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Um, dois, três e Clic: eternizando alguns momentos

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3.2. OS RECURSOS METODOLÓGICOS UTILIZADOS

3.2.2. Um, dois, três e Clic: eternizando alguns momentos

A Fotografia é a arte de conseguir expressar um momento único, que só pertence a um par de olhos. E, a mais nenhum. Pois, cada um vê o mundo do seu jeito: uns mais coloridos, outros menos; uns alegres, outros tristes; alguns preocupados com problemas sociais, outros, em retratar situações inusitadas e divertidas (ONODERA, 2010, p.1).

A fotografia como uma narrativa visual, tem a intenção de ilustrar aspectos que desejei realçar, como memória de um espaço ou situação específica, bem como representar pontos de vista. Aliada às narrativas orais e às narrativas gráficas (desenhos) pode não somente somar informações, mas existe a possibilidade de dialogarem entre si expressando significados de uma situação vivida. A fotografia não para

no tempo, mas abre a trama do tempo extraindo daí algo que já é fotografia. Ela não fixa, mas modula o tempo. A fotografia é também um forte instrumento para resguardar a memória e de constituir a subjetividade (KRAMER, 2002).

O ato fotográfico representa a propriedade estética das coisas: os instantes de felicidade, de espanto, de desconfiança, de alegria, de descontração, que são expressos pelos sujeitos fotografados, mas principalmente produzidos pelo olhar do fotógrafo. Assim, a fotografia ao modular o tempo, dá forma e sentido para as emoções vividas. Peixoto (2003) alega que a fotografia consegue eternizar o tempo de uma respiração e, além disso, tem o poder desvelar outras imagens, que tem o poder de capturar significados ditados pela nossa percepção. As fotos modificam e ampliam as nossas ideias. Organizam, segundo Sontag (2004), uma gramática e uma ética do ver, dando a sensação de que é possível reter o momento ou capturar uma experiência, como um passado que se atualiza com a presença.

Crianças: Ivonei e Cleiton – queriam o registro do exato momento em que as rodas levantavam ao subir a rampa

A fotografia é o tempo todo refeita, onde a construção de um enunciado é acima de qualquer coisa, uma ação. É comum partir da ideia do senso comum, que fotografar é fazer poses, improvisar a

melhor maneira de ser visto no retrato, arrumar o cabelo, organizar o ambiente em volta. E o clic é o momento decisivo, que concretiza a cena esperada e planejada. A Fotografia é, portanto, a expressão mais íntima do olhar do fotógrafo sobre o que ele vê. Por isso, ela é uma das mais belas formas de expressão do ser humano, pois consegue transformar um segundo numa imagem que poderá ficar para sempre ou flagrar uma situação e fazer dela tema para discussões no mundo todo. (ONODERA, 2010). Quem não aprecia as delícias dos álbuns de família? Quem não se delicia com as histórias reveladas nas fotos antigas, que contam histórias, que revelam momentos inesquecíveis? A fotografia é um constante apelo à releitura, a formas diversas de dispor aquele documento imagético. A cada vez que a olhamos, em diferentes momentos e situações, a imagem ganha novas interpretações, é transformada a cada novo olhar sobre ela. Sua história é resgatada, recontada e ressignificada. Como nos expõe Sontag (2004, p.16), “as fotos fornecem um testemunho”. A fotografia é uma prova indiscutível de que determinada passagem aconteceu, pois permite deduzir que se algo existe ou existiu, é ou era similar ao que revela a imagem.

Charlene no parque - um dos espaços que mais gostava no hospital

Quando olhamos uma imagem e a tomamos como verdadeira, remontamos o resto da narrativa que supomos ser a proposta daquela cena, daquela parte retirada de um momento. Conforme Camargo

(2006) toda imagem expressa uma pequena história, traz um sujeito, uma característica, uma qualidade, traz uma passagem. Toda imagem possui um narrador: será o fotógrafo ou o espectador? As narrativas expressas são percebidas por quem as olha ou a imagem de fato contém muitas narrativas? Estes questionamentos do autor me levam a reflexões imprescindíveis relativas a esta técnica.

