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CAPÍTULO 6 – Análise do Discurso, sujeito e auto-ajuda

2. Um enfoque complementar

Fundamentados nas teses sucintamente apresentadas no item anterior, os trabalhos da AD têm mostrado o que o sujeito não é, o que o sujeito não faz, o que o sujeito desconhece, o que o sujeito acredita que sabe. Porém, talvez já seja possível procuramos entender também o que esse sujeito efetivamente faz nos (e eventualmente sabe dos) processos discursivos dos quais participa. Afinal, assim como a história não pode ser reduzida a um efeito direto de

condições deixadas pelo passado, os discursos também não podem ser considerados apenas como o resultado de uma conjunção de fatores históricos, sociais, culturais e ideológicos. Por outro lado, aparentemente, não há risco de ressuscitarmos o sujeito cartesiano de outrora, pois, conforme vimos, as pesquisas psicanalíticas e sócio-econômicas do século passado trouxeram a vacina contra essa ingenuidade. A AD, com base nessas pesquisas, tem mantido uma posição contrária a esse sujeito, o que não deve ser entendido como se ela tivesse destruído a ele. Na verdade, o que acontece é que os trabalhos da AD, especialmente porque tratam de materiais "produzidos no quadro de instituições que restringem fortemente a enunciação"2, normalmente não focalizam a atividade "consciente" dos sujeitos, dados os recortes que se realizam em função dos objetivos das pesquisas. Portanto, não é porque a AD tem mostrado que o sujeito desconhece a verdadeira origem de seu discurso que esse sujeito não saiba nada a respeito do que diz, como se fosse um mero suporte para a circulação dos discursos. Esse pensamento se revela tão extremo quanto o que a ele se opõe, isto é, que o sujeito, fonte do discurso, sabe tudo o que diz.

Desse modo, no que diz respeito ao sujeito, parece-nos mais razoável entender as suas ações, incluindo aí seu discurso, como dependentes das condições sócio-históricas que encontra originadas do passado e que as limitam, sem que isso signifique a anulação ou a irrelevância de seu papel. Ainda que o sujeito seja interpelado por ideologias e afetado pelo seu inconsciente e que seu discurso seja produto do interdiscurso, há um espaço (obviamente limitado) no qual ele realiza certas manobras lingüísticas, inclusive de escolhas. Afinal, conforme esclarece Possenti,

condições não causam, apenas condicionam (às vezes é preciso ser tautológico, para evitar deslizamentos irresponsáveis), formas não falam e os enunciados não são entidades voláteis que se materializam eventualmente, emprestando por acaso a voz de quem estiver no lugar adequado (...). (Possenti, 2002, p.92).

Em síntese: por uma lado, não há como questionar a pertinência das opções feitas pela AD ao procurar esclarecer aspectos até então não questionados dos processos de enunciação, o que foi feito especialmente por meio de análises que, contrarias ao sujeito cartesiano, trataram de revelar o verdadeiro papel de tudo aquilo a que podemos abarcar sob a expressão

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"condições de produção dos discursos" (tais como: história, inconsciente, ideologias, outros discursos, etc.). Trata-se dos elementos que, juntos (embora de forma desigual), fazem parte do processo de emergência dos discursos tais como eles são, para que não se entenda que se trata de uma questão exclusivamente subjetiva. Por outro lado, a AD também pode interessar- se pela investigação do papel dos sujeitos na constituição dos materiais que ela investiga. Aliás, mais que uma alternativa, essa pode ser inclusive uma necessidade, dado o tipo de material a ser analisado, tendo em vista que, como sabemos, embora sejam sempre necessários e inevitáveis, os recortes feitos no desenrolar de uma análise podem chegar a comprometer a integridade de um córpus, ou podem produzir resultados pouco satisfatórios para a caracterização de um determinado objeto.

Para sustentarmos essa alternativa, podemos remeter até ao próprio Pêcheux3, na passagem em que se refere ao esquecimento no 2, cujo funcionamento é de natureza pré- consciente e/ou consciente, na medida que um sujeito-falante seleciona, no interior da formação discursiva a partir da qual enuncia, um enunciado e não outros que poderiam ter sido selecionados por funcionarem como equivalentes no interior de tal formação discursiva. Considerando que, segundo a teoria do discurso formulada por Pêcheux e por seus seguidores, o conjunto de enunciados que constituem uma formação discursiva é bastante pequeno, então podemos flagrar o sujeito em atividade parafraseando enunciados que ele não domina, que ele não cria, mas que ele conhece o suficiente para parafrasear e empregar adequadamente em determinadas situações. Afinal, não há como imaginarmos que todas as paráfrases dos enunciados de um discurso se encontrem virtualmente prontas, pairando sobre as cabeças dos sujeitos. Melhor admitirmos que esses sujeitos são dotados de uma certa liberdade, pois selecionam itens lexicais e estruturas sintáticas ao formularem enunciados efetivos, ainda que essa seleção seja limitada pelo contexto sócio-histórico, pelo contexto imediato, pelo próprio sistema lingüístico e, essencialmente, pelas relações entre os discursos, isto é, pelo interdiscurso.

