3.1 A antecipação de ce qui vient
“Chamaria isso de uma cena, a cena do subjétil, se nela já não encontrasse uma força para subtilizar o que sempre põe em cena: a visibilidade, o elemento da representação, a presença de um sujeito, até mesmo de um objeto” (p.23). Assim Derrida inicia seu ensaio Enlouquecer o subjétil (1998b), Forcener le subjectile (1986a), sobre Antonin Artaud. Como demeure, o que lemos é a cena de um recuo de cena, uma “subtilização” com que começamos a compreender um “subjétil”, algo que retrai a cena no momento em que é posto em cena, que recusa a pátria no momento em que se insere nela, que recusa suportar uma ordem jurídica no momento em que se coloca nela como seu suporte, estrangeiro inadaptável. Essa abertura do livro de Derrida traz ao seu ensaio a estratégia enunciativa de antecipação da carta de Artaud a André Rolland de Rénéville, que lemos no capítulo anterior.
O discurso de Derrida chama à cena uma subtilização de cena, como aquela que permite a Artaud antecipar o Teatro. Faz isso com um futuro do pretérito (“Chamaria isso de uma cena”), pois não a chama como suporte neutro presente, mas pela violência de seu deslocamento. Nessa primeira frase de Derrida já encontramos as estratégias de desarquivamento, denúncia e destinação da Escrita do Suporte: desarquivamento de uma neutralidade coercitiva que embasava a cena, denúncia da segregação operada pelos elementos de presença do “que sempre põe em cena” e inscrição de um recuo de cena, um demeure, que subtiliza ao invés de dar suporte. Trata-se do início da Escrita do Suporte de Derrida, compartilhada com Artaud, acionando questões importantes para ambos, em especial quanto à língua, à pátria e ao direito à hospitalidade. Artaud e Derrida compartilham, naquilo que recua a continuação de um sujeito a um objeto, um teatro discursivo que se instaura com a exposição não do excluído, mas do mecanismo de exclusão, capaz de revelar as estratégias coercitivas de invisibilidade operadas
35 Primeiramente, uma ressalva: o contexto editorial do livro Enlouquecer o subjétil, que deveria ser
apresentado logo de início, o será apenas com Lena Bergstein, pois é com ela que pensaremos o livro em português e o ensaio em francês, Forcener le subjectile, com certas particularidades em relação à dinâmica interna e externa que projetam.
socialmente e pela linguagem.
Retomemos, em síntese, a principal estratégia que encontramos na carta de Artaud, com a qual Derrida inicia também seu ensaio. A precipitação, tanto da carta destinada a alguém que está chegando, quanto do Teatro que ainda é projeto, e que se torna, na carta, já teatro, permite que Artaud recue a traição da crítica (que se apropria de seu teatro para qualificar um outro), de modo que esta se torne um produto da própria estratégia de antecipação, um excesso previsto, o que interrompe a traição, transformando-a num tipo estranho de fidelidade, de elogio que volta ao Teatro de Artaud e o permite denunciar a impostura da crítica, que estaria prevista nele. Essa forma singular de trazer para dentro de si uma cadeia remissiva que está inevitavelmente fora de seu poder, e que se forma historicamente por incessantes sequências de traições e fidelidades (assim como a História se forma por tomadas e manutenções do poder), direciona o modo como Artaud aparece no texto de Derrida, e se repete pelo recuo da cena.
