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Tudo o que nos cerca já não responde às indagações que emanam de nosso mundo interior. A crise é um processo benéfico desde que acompanhada da provocação e do desejo de superação. Estamos nos condicionando a dar
10 LAWRENCE, David Herbert. Phoenix. In GROF, Stanislav et Bennett, Hal Zina. La Mente
respostas robotizadas para tudo e o que há de original e particular vai sucumbindo à aceleração das relações.
Pivatto (2008) mostra-nos que essa crise sustenta-se no grande questionamento sobre a visão do homem na educação e da própria humanização, uma vez que compreender quem é esse ser humano carece da influência das demais Ciências e, principalmente, do voltar às origens do humano. Para isto:
[...] o fato do existir, de existir como consciente responsável, de existir como consciente não coincidente com a alteridade e a totalidade, é anúncio do ad-vento do homem em cada momento do existir e do conviver. Eu sou, mas não sou na medida em que sou chamado a ser. Ser e consciência não coincidem. A ontologia que concebe a coextensividade ilimitada entre ser e pensar não consegue englobar a identidade e a diferença dinâmicas que o ser homem em sua expressão “eu” apresenta e abrange, sem conseguir exauri-las.( p. 359)
Sendo o homem, um criador de realidades, ele acaba criando:
[...] uma teoria que apresenta e mede sua compreensão do mundo e de si mesmo. Mas o homem supera sua criação pelo fato de ser esta obra sua, isto é, ele transcende seu próprio pensar. Sendo assim, as próprias medidas ou idéias de humanização e alienação são criticáveis e superáveis. Porém, é neste processo inexaurível que o homem forja seu existir e sua qualidade humanizante ou alienante, alarga sua consciência e responsabilidade à medida que se exerce no incessante vir a ser. Significa dizer que o que é chamado “eu” não é nada de absoluto. É relativo, fragmentário e processivo. (2008, p. 359)
Vislumbrando essa criação do homem, ainda enfrentamos no cotidiano os questionamentos que se relacionam à dimensão processual, na qual o considera como um ser em constante evolução e aprendizagem. Pivatto (2008) complementa dizendo que:
[...] sob este viés, procedem as críticas dirigidas ao idealismo pelo fato de absolutizar o ser humano, perdendo de vista sua temporalidade e processualidade. A mais elementar experiência que o ser humano faz de si mesmo mostra sua identidade peregrina em perfectibilidade, quer dizer, sua finitude aberta ao contingente e ao incomensurável. É inclusive a partir desta experiência que se torna possível uma abertura reflexiva de ordem eletiva. ( p. 360 )
A experiência peregrina do ser humano que o autor se refere parece-nos querer alcançar muito mais do que o próprio processo de humanização, na medida em que o homem só poderá se auto-desenhar, se de fato conseguir voltar-se ao ponto de partida.
O encontro com a originalidade essencial necessita muito mais de perguntas do que de suposições e de respostas.
Arntz, Chasse e Vicent (2007) juntamente com diversos pesquisadores que atualmente buscam compreender tudo o que envolve o desenvolvimento pessoal e profissional e suas conexões com uma nova forma de pensar, também reafirma tal pressuposto:
[...] perguntas como essas nos despertam para o que não sabemos. E de fato são a única forma de chegar lá – ao outro lado do desconhecido. Por que fazer uma grande pergunta? Perguntar é um convite à aventura, a uma viagem de descobrimento. Partir para uma nova aventura é emocionante; há o profundo encantamento da liberdade, a liberdade de explorar um território novo. Então, por que não fazemos essas perguntas? Perguntar abre a porta para o caos, o desconhecido e o imprevisível. No momento em que fazemos uma pergunta cuja resposta desconhecemos, despertamos para todas as possibilidades. Estamos prontos para receber uma resposta que não gostamos ou com a qual não concordamos? E se a resposta nos deixar desconfortáveis ou nos tirar da área de segurança que construímos para nós mesmos? E se a resposta não for o que desejamos ouvir? Para fazer uma pergunta não é preciso força; é preciso coragem. ( p. 03)
Penso que embora não tenhamos a melhor pergunta e muito menos a mais sábia resposta, é preciso, sim, um desinstalar do formal e do previsível
para compreendermos quem de fato somos e o que queremos fazer com nossa vida, com o que nos caracteriza e com o que nos têm levado à autodestruição de nosso ser.
Essa mudança na forma de ver-se enquanto pessoa é um dos caminhos necessários para uma transformação radical que ultrapasse o discurso no meio educacional e considere quem nele interage, como alguém que possui sentimentos, idéias, propostas e um efetivo desejo de fazer diferente.
Discursar sobre os equívocos educacionais não contribuirá para que as práticas sejam alteradas. Tudo o que vivemos até agora são experiências que precisaram acontecer e que talvez a consciência dos educadores não vem sendo suficientemente ampliada para alterar o cenário no qual transitamos.
