CAPÍTULO 02. TRÊS PERSPECTIVAS CONTEMPORÂNEAS DO SUJEITO DE
2.2 UMA PROPOSTA RADICAL PARA OS DIREITOS EM GIORGIO AGAMBEN
2.2.1. Um “complemento” ao diagnóstico de Arendt
Para Agamben, Arendt e Foucault foram os primeiros autores a identificarem a inserção da vida nos instrumentos de poder. Todavia, haveria uma lacuna no pensamento de ambos ao analisarem a biopolítica, que é a ausência de uma compreensão do totalitarismo e suas consequências. Enquanto Foucault não endereça os campos de concentração como espaços de controle biopolítico, Arendt não estende suas observações em The Human Condition para sua compreensão do totalitarismo. Apesar de a autora ter abordado ambas as temáticas, ela não o faria de modo combinado. Desta intepretação de ambos, Agamben se propõe a complementar a análise, trazendo à biopolítica o elemento totalitário (DURANTAYE, 2009). Este projeto é expresso em Homo Sacer: o soberano e a vida nua, inclusive quando aborda o tema dos direitos. O segundo capítulo da parte terceira de Homo Sacer, intitulado “Os direitos do homem e a biopolítica”, procura realizar este complemento da biopolítica em Arendt, retomando a análise da autora sobre a situação dos refugiados no período entre-guerras e estendendo-a para a situação contemporânea de refúgio. Sua primeira observação é a de que Arendt, em que pese trazer o elemento de identificação entre os direitos do homem e os direitos do cidadão, faz esta conexão de modo superficial, não explorando o significado biopolítico a ela subjacente. Como é neste texto que Agamben aborda diretamente a questão dos direitos do homem, ele será objeto desta subseção.
Agamben parte do diagnóstico de Arendt, mas não retoma o “direito a ter direitos”, nem as situações fáticas que a levam a ele. O seu foco está no argumento da autora de que os direitos do homem foram identificados com os direitos do cidadão, o que teria levado à ineficácia dos primeiros no momento em que restou às pessoas apenas sua humanidade. Arendt aponta para a íntima e necessária conexão entre os direitos do homem e o Estado-nação, mas deixa esta afirmação injulgada (AGAMBEN, 2010, p. 123). Agamben se propõe a explorar este vínculo, que seria revelador da inaplicabilidade dos direitos do homem e já estaria contido na própria declaração dos direitos do homem.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), já em seu título, traz uma ambiguidade, pois não se sabe, por sua formulação, se ela foi elaborada sobre duas realidades autônomas, o homem e o cidadão, ou apresenta um sistema unitário, sendo necessário apontar a relação entre eles. Após a Segunda Guerra Mundial, multiplicaram-se as declarações de direitos, mas esta ambiguidade não foi resolvida. Ao contrário, declaradas como baseadas em princípios e valores tidos como universais, elas não permitiam notar o significado histórico deste fenômeno, que é a inscrição da vida na ordem jurídico-política do Estado-nação, como aponta o autor no trecho abaixo:
Mas é chegado o momento de cessar de ver as declarações de direitos como proclamações gratuitas de valores eternos metajurídicos, que tendem (na verdade sem muito sucesso) a vincular o legislador ao respeito pelos princípios éticos eternos, para então considera-las de acordo com aquela que é a sua função histórica real na formação do moderno Estado-nação. As declarações de direitos representam aquela figura original da inscrição da vida natural na ordem jurídico-política do Estado-nação (AGAMBEN, 2010, p. 124).
Os direitos, conforme indicado acima, antes de proporem valores e limites aos legisladores, são o momento em que a vida natural do homem adentra a ordem jurídica, e toma primeiro plano no Estado, fundando a soberania moderna. Logo, quando a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão trouxe o homem para dentro da ordem jurídica, ela o dissipou na figura do cidadão, que por sua vez funda a soberania terrena do Estado, em oposição à soberania divina que vigorava durante o Antigo Regime. O homem dos direitos só existe na medida em que ele é o elemento que se dissipa na figura do cidadão, o que explica as perplexidades dos direitos do homem apontadas por Arendt.
