3. IMAGEM ANIMADA
3.4. Um festival perene e plural
Atualmente, mais de vinte anos depois, o Anima Mundi – Festival Internacional de Cinema de Animação do Brasil se consagrou como o maior evento regular de animação das Américas e o segundo maior festival em cinema de animação do mundo, abaixo apenas do Festival de Cinema de Animação de Annecy, na França, com mostra anual de filmes no Rio de Janeiro e em São Paulo e mostras itinerantes que já passaram por Belo Horizonte, Brasília, Belém e Curitiba. Desde sua criação até o ano de 2014, já havia atingido um público de cerca de um milhão e trezentas mil pessoas (Gráfico 1). Além da exibição de filmes de curta e longa-metragem advindos de países de todo o mundo, o festival é um espaço para se pensar e praticar animação, com o Estúdio Aberto, no qual são realizadas oficinas abertas de técnicas de animação para o público infantil; com o Papo Animado, sessões especiais com convidados; do Anima Fórum, dedicado a debater, avaliar e sugerir ações que contribuam para o desenvolvimento da animação profissional no Brasil; do Anima Business, que se propõe a estabelecer uma ponte entre projetos de produtoras de animação e o mercado de animação. Além das atividades realizadas durante o festival, o Anima Mundi continua sua atuação ao longo do ano com o projeto Anima Escola, que consiste em cursos e oficinas oferecidos em escolas públicas e particulares a fim de incentivar a produção de filmes em sala de aula feitos pelos próprios alunos e professores.
No catálogo da primeira edição, os diretores falam do Anima Mundi como “um antigo sonho de animadores brasileiros” e expõem a proposta do festival como “romper barreiras, romper limites, exatamente como nos filmes de animação. Não há mais tempo, gravidade, lógica, faixas etárias ou pudor. Você vai ver filmes surrealistas, eróticos, cáusticos, engraçados, politizados” (Catálogo do Anima Mundi, 1993, p. 6). No texto atribuído ao Centro Cultural Banco do Brasil, a instituição afirma que deseja “contribuir para retirar a animação do limbo dourado em que ela se encontra no Brasil, perdida numa selva de linguagens, dissolvida na indiferenciação” (Catálogo do Anima Mundi, 1993, p. 5).
Em entrevista que realizamos com Aída Queiroz e Cesar Coelho, no âmbito desta pesquisa, os diretores corroboram a visão de que o festival tem o intuito tanto de formar público para o cinema de animação, desvinculando a imagem da animação apenas da esfera comercial, do desenho animado e do público infantil quanto fomentar o desenvolvimento do cinema de animação nacional,
53 como visto na fala de Aída: “a ideia do festival é justamente estimular e fomentar a produção brasileira de animação, tanto aqui e também representar a produção brasileira lá fora”5. Um exemplo da centralidade do festival na repercussão da produção brasileira internacionalmente pode ser visto na exibição de filmes produzidos pelo animador paulista Alê Abreu. Desde 1993, com o curta Sirius (1993), Alê Abreu tem seus filmes exibidos na mostra, sendo também responsável pela produção da vinheta do festival na edição de 2010. Em 2014, o festival exibiu seu premiado longa-metragem O menino e o mundo (2014), que conquistou os troféus de júri e de público na edição de 2014 na mostra Annecy – um dos maiores eventos de animação do mundo – e, em 2016, uma indicação ao Oscar. Outro exemplo é do animador Pedro Luá, que após assistir a uma palestra do estúdio Aardman no Anima Mundi, dedicou alguns anos a animar o filme Sushi man, feito em stop motion, que ao ser lançado seria o vencedor do Anima Mundi (Marão, 2013).
Para representar a produção brasileira, Cesar Coelho explica que se abrem mais janelas para exibição, que não apenas as mostras competitivas, como, por exemplo, em mostras panorâmicas, em mostras de filmes de estudantes e em mostras específicas para os autores brasileiros. Em depoimento sobre o papel do festival Anima Mundi, Marão descreve a participação dos filmes brasileiros em crescimento exponencial e afirma que “de repente, o volume era tão significativo que o Anima Mundi não precisava mais aceitar todos os curtas nacionais apenas por serem nacionais. As animações brasileiras passaram a ser submetidas ao processo de pré-seleção e concorriam em igualdade de condições com as estrangeiras. Os filmes brasileiros começavam a ganhar o festival; não precisavam mais da proteção paternal do antigo regulamento” (Marão, 2013, p. 29). Marão diz ainda que participar do festival com um filme era uma poderosa porta de entrada no mercado. Gordeff (2011) afirma que o Anima Mundi mudou a história da animação brasileira, uma vez que permitiu o acesso às produções internacionais e possibilitou o contato com seus realizadores, além de ser um evento formador de público.
Aída Queiroz, em “Anima Mundi 20 anos”, identifica dois fatores como características marcantes do festival: a permanência de um festival ao longo de duas décadas sem interrupção, especialmente no contexto brasileiro; e a continuidade da organização, com a presença dos quatro diretores que iniciaram o projeto até os dias de hoje. Cesar Coelho, em entrevista para esta pesquisa, aborda que o quarteto diretor têm preferências distintas na seleção dos filmes para exibição: “Desde
54 o início a gente entendeu isso como uma riqueza do festival. Então desde o início a gente criou vários mecanismos para que isso fosse respeitado e até valorizado”. Segundo os curadores, o Anima Mundi foi feito e ainda se justifica no sentido de promover a animação como uma arte plural, atendendo a pluralidade de diferentes formas, isto é, em termo de temas, de origem, de técnica, de narrativa, de orçamento, entre outros fatores. O festival busca ainda mostrar o avanço da linguagem, do desenvolvimento da linguagem, das narrativas e das técnicas de animação, dando lugar de destaque às novidades que aparecem no cenário do cinema de animação. Há também a preocupação em apresentar a produção de diretores que já tem um público cativo, mesmo que sua obra mais recente não seja tão relevante nos critérios de seleção.
Aída e Cesar ressaltam que, durante o processo de seleção, por entrar em contato com um universo grande de filmes – cerca de 1500 filmes por edição, eles passam a ter uma dimensão maior do que vem sendo produzido, falado e pensado, e do que aparece mais pertinente para diferentes países, além das temáticas que se mostram mais relevantes a cada ano.
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