A regulamentação do estágio
2.2 Um longo percurso: a lei do estágio de 1967 a
A questão central da precariedade do trabalho do estagiário é justamente a legislação que define o seu caráter, distinguindo-o da legislação trabalhista. Visto que não é regulamentado pela CLT e sim por legislação específica, o trabalho do estagiário potencialmente encarna uma forma legal de contratação de força de trabalho sem vínculos
empregatícios e com direitos muito reduzidos. Nessa perspectiva, o contrato de estágio está em conformidade com as transformações nas relações de emprego, principalmente no tocante à relação contratual. Além da diversificação das formas de contratação, as mudanças mais significativas na relação de trabalho envolvem também a flexibilização do tempo de trabalho, assim como o aumento da remuneração variável (KREIN, 2009). Essa forma de contratação pode ser entendida como incidindo numa relação de emprego disfarçada.
A relação de emprego disfarçada ocorre quando estão presentes as características do trabalho assalariado, mas a contratação da prestação de serviço é feita sem contemplar os direitos trabalhistas e previdenciários vinculados a ele. (...) A relação é de subordinação a uma lógica mais geral de organização da produção (bens e serviços) e de acumulação de capital, sem que a parte contratada, independentemente do tipo de vínculo (PJ, autônomo ou terceirizado, estágio etc.), tenha autonomia na determinação de suas funções, ficando numa relação de dependência direta ou implícita a um empregador, tanto pela regularidade da atividade quanto pela definição das atividades no tempo e no espaço, assim como pela forma de remuneração. (KREIN, 2009, p.14)
Apesar do estágio em empresas remontar à década de quarenta9, sua forma atual começa a ser moldada juntamente com a reestruturação do Estado durante a ditadura militar. Nesse contexto histórico, o Estado reconfigura as relações de trabalho, em conformidade com sua política econômica de reorientação das relações capitalistas no Brasil, buscando a modernização tecnológica do parque industrial com ampla abertura para o capital externo. A ditadura militar no Brasil racionaliza o Estado a favor de um setor da classe dominante, podendo mesmo se caracterizar enquanto uma ditadura militar- empresarial. A concentração monopolista do capital foi uma das características marcantes do período do “milagre” econômico.
No tocante à questão do estágio, percebe-se que o Estado estava bastante afinado com os interesses empresarias, uma vez que já no ano de 1964 é fundado o Centro de Integração Empresa Escola, o CIEE, e em 1966 a Fundação MUDES, ambas com o objetivo de estimular a prática de contratação de estagiários em empresas. Nesse sentido pouco depois, em 1967, é promulgada a portaria ministerial nº 1002, que institui a
9 A “lei orgânica do ensino industrial”, Decreto-lei n. 4.073 de 1942, já estabelecia a atividade de estágio,
categoria de estagiário em empresas e determina a obrigatoriedade de um contrato específico de estágio, desde já excluindo o vínculo empregatício desta relação contratual. O ano de 1967 marca o início do crescimento econômico acelerado e a instalação de diversas empresas multinacionais no país. Com isso a necessidade de trabalhadores com especialização aumenta.
Em 1977 é sancionada a primeira lei de estágio, nº 6.494, que irá vigorar, ainda que com modificações, até a recente lei de 2008. O período em questão difere do momento de promulgação da portaria ministerial; a partir do ano de 1974, as altas taxas de crescimento econômico perdem fôlego, e começa a se delinear a crise do “milagre” econômico. Os trabalhadores brasileiros sofrem com o arrocho salarial e a crise inflacionária, e conforme afirmou Francisco de Oliveira: “a luta pelo acesso aos ganhos da produtividade transforma-se necessariamente em contestação ao regime” (OLIVEIRA, 2003, p.179) resultando na retomada das greves e mobilizações dos trabalhadores no ABC paulista a partir de 1978. As contradições do modelo de desenvolvimento vêm à tona, e o crescimento acelerado não mais se sustenta, levando o Estado a buscar novas medidas para solucionar a crise.
Nesse contexto, a lei sancionada em 1977 buscava implementar o princípio de integração entre escolas e empresas para estimular uma dinâmica produtiva que acompanhasse a evolução tecnológica do capitalismo. O estágio estava de tal modo relacionado com a política econômica do governo militar, que no Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND) constava um Projeto de Integração Empresa/Escola/Governo para implantação do estágio de estudantes (SANTOS, 2012).
A constante evolução científico-tecnológica do século XX, obrigando a indústria e as outras atividades de produção e serviço a uma permanente remodelação de seus métodos de trabalho e de seus equipamentos, lançou um desafio à Universidade, que não pode encontrar os meios para oferecer a seus estudantes ambientes de trabalho prático comparáveis àqueles que o profissional, uma vez egresso da Universidade, irá encontrar no desenvolvimentos das tarefas profissionais.