Para Giacoia Jr. (2018), esta observação de Agamben indica também que a sacralidade da vida humana é uma invenção moderna. É um dogma que emergiu com a inscrição da vida nas declarações de direitos, e, a partir delas, passou a inspirar as constituições republicanas. A partir da inscrição da vida na ordem-jurídico-política, os Estados não deixaram de definir, por estes instrumentos, qual parte da vida humana é ou deixa de ser sujeito de direitos, qual o limite em que o homem inserido no território torna-se um cidadão. O que está em jogo nas normativas de direitos, assim, é a relação entre o homem e o cidadão, do momento em que o primeiro desaparece na figura do segundo (CASTRO, 2012).
Notamos, porém, que Agamben opera esta identificação do homem como elemento dissipante do cidadão com base na Declaração do Direitos do Homem e do Cidadão (1789), não analisando como isso se opera em instrumentos mais contemporâneos de direitos, como a DUDH/1948, que abole esta dualidade ao declarar sua aplicabilidade a todos os “membros da família humana”. O autor faz menção aos instrumentos normativos de direitos que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, mas não os cita diretamente, nem analisa os termos que são empregados. Ele apenas estende seu diagnóstico às normativas recentes, afirmando que, da mesma forma que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão significou a inscrição da vida na ordem jurídico-política, as normativas que a seguiram realizam o mesmo movimento.
Além da inscrição da vida na ordem jurídico-política, as declarações de direitos também representam a mudança do fundamento da soberania. Se durante o Antigo Regime ela era fundada em um poder divino, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão inscreve o
elemento nativo na soberania, ao afirmar que todos os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. O súdito do Antigo Regime se transforma no cidadão, e traz para a soberania o elemento da natividade. Há uma passagem automática do nascimento para a nação, dissipando o homem no cidadão e, consequentemente, colocando todos os direitos enquanto direitos dos cidadãos. Esta seria uma ficção jurídica sem resto, uma operação automática pela qual todos passariam (AGAMBEN, 2010, p. 129).
A figura do refugiado após a Primeira Guerra Mundial representa a crise desta ficção, e a consequente indicação de que há um resto para a operação nascimento-nação, que é colocado às margens e expulso do Estado-nação. Com a emergência dos movimentos totalitários na Europa, a vida do homem se separa da do cidadão, de modo que a existência de direitos que seriam apenas do homem revela a inscrição da vida no ordenamento, mas agora enquanto uma exceção aos direitos do cidadão e à proteção do Estado-nação. O refugiado, como sugere Arendt, é o momento em que o homem aparece sem a máscara do cidadão, o que o coloca enquanto um conceito-limite, de difícil definição (AGAMBEN, 2010).
Portanto, Agamben concorda com o diagnóstico de Arendt de que aqueles que perderam sua cidadania estão também desprovidos de direitos, mas o autor afirma, ainda, que esta perda de direitos está relacionada ao modo de sua inscrição na ordem jurídico-política do Estado- nação. Os apátridas e refugiados estão sem direitos por estarem inscritos apenas enquanto homens, o que os exclui da proteção estatal dos direitos do cidadão. Os direitos do homem se revelam uma categoria inoperante, que não consegue se realizar no mundo, na medida em que estes homens, apresentados em sua pura humanidade, não conseguem se dissipar no conceito de cidadão, estando incluídos na comunidade política na forma de uma exclusão, isto é, pertencem à ordem enquanto pessoas sem direitos. Observamos que os fundamentos de Agamben diferem dos de Arendt, ainda que os resultados concretos de suas análises sejam semelhantes.
Colocados os elementos diagnósticos de Agamben que se assemelham aos de Arendt, é necessário agora abordar os elementos distintivos de sua teoria, que trazem o complemento biopolítico prometido pelo autor em Homo Sacer. Às observações apontadas até agora, acrescentamos as categorias específicas de vida nua, estado de exceção e campo, que não apenas dão contornos únicos à sua análise, mas também criam a base para sua proposta de renovação categorial dos direitos do homem, e que tem como centro o conceito-limite do refugiado. Abordamos estas questões na subseção seguinte.