, inventam infâmias, e apontam nomes à bestialidade da canalha. Parece que tudo se encaminha para uma barcelonada… Os católicos não continuam mais unidos, e as ordens religiosas têm nisso alguma responsabilidade, pois que dão o exemplo da divisão e do antagonismo»489. Nessa carta, António Lino Neto mostrava simpatia pelas intenções do líder do Partido Nacionalista, Jacinto Cândido, sem aderir ao seu projecto político: «O Jacinto Cândido tem sido verdadeiramente cristão nos esforços que tem empregado para que tão triste estado de coisas cesse e acabe. Deus o permita e melhores dias venham para Portugal»490. Noutra carta, considerava que o nacionalismo estava condenado a definhar, e recusa-se a ver na defesa da identidade católica pelo Partido Nacionalista um factor distintivo em relação aos outros partidos monárquicos: «O
488 Diário do Governo, n.º 150, de 12 de Julho de 1910.
489 Carta de António Lino Neto para o padre Neves Correia, de 31-08-1909 in ASC/ENC. Os sublinhados
são do documento original.
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nacionalismo enfraquece-se dia a dia, por motivos análogos aos dos outros partidos, quando estão muito tempo afastados do poder»491.
Não cremos que o silêncio público de António Lino Neto se devesse a algum receio de controvérsia, pois António Lino Neto acabou por ter uma intervenção no V Congresso da Agremiações Populares Católicas, em Junho de 1910, que gerou a mais venenosa forma de polémica, a que não se manifesta publicamente. Parece-nos mais credível que o seu declarado propósito de reforçar a unidade dos católicos o levasse a privilegiar, em relação à actividade partidária, outras iniciativas de cariz religioso. Foi um dos conferencistas, juntamente com outras personalidades católicas, como Fernando de Sousa (Nemo), Francisco José de Sousa Gomes, ou o padre Santos Farinha, a participar no curso de religião organizado e presidido pelo patriarca de Lisboa em S. Vicente de Fora e que teve a sua conferência inaugural a 20 de Novembro de 1908492. António Lino Neto teve um papel de maior relevo, de dirigente, numa dinâmica do movimento social católico, a Obra dos Congressos, num período em que a sua presidência foi exercida por Francisco de Sousa Gomes, o líder espiritual do CADC de Coimbra e desde o início um adepto da distinção entre movimento democrata-cristão e Partido Nacionalista.
A Obra dos Congressos Católicos foi fundada no terceiro congresso da democracia cristã, realizado, em 1908, na Covilhã. Os objectivos dos congressos da democracia cristã, também chamados das Agremiações Populares Católicas, foram mais organizativos do que apologéticos e comemorativos, como se tornara corrente desde que o Congresso Antoniano Internacional reunira activistas católicos em Lisboa em 1895.
O primeiro congresso da democracia cristã concretizou-se de 16 a 18 de Junho de 1906 e foi organizado por uma comissão constituída pelo arcebispo de Mitilene, D. José Alves de Matos493, Domingos Pinto Coelho e Carlos Zeferino Coelho (dois elementos de uma família de tradição legitimista), Julio Navarro y Monzó e o padre Benevenuto de Sousa. Pela primeira vez a presidência de um congresso católico não coube a um bispo, mas a um leigo, Manuel Frutuoso da Fonseca, um dos fundadores
491 Carta de António Lino Neto para o padre Neves Correia, de 28-12-1909 in ASC/ENC.
492 Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, Vol. III, Porto/Lisboa, Livraria Civilização
Editora, 1970, p. 561.
493 D. José de Alves Matos nasceu em 1885 em Conqueiros, no concelho de Leiria. Estudou no seminário
desta cidade. Graduou-se em Teologia em 1884. Ensinou filosofia e teologia no seminário de Lamego. A partir de 1886 foi reitor do seminário de Santarém, onde regia a cadeira de teologia moral. Foi eleito arcebispo de Mitilene em 1903. Após a revolução republicana retirou-se para a sua terra natal e nunca mais exerceu as funções inerentes ao cargo de arcebispo de Mitilene.