Desse modo, é possível considerarmos o discurso como repetição de outros, ou melhor, como paráfrases de outros discursos, mas também podemos enxergar no meio da repetição dos discursos a atividade do sujeito que seleciona este enunciado e não aquele, que opta por um e não outro item lexical, etc. Ora, o próprio ato de enunciar pode ser entendido como uma

atividade parcialmente consciente do sujeito; sujeito que "conhece" leis sociais da conversação, que "evita" temas proibidos socialmente, que tem um certo conhecimento sobre seus ouvintes, que sabe, eventualmente, alguns dos efeitos que determinados enunciados podem provocar em certas situações. Não que o sujeito possa sempre controlar esses efeitos ou até mesmo predizê-los, mas sabe, em muitas situações, algo a respeito do que diz.

Por outro lado, se adotarmos a forma como Maingueneau concebe os discursos, nos parece ainda mais necessário reconhecer a contribuição dos sujeitos nos processos discursivos. Vejamos: como se sabe, Maingueneau entende um discurso qualquer como um sistema de coerções semânticas que habilita os sujeitos a: (i) produzir um número ilimitado de enunciados inéditos pertencentes a essa formação discursiva e a reconhecer enunciados que revelam de sua própria formação discursiva; (ii) reconhecer a incompatibilidade semântica de enunciados do discurso(s) que constitui(em) seu Outro e a traduzir esses enunciados nas categorias de seu próprio sistema de coerções. Nesse sentido, o autor fala de competência discursiva, descartando, obviamente, a necessidade de se associar essa competência a algum sujeito individual. Embora saibamos que os sujeitos formulam enunciados a partir de um conjunto de condições que restringe fortemente a sua produção (como, por exemplo, as coerções da própria língua mais as ditadas pelo sistema de coerções semânticas a partir do qual enuncia), não há meios de descartar a sua participação, caso contrário seria inadequado falar em competência discursiva. A noção de competência, embora tenha o inconveniente de ser normalmente associada à noção de inatismo, conforme o próprio Maingueneau adverte,

tem a vantagem de não supor uma exterioridade absoluta entre a posição enunciativa e os Sujeitos que vêm ocupá-la. Porque é necessário pensar de um forma ou de outra no fato de que essa posição seja ocupável, que o discurso seja enunciável. Sem isso, sob a aparência de não reintroduzir o Sujeito idealista, tende-se a uma concepção pouco satisfatória dos enunciadores discursivos, ceras moles que se deixariam "dominar", "assujeitar" por um discurso todo poderoso (Maingueneau, 1984, p.50; o grifo é nosso).

Com o princípio da competência discursiva, Maingueneau lança muita luz sob o até então misterioso processo de assujeitamento de um indivíduo ao discurso ao qual se subordina, destacando "a estreita relação que há entre a simplicidade do sistema de coerções do discurso e a possibilidade de dominá-lo" (ibid., p.51). Ora, se compararmos a simplicidade do sistema ao

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conjunto efetivo de enunciados produzidos a partir de uma dada posição enunciativa, veremos que há uma distância que só pode ter sido percorrida por um sujeito atuante, capaz de revelar sua filiação discursiva por meio dos enunciados que formula, embora seguindo princípios oriundos de instâncias anteriores e independentes dele. A esse respeito, destacamos a seguinte passagem:

A "raridade" mais extrema que se pode apreender aqui é justamente a dos próprios sistemas de competência, tão pobres em relação à imensidão e à diversidade da superfície textual que autorizam (ibid., p.49; o grifo é nosso).

Enfim, sem considerarmos o trabalho dos sujeitos não há como compreendermos a "imensidão e a diversidade da superfície textual" que os sistemas de competência discursiva autorizam. Como a competência diz respeito a um domínio tácito de regras, é preciso pensar no sujeito que as domina efetivamente para produzir e interpretar enunciados que relevam de sua formação discursiva e, correlativamente, para identificar como incompatíveis os enunciados das formações discursivas antagonistas. Nesse sentido, o recurso à competência discursiva nos oferece mais uma vantagem, isto é, a de nos permitir pensar nos discursos não só do ponto de vista da produção como também da recepção. Quanto a essa última, ressaltamos mais uma vez a atividade do sujeito que interpreta o outro por intermédio do filtro do discurso a partir do qual enuncia, criando um simulacro no qual o outro é traduzido nas categorias de seu próprio discurso, o que, seguramente, não é um processo que se reduz a operações de reprodução e/ou veiculação de enunciados pré-existentes. Nesse sentido, o sujeito continua subordinado a um espaço limitado por fatores de diversas naturezas, mas é condição sine qua non de qualquer enunciação efetivamente realizada.

Para exemplificar o tipo de atividade do sujeito a que estamos nos referindo, remetemos às manobras que os sujeitos-falantes realizam na elaboração de pequenos textos humorísticos analisados por Possenti (1995). No próximo item, iremos apresentar outro exemplo dessa atividade do sujeito, a partir de algumas reflexões sobre o discurso de auto- ajuda.