Ao mesmo tempo em que, pela leitura de Derrida, Artaud deixa a carta para habitar um campo semântico e formal “de Derrida”, de tudo aquilo que Derrida interroga, em sua obra, também lemos, em virtude dessa estratégia de antecipação de Artaud, o modo como a escrita de Derrida se torna um efeito, que extrapola a carta, da própria carta, um excesso previsto e incorporado nela, desde o início, o que se enfatiza com o esforço de Derrida, tanto em ES, quanto em seus outros ensaios sobre Artaud, como La
parole soufflée (1967b) e Le théâtre de la cruauté et la clôture de la représentation
(1976c), publicados em L’Écriture et la différence, de recusar o discurso neutro com que se apresenta a crítica. Como afirma John C. Stout (1996, p.15), “Derrida refuses to frame Artaud’s texts in an ostensibly neutral critical discourse”. Essa neutralidade é também acusada pela função dos mediadores, como a função dos críticos: “Derrida follows Artaud in denouncing the covert structure of mediations which supports occidental theatre from the Greeks onward” (p.15). Nessa tradição, “life performance loses its immediacy because of its unavoidable dependence on a written text and on a “souffleur” (prompter, thief) who steals the actor’s words even as he provides the actor with them” (p.15). Para Derrida, a importância da denúncia desse discurso neutro, com seus traidores, seus ladrões, permite outro tipo de compartilhamento da escrita de Artaud,
justamente pela denúncia que recua a repetição da traição. Essa dinâmica interna e externa define uma “política” formal da Escrita do Suporte, naquilo que tange a própria questão do político, do limite transgredido entre o “próprio” e o “compartilhado”, a começar pela língua: materna, mas também dos outros; própria, mas genealógica; de uma pátria, mas estrangeira. Essa escrita, cujo suporte delimitaria uma fronteira, “atrasa” o limite entre o que seria interno e o que seria externo, de modo que, no momento em que seu suportar ganha a cena, todo o resto retrocede para ecoá-lo, expondo os aleives das antigas demarcações.
A cena inicial do ensaio de Derrida pode ser lida, portanto, como a cena recuada prevista por Artaud, antecipada “milagrosamente”, chamando o Teatro do Suporte, a Escrita do Suporte, por seu deslocamento: o condicional “chamaria” está chamando no presente. Tanto a ausência pelo arrancamento, quanto o projeto de um Teatro ganham a cena com a frase “Chamaria isso de uma cena”; pois nesse projeto, nessa ausência, nesse condicional, se realiza o teatro presente como um excluído que devolve à cena a violência de sua segregação, ganhando “força para subtilizar o que sempre põe em cena” e revelando seus suportes neutros como imposturas. A ausência nomeada do subjétil denuncia a violência segregadora da cena visível da representação, de um sujeito e de um objeto. O subtilizar é que definirá, por aquilo que tem de indefinível, esse subjétil: subtilizar significa refinar e tornar sutil, desmaterializar aquilo que pesa sobre o suporte, retirar as camadas depositadas sobre ele, que levam à sua neutralização: “o elemento da representação, a presença de um sujeito, até mesmo de um objeto”, de modo que não possa mais haver tal suporte estável, sólido, um palco que daria a neutralidade necessária à cena, que marcaria seu limite e a distinguiria da vida. Assim, portanto, um outro Teatro, recuado do teatro representativo de sujeitos e objetos, se antecipa em cena, a partir do “chamaria” de Derrida. Ao mesmo tempo em que essa abertura na sequência representativa é de Derrida, o é também já de Artaud, de seu Teatro, no momento em que Derrida escreve o nome de Artaud e cita sua carta.
Esse teatro recuado, lemos também em sua crítica social, como no livro
Histoire vécue d’Artaud Mômo (2009), em que, como apresenta Dóra Schneller (2006),
Artaud escreve, em estilo oral, um “autobiographical work in which Artaud recalls and tells the most important eventes of his life, emphasing the story of his hospitalization”.
Nesse trabalho autobiográfico, Artaud expõe, e Derrida denuncia com Artaud e em Artaud, sua “interminable bataille avec l’occulte” (ARTAUD, 2009, p.26), recuando as remissões. Nessa batalha, Artaud expõe a violência que revela um processo coercitivo como base social, histórica e institucional, algo que o autor apresenta como um tipo de “feitiço” (envoûtement) massivo da humanidade, e que traz à sua autobiografia um questionamento também político:
le corps social d’un peuple dont on peut dire sans forcer les termes qu’il vampirise les instituitions (...) la vie sociale moderne qui vit sur un certain nombre d’idée et d’instituitions déterminées: religion, législation, mainères, moeurs, morale, famille, patrie, nations, Science, philosophie, médecine, prisons, morgue, police, armée, internement, mode, inventions, psychologie, journaux, rádios, t.s.f., maladies, cimitières, conservation des maladies36 (p.38).