(...)
Como compatibilizar as necessidades efetivas da atividade profissional, particularmente em certas áreas tecnológicas – que são a mola do progresso econômico do País – e as limitações, explicáveis e razoáveis, resultantes da escassez de meios materiais, das instituições de ensino?
A fórmula encontrada é a colaboração mútua entre os organismos empresariais – que dispõem dos meios materiais e técnicos requeridos para treinamento atualizado dos profissionais que empregam e as
entidades educacionais, responsáveis pela formação global do futuro profissional.”
(I PND, 1972. Apud: SANTOS, 2012, p.61)
A primeira lei do estágio definia este como uma “complementação do ensino e da aprendizagem”, mas em sua redação vaga deixava muita margem para interpretação de seu princípio educativo. Institui-se que o estágio deve estar em conformidade com os currículos, mas isso não o torna vinculado ao currículo, apenas indica uma correspondência entre as atividades de estudo e prática, que pode ser livremente interpretado.
Art. 1º As pessoas jurídicas de Direito Privado, os Órgãos da Administração Pública e as Instituições de Ensino podem aceitar, como estagiários, aluno regularmente matriculados e que venham frequentando, efetivamente, cursos vinculados à estrutura do ensino público e particular, nos níveis superior, profissionalizante de 2º Grau e Supletivo.
§ 1º - O estágio somente poderá verificar-se em unidades que tenham condições de proporcionar experiência prática na linha de formação, devendo, o estudante, para esse fim, estar em condições de estagiar, segundo o disposto na regulamentação da presente Lei.
§ 2º - Os estágios devem propiciar a complementação do ensino e da aprendizagem a serem planejados, executados, acompanhados e avaliados em conformidade com os currículos, programas e calendários escolares, a fim de se constituírem em instrumentos de integração, em termos de treinamento prático, de aperfeiçoamento técnico-cultural, científico e de relacionamento humano.
(BRASIL, LEI N°6.494, 07/12/1977)
A jornada de trabalho tampouco é definida, apontando a mesma necessidade de conformidade com o calendário escolar, e ainda há livre utilização do trabalho do estagiário em período de férias. Desde sua primeira redação a não vinculação da relação de emprego é registrada e a remuneração é posta como opcional.
Art. 4º O estágio não cria vínculo empregatício de qualquer natureza e o estagiário poderá receber bolsa, ou outra forma de contraprestação que venha a ser acordada, ressalvado o que dispuser a legislação previdenciária, devendo o estudante, em qualquer hipótese, estar segurado contra acidentes pessoais.
Art. 5º A jornada de atividade em estágio, a ser cumprida pelo estudante, deverá compatibilizar-se com o seu horário escolar e com o horário da parte em que venha a ocorrer o estágio.
Parágrafo único. Nos períodos de férias escolares, a jornada de estágio será estabelecida de comum acordo entre o estagiário e a parte concedente do estágio, sempre com interveniência da instituição de ensino.
(BRASIL, LEI N°6.494, 07/12/1977)
Somente cinco anos depois de sua promulgação, em agosto de 1982, um decreto regulamenta a lei do estágio. Delega à instituição de ensino a responsabilidade de supervisão e coordenação das “atividades de aprendizado social, profissional ou cultural”.
Art. 2º Considera-se estágio curricular, para os efeitos deste Decreto, as atividades de aprendizagem social, profissional e cultural, proporcionadas ao estudante pela participação em situações reais de vida e trabalho de seu meio, sendo realizada na comunidade em geral ou junto a pessoas jurídicas de direito público ou privado, sob responsabilidade e coordenação da instituição de ensino.
(BRASIL, DECRETO N° 87.497, 18/08/1982)
Nesse mesmo ato jurídico, o Termo de Compromisso é inaugurado como instrumento legal que garante a caracterização do estágio, se tornando um entrave para o estagiário que buscasse recorrer à justiça para reclamar direitos trabalhistas. Segundo decisão do TST que absolveu o Banco do Brasil a pagar direitos trabalhistas a um estagiário por não considerar existir vínculo de emprego numa “simples atividade de aprendizagem”10.
Art. 5º Para caracterização e definição do estágio curricular é necessária, entre a instituição de ensino e pessoas jurídicas de direito público e privado, a existência de instrumento jurídico, periodicamente reexaminado, onde estarão acordadas todas as condições de realização daquele estágio, inclusive transferência de recursos à instituição de ensino, quando for o caso.
Art. 6º A realização do estágio curricular, por parte de estudante, não acarretará vínculo empregatício de qualquer natureza.
