• Nenhum resultado encontrado

Um lampejo da verdade O conflito do passado com o presente,

Do ideal com a matéria em nossa vida,

A imagem de um combate trazem-me à mente, Deste com o outro mundo uma séria lida.

Longfellow

Essas experiências, que tinham durado quatro anos com pe-quenas interrupções, tocavam ao seu termo. A morte havia desfechado grandes e terríveis golpes, e os seres que me eram mais próximos e mais caros tinham partido. O país das sombras os havia acolhido sucessivamente e eu ficara sozinha. Sentia-me angustiada e abatida; cuidados e inquietações de toda espécie pesavam sobre os meus ombros, de modo a não poder mais suportá-los. Finalmente, um forte resfriado que apanhei no fim do outono pareceu abalar a minha saúde, afetando-me os pul-mões. Meu médico, receoso também da presença de um cancro interno, aconselhou insistentemente que eu buscasse um clima mais brando, se quisesse conservar a vida.

Foi assim que, apática, indiferente e desesperada, viajei pelas praias do Mediterrâneo, sem tomar interesse por coisa alguma. Enfraquecida, exausta por meus cuidados e dissabores, a vida parecia-me muito pouca coisa e eu nada mais esperava. O médi-co havia dito que, salvo o fato de dar-se uma mudança radical, eu teria de viver pouco, talvez três ou, no máximo, seis meses, e foi assim que me fizeram partir para o sul, a fim de lá morrer. Eu desejava morrer, minha vida ia terminar; havia perdido tudo que a tornasse preciosa; era melhor partir sem demora. Eu não mais tinha afeições sinceras, possuía poucos amigos e o meu interesse pelo Espiritismo afastara o afeto da minha família. Portanto, parecia-me que, realmente, desta vez a morte não podia fazer melhor escolha do que ferindo um ente inútil e que não tinha interesse na vida. A mocidade, porém, fornece maravilhosos

recursos, e a saúde reanima depressa o amor à existência, fazen-do ver o futuro afazen-dornafazen-do de brilhantes cores.

Quase contra a minha vontade, gozava ao sentir minha força renovada fazer o sangue correr mais rapidamente em minhas veias, ao ver meus nervos vibrarem uníssonos com o despertar da Natureza, sob esse brilhante céu meridional. De meu leito de enferma, contemplava de longe a transformação do inverno em bela primavera e parecia-me que, pela primeira vez na minha vida, concebia a beleza do Universo. O encanto dos céus, do ar, da verdura e dos raios do Sol penetrava-me, com uma nova significação. Estendia os braços a tudo com o desejo de compre-ender tudo e unificar-me com a Natureza. Sentia-me que em minha alma entrava uma vida nova, que do túmulo surgia a esperança que eu supunha enterrada para sempre, e com uma alegria exaltada dizia a mim mesma: “É bom viver!” E a Deus agradecia esse dom abençoado. No entanto, nada se havia muda-do no meio em que eu vivia; apenas um raio de Sol atravessara as nuvens amontoadas ao redor de mim e, na pequena abertura que ele fizera, lia que a vida não era uma coisa sem valor pelo fato de haver nela cuidados e dissabores.

A partir desse momento, fiz rápidos progressos no restabele-cimento da minha saúde. Com a minha força física aumentada pouco a pouco, pude encarar seriamente a vida e, ao mesmo tempo, lançar os olhos ao passado, sem descrer do futuro. Foi então que compreendi o verdadeiro fim do Espiritismo. Por estranho que isso pareça, apesar de todas as minhas experiências, nunca tinha aceitado a teoria espírita como uma explicação e conclusão indiscutíveis. Nem um só membro do nosso pequeno grupo deixava de considerar-se espírita, só eu não me julgava tal. Talvez o fosse no íntimo, mas a diferença entre os ensinos que recebera na minha juventude e os da nova doutrina era muito grande para poderem conciliar-se.