Todas essas repartições e instituições seriam consequências de um mesmo feitiço, uma “magie opératoire” que oculta a realidade com uma “façade” que etiqueta, cataloga e determina as massas de homens e mulheres, algo que qualifica o próprio pensamento conceitual: “Tout ce que nous vivons n’est qu’une façade, la réalité est dans cette magie opératoire, sensorielle, à laquelle participent à jours et périodes nettement étiquetés, catalogues et déterminés des masses innombrables d’hommes, de femmes” (p.39). Essa magia operatória, assim como o feitiço, não são elementos míticos ou místicos inscritos por Artaud, mas termos que provocam o estranhamento necessário para que percebamos os processos de ocultamento e neutralização da humanidade como coerções regrando nossa sociedade e nosso pensamento. O suporte de aparência neutra que “faz a mágica operação” de esconder essa violência segregadora, esse “vampirismo” servindo como suporte para as idéias e instituições em que a vida social moderna se organiza, é descrito por Artaud como uma impostura, uma fachada construída para ocultar a técnica de alienação, que é a verdadeira responsável pelas manobras das instituições humanas: “un envoûtement est une manoeuvre non pas psychique mais physique qui alerte et met sur pied parfois des populations entières, avec des enfilades
36 O corpo social de um povo de que se pode dizer sem forçar os termos que ele vampiriza as instituições
(...) a vida social moderna que vive sobre um certo número de ideias e de instituições determinadas : religião, legislação, boas maneiras, tradições, moral, família, pátria, nações, ciência, filosofia, medicina, prisões, necrotério, polícia, exército, internamento, moda, invenções, psicologia, jornais, rádios, t.s.f., doenças, cemitérios, conservação das doenças.
numériques de corps d’hommes et de femmes mélangés”37 (p.38). Trata-se de um tipo de biopolítica de manipulação corporal, embasada pelo próprio princípio excludente do pensamento conceitual, que Artaud expõe com seu internamento psiquiátrico e com a tortura pelo eletrochoque, “tratamentos” utilizados para que a humanidade possa, sob a máscara da “cura”, esconder a “doença” que ela mesma construiu, silenciar a diferença para esconder de si mesma a coerção que lhe deu origem, como ao conceito de pátria ou de língua: exclusão da diferença, do estrangeiro incompreensível, para permitir a manipulação e a neutralização massivas.
Na obra de Artaud, essa batalha contra o oculto é também uma batalha contra a alienação e uma exigência de rigor, que se coloca estrategicamente pela antecipação trazendo à cena uma referência ao “anterior” metafísico segregado no nascimento da humanidade, como leremos com a cruauté. Na obra de Derrida, por sua vez, essa antecipação que retrai a cena e inicia a Escrita do Suporte se coloca também em relação a um “anterior” segregado pelos discursos filosófico e científico. Em Rhétorique et
Philosophie (1998), Marcos Siscar pensa a obra de Derrida, em especial referência a D’un Ton apocalyptique adopté naguère en philosophie (1983), a partir da questão do
“tom” como traço de uma voz inaugural, um a priori que se quer apagado da ordem do discurso filosófico e científico, tornado inaudível em sua diferença pela filosofia tradicional e pela ciência. Esse “tom” não se refere exatamente a uma subjetividade produtora do discurso, mas ao lugar de uma anterioridade, que marca, por sua omissão, a origem da objetividade do discurso. Esse lugar anterior “constitue comme une structure d’anticipation” (p.14) que marca a aporia de todo discurso que pretende controlar seu presente pelo cálculo de seus antecedentes, seja levando em conta sua totalidade, seja rejeitando os elementos desse lugar anterior (p.14). Essa antecipação, compreendida tanto como objeto de discussão quanto como estrutura aporética na obra de Derrida, mobiliza o problema da neutralidade de um discurso que aliena na medida em que se afirma anulando a diferença mediadora, a barreira de um suporte ou, para Siscar, o a priori de um tom. Esse pensamento repercute, na obra de Derrida, em diversos âmbitos. Um deles, afirma Siscar, é a fenomenologia de Husserl, que “travaille dans le champ d’une
37 “um feitiço é uma manobra não psíquica mas física que alerta e levanta às vezes populações inteiras, com
juridiction dont la vérité est toujours déjà donnée, ses concepts sont toujours “opératoires”38 (p.16), justamente em virtude dessa neutralidade que dissimula uma origem fundadora, uma verdade universal, “aliénation objectiviste de la science en tant qu’elle dissimule les origines fondatrices”39, como Siscar lê com Derrida em sua introdução a L’Oirigine de la Géométrie, de Husserl.
