3.4 Construindo a metodologia para uma etnografia das “Mariconas”
3.4.3. Um estrangeiro conhecendo o terreno de Lisboa
Embora o objetivo não seja realizar nesta seção uma descrição permenorizada das caracteristicas geográficas ou históricas de Portugal e de Lisboa, é importante sinalizar alguns aspectos históricos, culturais e políticos, o que permite fazer uma análise de inserção do segmento LGBT e dos movimentos no país.
Mapa da cidade de Lisboa com as novas freguesias - 201270
No que se refere à recente visibilidade do movimento gay em Portugal, mais precisamente em Lisboa, Jayme (2001), ao citar Gameiro (1998), afirma que não houve em Portugal, pelo menos até meados dos anos 90, algo que poderia ser chamado de gay liberation: uma visibilidade tanto política como social dos homossexuais. Se, com a revolução dos Cravos em 25 de abril de 1974, após quase 50 anos de ditadura, a homossexualidade perde, ainda que parcialmente, seu caráter eminentemente marginal, isto não quer dizer que esta prática tenha sido tolerada.
Vale de Almeida (2010), em seu livro “A Chave do Armário”, fala que foi preciso esperar pela segunda metade da década de 90 para assistir ao surgimento de um
70 Lisboa contava antes com o número de 53 freguesias. Em decorrência de uma nova organização
política, passou a contar com 24 freguesias. Foram feitas algumas fusões de freguesias, como a criação de novas. A área do Concelho de Lisboa é também diferente, dado que anexou uma área significativa do Concelho de Loures como reflexo da extensão para oriente da Cidade de Lisboa (com particular destaque para a nova freguesia do Parque das Nações).
verdadeiro movimento LBGT português, que o mesmo surge diante de duas realidades e que correspondia à realidade de outros países, ou seja, a crise da sida ou hiv/aids e o caráter global da cultura LGBT. Assim afirma o autor:
A crise da sida havia levado a uma reformulação profunda do movimento gay tal como criado nos anos 60 e 70, então intimamente associado a formas de problematização e luta análogas às dos movimentos negros e feminista. A crise da sida (mais ainda do que o emprisionamento com a imposiçao do triângulo rosa, nos campos de concentração nazi, que aconteceu numa época anterior à política identitária) criou uma consciência trágica que empurrou os activistas no sentido quer da reivindicação de estilos de vida, quer da exigência de direitos civis e de reconhecimento que conduzissem a uma integração da vivência homossexaul no mainstream da diversidade das sociedades contemporâneas. Quanto ao carácter globalizado do movimento, tal prende-se com o facto de as formas de sociabilidade LGBT serem facilmente mediatizáveis e trasnformáveis em produtos culturais e de consumo, e com o facto de uma minoria demográfica e social de sim qualquer Estado-Nação procurar identificações transnacionais em torno da sua condição – que não é étnica, nem linguística nem localizada. Tal não descarta, todavia, a necessidade de adaptar as formas de luta aos contextos culturais locais, algo em que alguns movimento LGBT nacionais têm falado (VALE DE ALMEIDA, 2010, p. 17).
Diante deste cenário espinhoso, em Portugal, nos anos 90, ainda segundo o autor, dois grupos foram construindo caminhos de forma estratégica passando a ocupar lacunas e dando uma certa visibilidade às lutas em prol de um movimento LGBT de forma mais consolidada, detacando o GTH (Grupo de Trabalho Homossexual do PRS), que já não existe, e a Associação ILGA-Portugal, cuja constituição teve peso na experiência de alguns ativistas na Associação Abraço71.
O GHT pautou sua trajetória inspirada na gay left dos anos 60 e 70 e numa critica radical do patriarcado e da heteronormatividade e aproxima-se das perspectivas
queer72 de desconstrução da orientação sexual. Já a Associação ILGA-Portugal tem uma maior sintonia com a tendência política para o reconhecimento da conjugalidade e parentalidade, mas sua trajetória esteve pautada na experiência pós-traumática da sida e no desejo de integração social através da obtenção de igualdade de direitos.
Em Portugal, certamente o grande divisor de águas na seara da (in)visibilidade dos movimentos LGBT ocorreu na década de 90 e durante os primeiros anos da década
71
ABRAÇO é uma Instituição Particular de Solidariedade Social e Organização Não-Governamental de Desenvolvimento, sem fins lucrativos, que presta serviços na área da problemática do VIH/SIDA. Foi constituída por escritura pública em Junho de 1992, formalizando e dando continuidade ao trabalho de um pequeno número de voluntários que, desde Dezembro de 1991, prestava apoio psicológico, social e material a soropositivos internados na Unidade de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital Egas Moniz, e tentava melhorar as condições hospitalares.
72 As perspectivas queer, inspiradas em teorias sociais pós-estruturalistas, propugnam uma crítica radical
de 2000, como afirma Vale de Almeida (2010). Deu-se em parte à capacidade de articulação e mobilização entre associações no sentido da visibilização através da Marcha Gay (organizada por vários coletivos LGBT) e do Arraial Pride (organizado pela Associação ILGA-Portugal), em parte à articulação com outros movimentos sociais, por exemplo, no âmbito do Fórum Social, ou em iniciativas de articulação entre Estado, UE e ONG, como o Ano Europeu da Igualdade de Oportunidade para todos.
Neste contexto, também surgiu a Associação Abraço, formada por um grupo de pessoas ativistas com boas relações internacionais com os setores mais cosmopolitas e progessistas do PS (Partido Socialista), já citada anteriormente; o Clube Safo73, principal organização lésbica no ano de 1996; a Opus Gay74, fundada em 1997; a Associação Janela indiscreta, entre outros grupos e associações que pautaram e que vem pautando a agenda LGBT do país.
No contexto atual, já é possível perceber uma certa “abertura do armário” a partir da lei de identidade de gênero75, da garantia de igualdade no acesso ao casamento civil para homossexuais e heterossexuais, bem como o direito a adoção e parentalidade para pessoas e casais gays e lésbicos. No entanto, reconhece-se que ainda existem muitas lacunas e desafios a serem superados, tais como a estrutura familiar e sexual da sociedade portuguesa; o risco de vincularem as questões LBGT a partidos políticos; pouca adesão militante e ativista ao movimento; e fácil manipulação do espaço midiático, por vezes contraditória por inúmeras razões.
73 Associação tem por objetivo o apoio e a defesa dos direitos das mulheres lésbicas, constituindo-se
como um espaço de intervenção social, cultural e política, promovendo uma imagem positiva da identidade lésbica, nomeadamente no domínio da saúde e da educação.
74 A Associação Opus Gay é uma organização cívica de caráter social criada para promover a
solidariedade entre todos os membros da comunidade LGBT (gay, lésbica, bissexual e transgender) portuguesa, ultrapassando fronteiras políticas, geográficas, sociais ou etárias. A Opus Gay “tem por objetivos o apoio e defesa dos direitos humanos, no âmbito individual e coletivo, das minorias sexuais e étnicas e de intervenção social, laboral, política, ecológica e no domínio da Saúde, sobre os problemas
que afetam em geral a Sociedade e especificamente os que dizem respeito às minorias referidas.” (Art. 2º,
Estatutos). A Associação nasceu no dia 28 de Junho de 1997 em Lisboa, dia do Orgulho Gay. É apartidária e sem convição religiosa.
75 Lei n.º 7/2011 de 15 de Março de 2011. A lei cria o procedimento de mudança de sexo e de nome
próprio no registo civil. Esta lei que permite que as pessoas transexuais passem a ter direito à sua identidade, o que torna Portugal um exemplo europeu de compromisso com os Direitos Humanos.