O que nos interessa é poder refletir conjuntamente sobre o que pode ser feito para que na atualidade sejamos educadores preocupados e comprometidos com a pessoa que está diante de nós e para que isto tenha eco é fundamental que o nosso foco de percepção permeie o encontro com tudo o que está no mundo subjetivo, ou seja, nossa originalidade enquanto ser pertencente a um todo e particular nas construções com o sagrado e com o outro.
Wilber nos traz a ampliação dessa reflexão ao retomar o olhar integral diante de tudo o que vivemos:
[...] integral – essa palavra significa integrar, reconciliar, juntar as partes, unir, abarcar. Ela não tem o sentido de uniformidade, nem relação com a tentativa de eliminar todas as extraordinárias diferenças, a multiplicidade de cores e o ziguezaguear dos diferentes matizes do arco-íris humano. Essa palavra remete à idéia de unidade na diversidade, de compartilhar atributos comuns e respeitar nossas incríveis diferenças. Buscar, não só na humanidade, mas no Kosmos como um todo, uma visão mais abrangente – uma Teoria de Tudo (T.T.) – que garanta um espaço legítimo para a arte, para a moral, para a ciência e para a religião, sem meramente reduzi-las ao nosso pedaço favorito de torta cósmica. ( 2000a, p. 14 )
Esse olhar sobre o todo está intimamente ligado ao modo como nos revelamos e deixamos que os outros nos percebam e nesta espiral do único com o todo, um encontro se potencializa para que a presença e a não- presença possam acontecer, revelando os caminhos e descaminhos do que está na origem do que somos e pretendemos vir a ser.
Níveis de Consciência Wilber, 2000a.
Sustentar uma Teoria do Tudo, acolhendo e ampliando olhares nos faz retomar à espiral11 do desenvolvimento humano, fruto dos estudos de Graves (1973), ampliada e aperfeiçoada por Beck e Cowan e adaptada por Wilber, considerando que os estágios ou memes12 irão favorecer a ampliação de nossa consciência e efetivamente fazê-la atuar de forma diferente em nosso espaço de trabalho.
Parece uma afirmação simples e corriqueira, contudo viver os estágios propostos por Wilber, não se mostram assim, envolvem um caminho para tecer e entrelaçá-los, pois envolvem:
• o Instinto de Sobrevivência, • os Espíritos Ancestrais, • os Deuses de Poder, • a Força da Verdade,
• o Impulso para a Realização, • as Ligações Humanas, • a Flexibilidade e Fluidez, • a Visão Global e
• a Integral-Holônico,
11A Dinâmica da Espiral - Spiral Dynamics, proposta por Don Beck e Christopher Cowan
(1996) trata do desenvolvimento do ser humano, considerando os seus estágios de desenvolvimento, ou seja, o ser humano nasce no estádio um e pode evoluir até ao estádio nono, dependendo essa evolução de múltiplos fatores psicológicos, culturais e sociais. Para Clare Graves, estudioso e criador da teoria The Emergent Cyclical Níveis de Existência Theory, nos anos de 1952 a 1959, a Dinâmica da Espiral "é um processo
espiralado, emergente, oscilante, marcado por uma progressiva subordinação de sistemas de comportamento mais antigos e de ordem inferior a sistemas mais recentes, de ordem superior, que ocorre à medida que os problemas existenciais de um indivíduo se alteram".
12MEMES – Conforme BECK e COWAN, “os memes são unidades de informação na nossa
consciência coletiva e transportam as suas perspectivas através das nossas mentes. Um meme contém instruções de comportamento que passam de uma geração para a seguinte, artefatos sociais, e símbolos carregados de valores que mantém colados os sistemas sociais. Como um vírus intelectual, um meme reproduz-se através de conceitos como estilos de vestir, tendências de linguagem, normas culturais populares, formas arquitetônicas, formas de arte, expressões religiosas, movimentos sociais, modelos econômicos e declarações morais de como se deve agir”. A dinâmica da espiral propõe um tipo de metameme, como onda, ou sistemas, ou “memes de valores” (Vmeme), onde cada vMEME funciona como principio organizador, um organizador, centro de gravidade, um fratal geométrico, uma força auto- reprodutora e um campo magnético que atrai outros pequenos memes ricos em conteúdo. Um vMEME envolve uma visão de mundo, um sistema de valores, um nível de existência psicológica, uma estrutura de crença, um principio organizador, uma maneira de pensar e um modo de vida”. ( p. 45 ). Para tanto, ao longo do trabalho, ao nos referirmos aos Estágios
ou Níveis de Consciência, estaremos fazendo referência a expressão Meme, que pontua toda a obra de WILBER, autor que sustenta nossas reflexões.
No entanto, trazem presente o despojamento do ser humano em uma essência primeira e principalmente no que se refere ao contato com o outro. Não há como enganar a si e nem ao outro.
Dinâmica da Espiral do Desenvolvimento Humano BECK e COWAN, 1996.