Lembremo-nos da “magia operatória” com que Artaud representa o modo como o pensamento conceitual aliena massivamente e determina as organizações sociais. Para Derrida, esse apagamento sistemático da singularidade em nome de um princípio de idealidade e elevação do espírito, em nome de um fundamento dissimulando uma verdade atemporal e universal, embasa o logocentrismo ocidental, sua “logique d’exclusion, de valorisation de la transcendance (voire de la transcendance du corps), que dissimule la différence infinie supposée par la singularité de l’exemple ou du concept”40 (SISCAR, 1998, p.19). Essa lógica de exclusão, denunciada desde a primeira cena de Derrida em
ES, os autores Adorno e Horkheimer, em Dialética do Esclarecimento (1985), pensarão
como um tipo de excesso perverso do logos que recai na mimesis que pretendia segregar, de modo que as variantes excluídas retornam pela necessidade de excluir, transformando o logos em controle e impedindo o esclarecimento. Esse logos controlador, etiquetador, segregador, que lemos com a crítica de Derrida e com a imagem dos traidores de Artaud, seria o mesmo logos que valoriza um “transcendente” como “diferença universal” pela exclusão da “diferença particular”. Para Derrida, como o lê Siscar, portanto, no valor dado ao transcendental pela filosofia tradicional há uma fachada, como o há para Artaud, uma dissimulação, artifício suposto pela singularidade do exemplo ou do conceito. A singularidade neutralizada em prol de uma “singularidade universal” transforma o conceito e o exemplo em manifestações de uma verdade incontestável, que se apresenta como um fundamento, suporte neutro, mas que é, na verdade, um artifício construído pelo discurso. É também esse “transcendente” que, como veremos com khôra e com a
cruauté, é constantemente denunciado por Artaud, exposto em sua impostura.
A neutralidade do discurso é lida por Siscar como um efeito desse
38 “trabalha no campo de uma jurisdição cuja verdade é sempre já fornecida, seus conceitos são sempre
“operatórios”
39 “alienação objetivista da ciência enquanto ela dissimula as origens fundadoras”
40 “lógica da exclusão, de valorização da transcendência (até da transcendência do corpo), que dissimula a
apagamento tonal: “Effacer toute trace de la voix inaugurale du ton est la tâche fondamentale de l’entreprise philosophique traditionnelle et sur sa réussite repose toute possibilité de neutralité, d’un transfert sans l’épaisseur du support, d’une communication sans médiation”41 (p.15-16). O apagamento da singularidade do suporte (como material ou mediador) se faz necessária para a construção da imagem de uma verdade universal, de uma comunicação absoluta. Por isso, a questão do tom, que envolve a questão do suporte como tom, é também uma questão de endereçamento, de “l’adresse”, de relação com o outro, e, portanto, de toda a cadeia remissiva da linguagem, em especial no que diz respeito, para Derrida, à língua e à tradução, algo que retomaremos especialmente com os sentidos do maladresse de Artaud. O tom aparece, na argumentação do crítico, como elemento que torna possível a escritura e, ao mesmo tempo, se subtrai à sua maquinação, sempre “atonal”, pois se faz pelo apagamento do suporte, pelo silenciamento do tom, que, mesmo não se referindo a uma subjetividade, a põe em questão na medida em que o atonal da escritura revela um eu discursivo que se apresenta pela ausência do eu vivente, à margem, diferença entre presença e ausência, mesma diferença que inaugura a cena recuada (ausência presente) de Artaud e Derrida.