As opiniões de alguns espíritas confessos intimidavam-me. Um dia, conversando com um mui conhecido adepto da causa, falamos da vida e da obra do Cristo. Com infindo desgosto para mim, ele duvidou mesmo da existência do “Filho do homem”. Era um mito, uma idéia e não uma individualidade. A existência

de uma Divindade também era impugnável, Deus era um espan-talho para se impor aos fracos ou um engodo dos egoístas que se empenhavam em servi-lo com receio das conseqüências ou com vistas na conquista da salvação. Tudo isso me parecia terrível.5 A minha consciência protestava revoltada e não podia aceitar tais idéias. Eu lia a minha Bíblia com mais atenção que nunca, tentando conciliar seus ensinos com os dos Espíritos. Muitas vezes aí se me deparavam palavras de consolo e luz, e a elas apegava-me apaixonadamente, como a uma chave desses misté-rios. Depois, recaía no meu abismo de desespero, sem ver um meio de daí sair. Parecia que eu me havia tornado ser duplo, um agarrado às velhas doutrinas e defendendo-as em cada um de seus pontos; o outro assaltando, sitiando e destruindo todas as resistências, para depois deixar-me fraca e desanimada sob o golpe dessas lutas intestinas.

Ninguém se apresentava para me ajudar ou aconselhar. Aque-les a quem eu me dirigia nem mesmo queriam discutir a questão e declaravam que o Espiritismo era uma obra diabólica. Outros, os agnósticos, como eles se chamavam, se bem que eu não compreendesse claramente a significação dessa palavra, tratavam dessas questões com calma filosófica e aconselhavam a não me atormentar com esses estudos, ou buscar só o que me podia tornar feliz, sem me importar com o resto. “O que existe, é”, diziam eles; nem as minhas crenças nem as minhas dúvidas podiam fazer mudança alguma na face do mundo. Voltava, pois, às minhas lutas interiores, mas não podia aderir à idéia de que as manifestações proviessem do diabo. O caráter das comunicações de John Harrison ou da terna Felícia Owen eram a prova absolu-ta do contrário. Os escritos sentenciosamente religiosos de John Harrison comoviam-me tanto quanto os sermões do nosso velho pastor, e suas palavras finais eram sempre acolhidas com um suspiro de alívio. Certamente, John Harrison não era mais Sata-nás que o nosso velho pastor protestante.

Foi durante essas semanas de convalescença, quando o amor à vida lançava em mim novas raízes, que comecei a compreender e a aceitar os ensinos de meus amigos espirituais. Não sei bem como isso se deu. Os dias de paz que passei à sombra das árvores

verdes e sob o imenso céu azul, e os raios do Sol coados por entre as folhas, tudo concorria para clarear-me o entendimento. Não mais me via assaltada por todos os lados por opiniões contrárias ou por controvérsias. Achava-me só com a Natureza e, unidas, combatíamos e avançávamos pari passu no velho terre-no. Parecia-me então que essas coisas, irreconciliáveis quando vistas através das lentes coloridas das velhas doutrinas, torna-vam-se puras e harmoniosas sob a clara luz do céu.

Estudados somente em parte, esses ensinos não parecem ter algum parentesco entre si; mas, vistos como um todo, mostram-se estreitamente ligados e constituem uma perfeita e gloriosa verdade. Dá-se o mesmo com o colorido brilhante de uma folha-gem de outono. Embora o tom verde aí contraste fortemente com o carmesim, essas duas cores prendem-se por inumeráveis mati-zes delicados, como sombras de cor, e a folhagem acha-se assim perfeitamente harmônica.

Do mesmo modo, quando considerava separadamente os en-sinos da Igreja e os dos Espíritos, não via senão contrastes; e só pude julgar da beleza e harmonia que os ligavam, formando um todo perfeito e magnífico, quando me foi dado, graças a uma misteriosa intuição, contemplá-los através de um meio mais transparente que os dogmas das igrejas e as opiniões individuais dos professores dessas tantas teorias de nomes terminados em “ismos”. Realmente, muitas coisas ainda eram e continuam a ser inexplicáveis; mas compreendi que tinha encontrado a chave de um mundo novo, tão maravilhoso, banhado por uma luz tão pura e brilhante que bastava expor as minhas dificuldades aos seus raios penetrantes para serem imediatamente explicadas.

XIV