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dos CCO. O congresso tinha como intenção, expressa na primeira de sete teses propostas pelos organizadores, unir os católicos vivendo de «pequenos salários, dos produtos da terra ou do exercício de uma indústria» e uni-los «independentemente de todos os partidos políticos, mas sem contrariar a acção dos partidos católicos» levando- os a «zelar e defender legalmente e nas formas aconselhadas pela Igreja os seus interesses morais e materiais»494. Os congressos democratas-cristãos surgiam assim com um carácter autónomo em relação ao Partido Nacionalista. Os seus discursos legitimadores acentuavam o carácter prático da iniciativa que devia transformar os CCO em associações de classe e realizar projectos mutualistas e assistenciais como bancos populares, montepios e caixas rurais. No congresso foi lançada a ideia de fundar um jornal católico, Portugal, o qual seria o porta-voz do nacionalismo católico e veio a público em Fevereiro de 1907, sob a direcção de Fernando de Sousa (Nemo)495.
O Porto foi a cidade escolhida para receber o II Congresso da Democracia Cristã, que decorreu de 7 a 9 de Junho de 1907 no salão do jornal católico A Palavra, sob a presidência de D. António Barroso496, bispo do Porto. Foi um congresso com uma intenção mais programática do que organizativa, buscando uma resposta à questão social alternativa à do socialismo. As comunicações foram agrupadas em três secções – política social; ensino e imprensa; moralização social e caridade. As propostas apresentadas foram consideradas contributos sectoriais importantes, embora insuficientes para estruturar um programa próprio.497
O congresso fundador da Obra dos Congressos foi realizado de 4 a 6 de Outubro de 1908. Para dirigir a Obra dos Congressos foi criada uma comissão central, composta
494 Estudos Sociais, Fevereiro de 1906, p. 95.
495 Manuel Braga da Cruz, As Origens da Democracia Cristã …, p. 188-194.
496 D. António José de Sousa Barroso (1854-1918) foi admitido no colégio das missões ultramarinas em
1873, onde fez estudos preparatórios e de teologia. Celebrou a sua primeira missa a 15 de Outubro de 1879. No ano seguinte partiu para Luanda como missionário. Fundou, com o padre Sebastião José Pereira, a missão de S. Salvador do Congo. Em 1884 e 1885 criou uma nova missão na Marimba. Foi nomeado cónego da sé de Luanda, por proposta do bispo de Angola, em 1884. O governo, por decreto de 12 de Fevereiro de 1891, apresentou-o na prelazia de Moçambique, sendo confirmado nesta dignidade pelo Papa a 21 de Junho desse ano. Chegou à ilha de Moçambique a 20 de Março de 1892. Fundou o Instituto Leão XIII e o Instituto Rainha D. Amélia. Em 1895 regressou à metrópole e dois anos depois foi apresentado na diocese de S. Tomé de Meliapor, sendo confirmado a 14 de Setembro de 1897. Em Fevereiro de 1899 foi apresentado na catedral do Porto. Fez a sua entrada solene na cidade a 2 de Agosto de 1899. Foi um bispo activo, cujas intervenções públicas tiveram ampla repercussão durante a I República, como focamos nesta tese.
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por um presidente – Francisco José de Sousa Gomes – e um substituto, o padre Manuel Mendes da Conceição Santos498.
Os membros da Obra dos Congressos trabalhavam em quatro grupos: acção religiosa, acção social, instituições de beneficência, juventude católica499.
António Lino Neto interveio como orador no IV congresso da democracia cristã, que decorreu em Braga, de 27 a 29 de Junho de 1909 e que tentou reanimar o incipiente movimento social católico. Criticou a «dissolução dos costumes morais» que se manifestava na pornografia, na prostituição e na reivindicação do divórcio pelo movimento feminista. Estas tendências deveriam ser combatidas pela doutrinação religiosa e cristã. Em prol desta causa, defendeu a criação de uma arte e literatura «cristãs» para regenerar a sociedade portuguesa.500 Mais uma vez, mostrava que entendia que a cultura desempenhava uma «função social» que podia e devia ser orientada por um projecto religioso e/ou político.
