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1. O ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL

1.3. Um estado de coisas ainda inconstitucional?

Anos já transcorreram desde a declaração do Estado de Coisas Inconstitucional, e aparentemente, as circunstâncias ensejadoras de tal pronúncia não se alteraram, pelo menos não para melhor. Noticiam os veículos de comunicação que os presídios ainda padecem da precariedade afirmada por ocasião da decisão. Trata-se de problema cujas consequências transcendem os muros das penitenciárias, a incolumidade da clausura não se esgota aí, ela exorta toda sua desumanidade para além cárcere.

A título de exemplo, nos primeiros meses do ano de 2019, foi necessária a intervenção das Forças Nacionais de Segurança Pública, no estado do Ceará, em virtude de uma série de ataques, em todo o território dessa unidade federativa. Tais ações decorreram de uma mudança da Secretaria de Administração Penitenciária do Ceará.

A realidade do sistema penitenciário brasileiro, como já afirmado aqui, bem como reconhecido na própria ADPF 347, é um problema complexo, reunindo em si e em seus contornos, fatores que vão desde as limitações orçamentárias, leniência política, criminologia, má execução das políticas públicas, dentre outros.

No Brasil há um debate político sobre a participação da iniciativa privada na gestão de presídios, consubstanciado na forma de um projeto de lei, cujo objeto trata da contratação de parceria público-privada, com o objetivo de construção e administração de prisões.

A questão é polêmica e complexa tratando de ponto sensível sob o aspecto social, no que concerne à possibilidade e harmonia com o ordenamento jurídico pátrio, bem como sobre sua eventual eficácia e resultados na solução da crise de excesso da população carcerária brasileira, aos problemas sanitários do cárcere e a questão das organizações criminosas que atuam ostensivamente nos presídios.

Noutro giro, em oposição à privatização, tem-se o argumento de que tal iniciativa agrave ainda mais a questão de superpopulação carcerária, sem efetivas melhorias nas condições ou redução de custos, ou ainda, que essa circunstância possa causar uma mercantilização da pena. Através da parceria público-privada, o Estado instrumentalizaria a construção de novas unidades prisionais por intermédio do capital privado.

No Brasil, há a possibilidade de parceria entre o governo e o setor privado, todavia, nossa ordem jurídica não permite a delegação do chamado poder de polícia a particulares, sendo

assente esse posicionamento, em sede doutrinária e jurisprudencial, sendo inclusive a teleologia do ordenamento, nesse particular.

O poder de polícia, em seu sentido estrito, é a relação jurídica, decorrente do poder de império do Estado, que tem como escopo intervir de maneiras abstratas e gerais, ou concreta e especificamente, do Poder Executivo, com o fito de limitar a atividade de um particular para que se alcance fins sociais pretendidos (MELLO, 2014, p. 864).

A jurisprudência tanto do STF - ADI nº 2.310-MC, quanto do STJ (REsp. 817.534/MG) é uníssona em não admitir a delegação do poder de polícia, no que se refere a aplicação de sanção. Assim sendo, dentre os ciclos de polícia, a atuação privada no sistema penitenciário brasileiro não poderia ocorrer no âmbito da disciplina dos custodiados, por envolver a aplicação de sanções, eventualmente.

Analisando comparativamente alguns países e seus respectivos gastos, é possível concluir sobre a relação entre investimento e eficiência.

Os EUA gastam em média meio bilhão de dólares anuais com seu sistema prisional. Ocorre que a taxa de reincidência nesse país é bastante alta, em torno de 77%, um nítido sintoma de ineficiência da pena (BAEUR, 2019).

No Reino Unido, o sistema penitenciário conta com aproximadamente 73 mil custodiados, para um universo de 80 milhões de habitantes, possuindo de 45 mil servidores para cerca de 66 mil custodiados.

O gasto por ano de um custodiado é de 25 mil libras, o custo médio de uma vaga nas penitenciárias do Reino Unido é de 100 mil libras, ou seja, 493 mil reais.

Para que se tenha uma ideia comparativa, o orçamento da penitenciária de Presidente Bernardes, com 160 vagas, foi de R$ 7.700.000,00 (sete milhões e setecentos mil reais): 48 mil reais a vaga. O salário médio mensal de um agente penitenciário no Reino Unido: 1.300 libras, ou R$ 6.409,00. A responsabilidade penal no Reino Unido inicia aos 10 anos de idade.

Em todos os lugares do mundo o sistema penitenciário é mais ou menos igual: um pouco mais eficientes em alguns e menos em outros. As taxas de reincidência são altíssimas: quase sempre em torno de 60% a 80%.

Conforme se observa, o custo penitenciário é bastante elevado, seja no Brasil, e mais caro ainda em países economicamente mais estáveis. Trata-se de um sistema onde o gasto

em estrutura apenas não equivale, necessariamente, em um resultado desejável. Observa-se que a questão da reincidência, intimamente relacionada com a função preventiva específica da pena. Tomando como referência um sistema carcerário, fundamentado em uma lógica funcionalista da pena, o principal objetivo a ser perseguido é o de prevenção, seja geral ou específica. A análise dessas questões passa inexoravelmente pelo conhecimento dos números referentes à reincidência, haja vista que essa é a consubstanciação do êxito na aplicação da pena, funcionando como instrumento de medição da eficiência do próprio sistema político-criminal.

Assim, mediante o enfrentamento dos dados acima referidos, conclui-se que apesar de gastarem muitos recursos orçamentários com o investimento em estrutura, agentes e disciplina, tanto os Estados Unidos como o Reino Unido fracassam quando se trata da reincidência. É verdade que a função retributiva nesses países aparentemente é assaz, todavia, como política criminal o sistema padece por sua insuficiência.

É indiscutível que um rigoroso sistema de repressão ao crime mostra-se como elemento necessário a uma bem-sucedida política de segurança pública, disso não se questiona, entretanto, e em nada obstante a isso, o aumento da população carcerária é indesejável, não somente pelo silogismo decorrente do cometimento de crimes e suas consequências nefastas, mas também como uma política em si, um objetivo de governo. Até mesmo por questões orçamentárias, reduzir a população carcerária é uma meta desejável, não somente em países que possuem contas públicas limitadas, mas também naqueles possuidores de capacidade para tal no orçamento público.

Assim, transportar a realidade americana e bretã para o Brasil, aparentemente se mostra uma alternativa inviável, primeiramente por questões fiscais, haja vista não ser possível comportar em nossas contas públicas lastro investimentos compatíveis com os referidos países. Em segunda razão, evidencia-se o insucesso com relação à função de prevenir novos crimes, o que não satisfaz as exigências funcionais de nosso sistema penal.

O custo brasileiro já é alto. Como indício desse custo, no presente dia de elaboração desse trabalho, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal (CCJ) aprovou Projeto de Lei – PL nº 580, com o objetivo de obrigar o custodiado a suportar o custo do seu cárcere. Trata-se de um recurso apelativo por razões fiscais, bem como educativa, no sentido de desestimular a prática delitiva por meio de uma sanção financeira, além de aliviar o já pesado custo médio brasileiro, que gira em torno de R$ 2.440,00 (dois mil quatrocentos e quarenta reais) mensais.

Portanto, imprescindível que o Brasil procure modelos de sucesso para seu sistema carcerário em crise, sempre se pautando em suas peculiaridades enquanto Estado e sociedade. Não é possível, entre nós, gastar valores equivalentes aos realizados pelos supracitados exemplos, a realidade brasileira possui prioridades que não existem em ambos os panoramas.

2. SISTEMA PENITENCIÁRIO BRASILEIRO, UMA RADIOGRAFIA DA CRISE