Assim como veremos com khôra e com a cruauté de Artaud, essa estratégia de antecipação, que nos faz reler a antecipação da carta de Artaud, “fait résonner une certaine expérience de la genèse. Cette pensée doit bien sûr sa possibilite à un héritage “philosophique” tout autant qu’à un héritage “littéraire”, et nonobstant ele paraît ouvir une façon tout à fait originelle d’appréhender le phénomène de la textualité”42 (Siscar, p.23). A problemática da herança, tanto no que diz respeito à língua quanto à pátria, à cultura e ao parentesco, no campo das ciências humanas e do discurso científico, herança daquilo que “vem antes” e determina uma genealogia, é colocada em cena, na obra de Artaud, por outro tipo de antecipação, com que lemos sua carta. Essa antecipação desestabiliza o “antes” neutralizado, expondo a violência segregadora que serve de suporte para o discurso filosófico tradicional. Ao mesmo tempo, também antecipa um
41 “Apagar todo traço da voz inaugural do tom é a tarefa fundamental da empresa filosófica tradicional e
sobre seu sucesso repousa toda possibilidade de neutralidade, de uma transferência sem a espessura do suporte, de uma comunicação sem mediação”
42 “faz ressoar uma certa experiência da gênese. Esse pensamento deve, é claro, sua possibilidade a uma
herança ‘filosófica’ tanto quanto a uma herança ‘literária’, e não obstante ela parece abrir uma forma totalmente original de apreender o fenômeno da textualidade”
“depois” que marca o lugar da conquista de um inapropriável pela cadeia remissiva da linguagem, uma diferença a posteriori inscrita no discurso, expondo a coerção responsável por neutralizar seu a priori e projetando no presente um espaço-tempo de endereçamento, de l’adresse em demeure, compartilhamento por resistência. A antecipação de Derrida nos faz entrever a cena de apagamento desse a priori, de modo a trazer de volta à cena as variantes recusadas, expondo o anterior deslocamento, responsável pelo discurso neutro, como uma impostura, um artifício, um terreno violentamente nivelado. A questão do suporte, portanto, a partir de uma antecipação estratégica que põe em cena os problemas desse “antes” segregado e neutralizado, é fundamental não só para o Teatro de Artaud, mas também para a filosofia de Derrida.
Em Penser ce qui vient (2007c), o filósofo pensa, como apresentamos inicialmente, “o que vem”, o que chega, aquilo que é antecipado, como algo que, por definição, só pode vir do estrangeiro, e que afeta todo o conceito europeu de política, de tudo o que se liga à polis, a um certo estado da cidade, do Estado, da etnia e da nação, do direito, da fronteira em geral, a tal ponto que a questão não possa mais ser apenas política, mas aquela “do político”, diferença indispensável para poder “parler politique” (p.23-24). A questão do estrangeiro como “o que vem”, que vem do estrangeiro e que vem como uma projeção que não pode ser premeditada, nos é trazida concomitantemente com uma discussão acerca do “tempo que vem enquanto aquilo que nos falta” (p.24), tempo que interrompe a cadeia temporal, mesma estratégia de antecipação de uma ausência inserida no centro da cena. Esse tempo se apresenta por três formas: a primeira, como antecipação, “pré-visão” entre “saber” e “ver antes”. A segunda, uma improvisação ou precipitação, uma com ou sem a outra. A terceira, uma resposta à urgência e à iminência (p.25). Essas modalidades do tempo qualificam as duas leis da tragédia, o inelutável da necessidade, daquilo que nos chega, e a decisão da responsabilidade, daquilo que chega por nós. Como o vimos na antecipação da carta de Artaud, a urgência do Teatro antecipado convive com toda a problemática da responsabilidade, inserindo também assim sua dramaturgia. Para Derrida, essa responsabilidade deve ser repensada justamente a partir de “ce qui vient”. Pensar aquele que vem, outro, estrangeiro, desconhecido para o sujeito de direito, cidadão nacional, é colocar em questão o embate entre uma necessidade histórica e uma decisão responsável, em que resta sempre uma
“indécidabilité” (p.26). O lugar do Teatro antecipado de Artaud se coloca justamente no lugar desse estrangeiro cuja projeção de chegada mobiliza a neutralidade da organização nacional e coloca em tensão a responsabilidade de uma decisão e a urgência de uma necessidade histórica, que se projeta para toda a cadeia remissiva do discurso. O lugar dessa antecipação como “demora”, espaço estrangeiro que suspende a ordem discursiva no momento em que denuncia nela um suporte indecidível, se coloca, para Derrida,