A intervenção de António Lino Neto no congresso das Agremiações Populares Católicas de Braga deve ser contextualizada em dois traços dominantes nesta iniciativa: o apelo à união dos católicos, que Sousa Gomes expressou logo na abertura dos trabalhos, exortando à união dos católicos, quaisquer que fossem as suas filiações partidárias, incluindo progressistas, regeneradores e republicanos; a interpretação moralizante da luta de classes, expondo como solução dos problemas sociais uma actuação quase paternal do patrão, e da vida social, criticando diferentes aspectos da liberalização dos costumes como o divórcio, a pornografia, o feminismo, o teatro «imoral»501.
Na perspectiva das interacções entre militância católica e política, a intervenção mais relevante do IV Congresso das APC foi a defesa de um projecto moderno, ainda que vago de corporativismo, baseado em «conselhos de trabalho». Em cada cidade portuguesa haveria um «conselho de trabalho» constituído por representantes dos
498 D. Manuel Mendes da Conceição Santos (1876-1911) nasceu no concelho de Torres Novas e
frequentou o seminário de Santarém, tendo-se formado em Teologia em Roma, em 1899. Durante os sete anos seguintes foi professor no seminário de Santarém. Em 1905 foi nomeado vice-reitor do seminário da Guarda, cidade em que foi também professor de liceu durante três anos. Em 1910 foi nomeado cónego da sé da Guarda. A 9 de Dezembro de 1915 foi nomeado bispo de Portalegre, tomando posse a 6 de Maio. Empenhou-se na publicação do Boletim da Diocese de Portalegre e no recrutamento de seminaristas. Em 1920 foi nomeado bispo titular de Filipópolis e coadjutor do arcebispo de Évora, D. Augusto Eduardo Nunes.
499 Manuel Braga da Cruz, As Origens da Democracia Cristã …, p. 202-209. 500 O Grito do Povo, 3 de Julho de 1909, p. 2.
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operários, patrões e técnicos. Cada um destes conselhos teria representação no parlamento por meios a definir502.
António Lino Neto fez parte da comissão organizadora do último congresso das Agremiações Populares Católicas, o qual teve lugar em Lisboa, de 24 a 26 de Junho de 1910. Os outros membros da comissão organizadora eram Pinheiro Torres, cónego Martins do Rego, Rodrigo Ravasco, Zuzarte de Mendonça, Carlos Zeferino Pinto Coelho (neto de um político legitimista homónimo). Lino Neto proferiu uma intervenção de fundo e controversa. O momento era propício a elaborar reflexões sobre as questões fundamentais e a causar polémica. A ideia da democracia cristã ia ganhando contornos mais claros. O principal objectivo do Congresso foi a instituição de uma Federação das Agremiações Populares Católicas. Na proposta de Estatutos e de Programa dessa Federação, publicada em O Grito do Povo, Manuel Braga da Cruz detectou o resultado de uma «crescente maturidade programática que no movimento alguns sectores iam atingindo, a par da maturidade organizativa»503. O programa referia a necessidade de basear a organização política no «regime corporativo», no «povo organizado». Este amadurecimento de ideias e de experiências organizativas misturava- se com o rescaldo da polémica em torno do encerramento de A Voz de Santo António e o clima pré-revolucionário.
As teses apresentadas foram prolíferas e a sua discussão não permitiu tirar conclusões globais. O resultado concreto do congresso foi a designação da nova comissão central constituída, além de Sousa Gomes e Mendes dos Santos, por Zuzarte Mendonça (secção social), Carlos Pinto Coelho (secção de beneficência) e Pinheiro Torres (secção de senhoras).