§ 1º O Termo de Compromisso será celebrado entre o estudante e a parte concedente da oportunidade do estágio curricular, com a interveniência da instituição de ensino, e constituirá comprovante exigível pela autoridade competente, da inexistência de vínculo empregatício.
§ 2º O Termo de Compromisso de que trata o parágrafo anterior deverá mencionar necessariamente o instrumento jurídico a que se vincula, nos termos do artigo 5º.
§ 3º Quando o estágio curricular não se verificar em qualquer entidade pública e privada, inclusive como prevê o § 2º do artigo 3º da Lei nº 6.494/77, não ocorrerá a celebração do Termo de Compromisso.
(BRASIL, DECRETO N° 87.497, 18/08/1982)
A regulamentação de 1982 também estabelece normas para os serviços de agentes de integração públicos e privados que fazem a intermediação entre empresas, instituições de ensino e estudantes, e atuam como verdadeiras empresas de recursos humanos. Ainda que algumas dessas instituições sejam criadas na década de sessenta - como o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) criado em 1964, a Fundação Movimento Universitário de Desenvolvimento Econômico e Social (MUDES), criada em 1966, e o Instituto Euvaldo Lodi (IEL), criado em 1969 pela Confederação Nacional da Indústria, - é apenas em 1982 que sua função intermediadora passa a ser regulada por lei. Veremos ao final deste capítulo como a atuação dessas agências se tornou um vetor para difusão dos estágios no Brasil, impulsionando o processo de estruturação de um sistema de estágios.
Duas modificações importantes na lei do estágio ampliam o escopo de sua aplicação. Na Lei nº 8.859, de 23 de março de 1994, que dá nova redação para a lei de 1977, estudantes de educação especial passam a ser inclusos juntamente com universitários e estudantes do ensino técnico. Já na medida provisória nº 2.164-41 de agosto de 2001, são os estudantes do ensino médio regular que entram no rol. Essas modificações já refletem um contexto marcado pela flexibilização das relações de trabalho, ampliando as fronteiras do capital. Nesse sentido, o alargamento do público alvo do estágio pode ser visto como uma flexibilização, principalmente porque o estágio que deveria ser uma atividade diretamente vinculada à área de formação do aluno o deixa de ser, uma vez que estudantes de ensino médio regular não têm uma área de formação definida.
Alguns estudos sobre a situação dos estágios na década de noventa e início dos anos 2000 apontam para a desvirtuação de seu caráter, principalmente pela margem de manobra deixada pela redação dessa lei (MESQUITA, 2011; SILVA, 2007; OLIVEIRA, 2009). Estagiários passaram a recorrer ao sistema judiciário para requerer seus direitos trabalhistas, tornando público que este passou a se configurar como um subemprego aberto e disfarçado. Com a entrada do Governo Lula em 2003 e a inauguração de políticas focadas para a juventude, a questão do estágio passa a entrar na pauta. É de iniciativa da Presidência da República o projeto de Lei da Câmara nº 44/2007, que irá resultar da nova lei do estágio.
A nova lei do estágio, nº 11.788, é promulgada em 25 de setembro de 2008. A medida garante a ampliação de direitos para estagiários e assim foi propalada enfatizando seus avanços quanto à proteção do estagiário, como a remuneração compulsória, a instituição da obrigatoriedade de férias remuneradas de trinta dias e limitação da carga horária. Não obstante esses ganhos consideráveis faz-se necessária uma análise mais profunda de suas reais consequências, assim como as motivações por trás da preocupação em se delimitar as regras de contratação do trabalho do estágio. Não entendemos que há uma relação mecânica entre ampliação de direitos e redução de desigualdades sociais. Mantém-se a não vinculação de relação de emprego, e com isso a falta de inserção do jovem trabalhador em uma relação estável de trabalho, que lhe permita construir planos para o futuro.
A nova lei do estágio teve uma redação minuciosa, resultando de um longo debate quando de sua tramitação na Câmara. Foi aprovada após 60 emendas ao projeto, que expressavam o embate entre a intenção de aumentar a regulação dos estágios impedido o uso indiscriminado de estagiários, e a intenção de manter sua forma por receio do impacto das novas regulações sobre a contratação de estagiários por empresários. Como se verá os avanços não se deram sem limitações impostas ao seu alcance e eficácia. A maioria dos dispositivos confere uma nova redação a dispositivos já existentes ressignificando-os, e por vezes mesmo alterando seu marco legal. A definição do estágio é sutilmente alterada; consta agora que o estágio é uma atividade que faz parte do projeto pedagógico do curso, não mais apenas uma atividade “em conformidade” com o currículo. Reforça a noção de que apesar do estágio se realizar na empresa ela é atividade da esfera escolar.