Fotografia é uma forma de eternizar o outro, no tempo e no espaço do ajuste dado à determinada situação. Existe em cada imagem algo possível de ser narrável, uma pequena história visual, porque a fotografia possibilita a esse usuário, acima de tudo, ser um narrador, pois a narração, em seu aspecto sensível, não é de modo algum o produto exclusivo da voz. Analisar a composição das narrativas desses documentos fotográficos é buscar identificar também as marcas da cultura que tais sujeitos carregam em suas imagens.

Ivonei e Cleiton dançando o “Rebolation”

Fotografar é uma maneira de ver o passado, é uma forma de expressão, o “congelamento” da uma situação e seu espaço físico inserido na subjetividade de um realismo virtual. Fotografar é um modo de comunicar e informar. A fotografia não é determinada por uma língua padrão, não precisando assim de uma tradução, uma vez que o que diferem são as interpretações.

As obtenções fotográficas visam a perspectiva da produção de conhecimento, reconhecimento e crítica do indivíduo em relação ao seu território, cujos resultados possam servir de fonte de identificação, análise e interpretação dos elementos que constituem os universos circundantes no qual a criança está inserida. Muitas das informações a respeito da pesquisa foram obtidas quando as crianças, ao olharem para as suas imagens nas fotografias, passaram a comentá-las. Ao mesmo tempo, não comentavam somente a situação em si, mas também nomeavam outras crianças que estavam presentes nas fotos, a razão que as levaram a fazer determinada pose, a olhar daquele modo, a escolher o referido espaço.

Souza e Lopes (2002, p.2) questionam:

O que é olhar o mundo através das lentes? Que mudanças são desencadeadas no olhar através da mediação proporcionada pelos instrumentos técnicos? O que somos capazes de ver e o que nos escapa ao olhar? Conhecer o mundo através das lentes é criar um outro mundo possível? Quais as consequências dos usos destes aparatos nos modos de ser, agir e conhecer? De que modo podemos tirar partido do uso da tecnologia para construirmos um conhecimento crítico do cotidiano?

A imagem obtida num determinado instante, apoiada pela tecnologia, determina muitas vezes a visão que temos do meio em que estamos inseridos. Um olhar sobre a materialidade do mundo físico e social, antes não era possível. Mesmo com os questionamentos pela grande evidência do uso da tecnologia da imagem, a fotografia abre caminhos na construção de novos modos de escrita do mundo. De acordo com as autoras (SOUZA e LOPES, 2002), faz-se necessário instituir sentidos novos com as imagens, inventar composições que alteram e libertam nossa percepção do mundo em variadas direções. Por mais que o mundo esteja se revelando aos nossos olhos através de narrativas figuradas, há que se decompor essa imagem em palavras e devolver ao outro as possíveis interpretações daquilo que é visto, tornando as imagens técnicas mediadoras de um diálogo entre pessoas que buscam novos modos de narrar sua experiência, recriando o mundo na imagem e no discurso. As fotografias desencadeiam um outro modo de olhar o mundo, enriquecendo as possibilidades de apresentação dos

fatos, objetos, pessoas e acontecimentos. A construção de sentido através da imagem se dá na interlocução, num primeiro momento, entre o sujeito e a câmara fotográfica e, posteriormente, no diálogo entre o pesquisador, que narra por meio de palavras o sentido das imagens que foram selecionadas no cotidiano e produzidas como fotografias, permitindo que sejam analisadas sob novo ângulo de visão. Portanto, considero que a pesquisa pode encontrar na fotografia uma forte aliada metodológica para a construção de um olhar crítico sobre o cotidiano. A potencialidade da fotografia é um elemento particular da realidade que se encontra diluído num vasto campo de visão. Desta forma é possível capturar a singularidade de uma cena no cotidiano da educação das crianças hospitalizadas.