A longa intervenção de António Lino Neto foi uma nota dissonante ao abordar a
questão religiosa em termos de relações entre Estado e Igreja Católica e de formação do clero. Foi transcrita apenas no jornal católico Portugal, precedida por uma nota em que, subtilmente, os responsáveis pelo periódico se demarcavam das ideias que de seguida publicam:
«NOTA-Foram brilhantíssimos todos os discursos proferidos n’esse esplêndido Congresso, que marca uma data notável nos annaes do movimento catholico portuguez.
502 Marie-Christine Volovitch, «As organizações políticas perante o movimento operário em Portugal
(1900-12)»…, p. 1200.
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Alguns já foram publicados, outros hão de publicar-se, para que os nossos leitores apreciem, lendo o que todos nós apreciamos ouvindo.
Escusado será dizer que temos pelos distintos oradores a mais profunda e respeitosa consideração, que é merecida pelo seu talento, saber e carácter, e se muita coisa perfilhamos como nosso sentir próprio e individual, com outras não concordamos, o que ninguém, certamente, nos levará a mal»504.
Na introdução à tese de razão e oportunidade «melindrosíssima», António Lino Neto critica as divisões internas que afectaram o constitucionalismo, marcado por conflitos entre legitimistas e constitucionais, cartistas e setembristas, conservadores e radicais505. Contra estas divisões e a expectativa, não nomeada, de uma revolução, o orador apela a um «entendimento geral» assente no princípio de «A máxima tolerância (…) dentro da máxima justiça. As ideias não se derrubam com balas, nem se impõem com decretos»506.
As divisões, os conflitos reflectem a necessidade de uma remodelação dos «serviços públicos», incluindo os serviços religiosos, uma vez que os padres seculares eram funcionários públicos. Há uma «questão religiosa» que está na ordem da discussão pública e a expectativa de uma solução, a da lei de separação do Estado da Igreja Católica francesa de 1905, que o conferencista não espera que aconteça no seu país: «O paiz é tradicionalmente catholico por uma enorme maioria, e creio bem que um movimento de ataque directo à Igreja, como houve há pouco em França, seria impossível em Portugal»507. Qualquer estadista teria de ter em consideração a forte presença da Igreja Católica na sociedade portuguesa na realização de uma política religiosa. «Carecem, comtudo, os catholicos de mostrar que, sendo a maior força da sua pátria, são os primeiros que querem conciliar a liberdade da sua existência com a de outras forças sociaes, embora reduzidas e mais dispersas»508.
O estado das relações entre Estado e Igreja Católica em Portugal eram caracterizadas pelo regalismo, tipo de relação só justificável no caso de «um regímen transitório, de confiança mútua, quando os homens de Estado eram ao mesmo tempo sinceros filhos da Igreja.»509 Fora desta situação, o regalismo «é um regímen de hypocrisia que só pode ser defendido por quem tenha a lucrar com o cahos na administração pública. Eu considero-o, sem receio de desmentido sério, uma das mais
504 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 505 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 506 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 507 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 508 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 509 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2.
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poderosas causas da nossa decadência nacional».510 António Lino Neto critica então vários aspectos do statu quo existente entre o Estado português e Igreja Católica: um clero que, devido às suas condições económicas se encontra «à mercê de todas as paixões de estreita política local», um ensino de «sciencias eclesiásticas» deficiente, uma disciplina eclesiástica frágil, um financiamento da Igreja pelo Estado perverso. Acerca desta última questão, declarou: «não pode de modo algum agradar aos catholicos – os não catholicos queixam-se de que, por causa da Igreja, são forçados ao pagamento de congruas para sustentação d’uma religião que não é a sua, á prestação de juramentos por uma fé que não possuem, á prática de actos de culto cuja belleza não sentem. Ora, os catholicos não querem nem precisam de taes dedicações á sua fé: repellem absolutamente a companhia de correligionários por coacção, e aspiram a uma organização social que, deixando-os n’uma conveniente liberdade, não opprima os seus concidadãos de outras confissões religiosas»511.