Art. 1º Estágio é ato educativo escolar supervisionado, desenvolvido no ambiente de trabalho, que visa à preparação para o trabalho produtivo de educandos que estejam freqüentando o ensino regular, em instituições de educação superior, de educação profissional, de ensino médio, da educação especial e dos anos finais do ensino fundamental, na modalidade profissional da educação de jovens e adultos.
§ 1º O estágio faz parte do projeto pedagógico do curso, além de integrar o itinerário formativo do educando.
§ 2º O estágio visa ao aprendizado de competências próprias da atividade profissional e à contextualização curricular, objetivando o desenvolvimento do educando para a vida cidadã e para o trabalho. (BRASIL, LEI N°8.788, 25/09/2008)
Quanto ao conteúdo da atividade desenvolvida pelo estagiário, a mudança abre espaço para interpretação uma vez que ao invés de estar definido que o estágio deve “proporcionar experiência prática na linha de formação do estagiário” (Art. 1º, § 2º, lei de 1977), agora lê-se que deve proporcionar “competências próprias à atividade profissional”. Como foi discutido no capítulo anterior, a noção de competência para o mundo do trabalho é bastante vaga, podendo incorrer no entendimento de que qualquer atividade de estágio pode oferecer “competência” para o trabalho no sentido de obedecer a ordens, trabalhar em equipe, etc., porém não desenvolver uma atividade que contribua para a formação específica no estagiário. Há também na nova lei a previsão de que o estágio não cria vínculos empregatícios contanto que haja, entre outras obrigações, a “compatibilidade entre as atividades desenvolvidas no estágio e aquelas previstas no termo de compromisso. (Art. 3º, III)”. O termo de compromisso é um contrato livremente redigido e assinado pelas três partes interessadas, aluno, escola e empresa, sem qualquer padronização estabelecida a priori. Podem ser previstas no termo de compromisso atividades as mais díspares, não havendo, portanto, qualquer conteúdo previsto pela lei que o estágio deve suprir.
Há também a introdução de alguns dispositivos novos, como o estabelecimento de um limite de estagiários contratados em relação ao número de funcionários de determinada empresa. Pela primeira vez é estabelecido um limite máximo de 20% de estagiários em relação a empregados contratados, mas uma emenda a este artigo exclui essa limitação para o caso de estudantes de ensino médio profissionalizante e ensino superior, que são a maioria das vagas de estágio oferecidas.
Art. 17º O número máximo de estagiários em relação ao quadro de pessoal das entidades concedentes de estágio deverá atender às seguintes proporções:
I - de 1 (um) a 5 (cinco) empregados: 1 (um) estagiário; II - de 6 (seis) a 10 (dez) empregados: até 2 (dois) estagiários; III - de 11 (onze) a 25 (vinte e cinco) empregados: até 5 (cinco) estagiários;
IV - acima de 25 (vinte e cinco) empregados, até 20% (vinte por cento) de estagiários.
§ 1º Para efeito desta Lei, considera-se quadro de pessoal o conjunto de trabalhadores empregados existentes no estabelecimento do estágio.
§ 2º Na hipótese de a parte concedente contar com várias filiais ou estabelecimentos, os quantitativos previstos nos incisos deste artigo serão aplicados a cada um deles.
§ 3º Quando o cálculo do percentual disposto no inciso IV do caput deste artigo resultar em fração, poderá ser arredondado para o número inteiro imediatamente superior.
§ 4º Não se aplica o disposto no caput deste artigo aos estágios de nível superior e de nível médio profissional.
§ 5º Fica assegurado às pessoas portadoras de deficiência o percentual de 10% (dez) das vagas oferecidas pela parte concedente do estágio.
(BRASIL, LEI N°8.788, 25/09/2008)
Não há sequer um limite diferenciado estabelecido para estes; há apenas a determinação, em outro artigo da lei, que haja um funcionário delegado na empresa para supervisionar cada grupo de dez estagiários; isto é o número de estagiários para funcionários pode chegar a 90%.
Pela primeira vez é instituída uma pena para o uso indiscriminado de estagiários com a interdição de sua contratação em dois anos para as empresas que burlarem a norma.
Art. 15º A manutenção de estagiários em desconformidade com esta Lei caracteriza vínculo de emprego do educando com a parte concedente do estágio para todos os fins da legislação trabalhista e previdenciária.
§ 1º A instituição privada ou pública que reincidir na irregularidade de que trata este artigo ficará impedida de receber estagiários por 2 (dois) anos, contados da data da decisão definitiva do processo administrativo correspondente.
§ 2º A penalidade de que trata o parágrafo 1º deste artigo limita- se à filial ou agência em que for cometida a irregularidade.
(BRASIL, LEI N°8.788, 25/09/2008)