Nas críticas à situação da Igreja Católica em Portugal, António Lino Neto não inclui, no entanto, talvez a crítica mais corrente desse tempo: a denúncia das ordens religiosas como expressão de uma intervenção estrangeira. Pelo contrário, vislumbra nas ordens religiosas «um movimento de internacionalização que, longe de prejudicar a vitalidade da pátria, a vem robustecer»512.
Após expor as suas críticas à situação de facto, o académico e publicista católico apresenta uma solução que cai muito mal no meio católico: a separação entre o Estado português e a Igreja Católica. Não se trataria de uma «separação absoluta» seguindo o modelo francês. António Lino Neto expõe mesmo razões para o Estado privilegiar, em termos que não concretiza, a Igreja Católica em relação a outras: o Estado «não pode ser indiferente em máteria religiosa» e deve preferir uma religião «não para a impor aos que a não sigam, mas para tirar as linhas geraes que devem orientar a sua marcha económica, moral e política.»513 Apresenta várias razões para o Estado preferir a Igreja Católica: o catolicismo tem meios para vigiar e corrigir os motivos psicológicos que levam ao crime; é favorável ao desenvolvimento da instrução; incentiva os sentimentos de solidariedade e igualdade. A separação entre Estado e Igreja Católica não deverá ser total, «mas apenas a bastante para que o Estado não continue com os seus pretendidos
510 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 511 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 512 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 513 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2.
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direitos regalistas nem também com os encargos da sustentação do clero»514. As funções que então eram desempenhadas pelo Estado deveriam sê-lo por associações católicas: «Os sobreditos direitos na parte sustentável, como o da apresentação nos benefícios ecclesiásticos, e os encargos d’ahi consequentes, como o das congruas parochiaes, deverão passar para associações puramente catholicas, formadas de cidadãos de todas as classes, correspondendo a circunscripções territoriaes administrativas, o que muito nos aproximaria, evidentemente, da primitiva Igreja.»515 O publicista católico sublinha a subordinação das associações católicas à hierarquia eclesiástica: «Quanto à forma determinativa das associações catholicas para os referidos fins, desde que affecta o modo de ser interno da própria Igreja, deve ser, por princípio de solidariedade social e de exigências funccionaes, estabelecida de harmonia com a Santa Sé»516.
Em suma, António Lino Neto surge como porta-voz de uma corrente de opinião que não se ouvia no meio católico: «Não a queremos [à Igreja Católica] a viver à custa do Estado; não a queremos a desempenhar uma funcção parasitária.//Queremol-a livre»517. Antes de terminar a sua intervenção, o orador insistiu na superioridade da fé religiosa em relação às divisórias paixões partidárias: «é conveniente que os catholicos d’hoje procurem fazer ver, na propaganda da fé, que o catholicismo não é essencialmente ligado a “formas de governo” nem a quaesquer órgãos na administração que com ellas se prendam; é ainda conveniente que não subordinem absolutamente a defesa da fé à defesa dos seus ideaes políticos, para que a fé não seja odiada por causa do ódio a coisas partidárias, para que não pareça que a paixão política é maior que paixão da fé ou que esta se mantém com a cegueira d’aquella»518.
É uma declaração onde encontramos elementos que se vão manter durante a intervenção de António Lino Neto até ao advento do Estado Novo: a defesa do
ralliement, a necessidade de união dos católicos, mas que, lida no contexto político de Junho de 1910, era interpretada como uma recusa da pretensão do Partido Nacionalista de monopolizar o voto católico.
Este discurso de António Lino Neto foi abafado na imprensa católica, ignorado na imprensa republicana e atacado em conversas privadas. O Grito do Povo publicou
514 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 515 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 516 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 517 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2. 518 Portugal, 29 de Junho de 1910, p. 2.
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um «resumo» da intervenção diluindo as posições do orador em termos vagos e sem empregar sequer a palavra «separação»:
«O orador delinia largamente quaes devem ser as relações entre a egreja e o estado concluindo por dizer que não quer a egreja parasitária, mas sim a egreja livre.