O Inovar-Auto é, em um primeiro plano, uma política industrial. Trata-se de um incentivo público a um ramo particular da indústria, o automotivo. Logo, abaixo do prosaico véu institucional, reside uma relação entre Estado e indústria que eleva o grau de relevância deste estudo. Para investigar as especificidades dessa relação, entende-se que uma breve apreensão teórica sobre aspectos da indústria seja necessária. Isto é, faz-se relevante compreender elementos característicos da indústria e do MPC para, em seguida, discorrer sobre categorias que compõem o Estado.
Em seu desenvolvimento histórico, a indústria adquiriu maiores complexidades progressivamente, em sintonia com o desenvolvimento do MPC. Uma das características desse processo foi que ele ocorreu notadamente marcado pelo uso da violência, inclusive praticada pelo Estado. Os países que lideraram o processo de industrialização capitalista se valeram de diversas estratégias para a acumulação:
Todos eles, porém, lançaram mão do poder do Estado, da violência concentrada e organizada da sociedade, para impulsionar artificialmente o processo de transformação do modo de produção feudal em capitalista e abreviar a transição de um para o outro. A violência é a parteira de toda sociedade velha que está prenhe de uma sociedade nova (MARX, [1867] 2013, p. 821).
A moderna sociedade capitalista, nascida das ruínas da sociedade feudal, eliminou as relações servis, mas só pôde fazê-lo após ter eliminado também o acesso dos/as trabalhadores/as aos meios de produção e os laços institucionais que garantiam a sua existência. A transformação dos produtores em trabalhadores/as assalariados/as não aboliu os antagonismos presentes na história de todas as sociedades, “a história de luta de classes” (MARX; ENGELS, [1848] 2009, p. 53). O MPC se caracteriza por ter simplificado os antagonismos de classe com a formação de apenas duas classes frontalmente opostas:
O processo que cria a relação capitalista não pode ser senão o processo de separação entre o trabalhador e a propriedade das condições de realização de seu trabalho, processo que, por um lado, transforma em capital os meios sociais de subsistência e de produção e, por outro, converte os produtores
diretos em trabalhadores assalariados. A assim chamada acumulação primitiva não é, por conseguinte, mais do que o processo histórico de separação entre produtor e meio de produção. Ela aparece como “primitiva” porque constitui a pré-história do capital e do modo de produção que lhe corresponde (MARX, [1867] 2013, p. 786).
Se, como descreve Marx ([1867] 2013), a relação capitalista e a violenta expropriação do trabalhador são cognatas, então qualquer versão que descreva uma transição gradual e pacífica do feudalismo para o capitalismo é fantasiosa e não faz mais do que denunciar a sua matriz ideológica. A força, a coação, o saque foram parte do projeto de acumulação:
Assim, a população rural, depois de ter sua terra violentamente expropriada, sendo dela expulsa e entregue à vagabundagem, viu-se obrigada a se submeter, por meio de leis grotescas e terroristas, e por força de açoites, ferros em brasa e torturas, e uma disciplina necessária ao sistema de trabalho assalariado (MARX, [1867] 2013, p. 808).
A subjugação dos/as trabalhadores/as sob um novo regime de acumulação concentrou capital nas mãos de um restrito grupo, e esses representantes do capital conduziram a transformação da pequena unidade familiar do mestre artesão na grande fábrica do capitalista industrial.
As primeiras fábricas eram simplesmente aglomerações de pequenas unidades de produção, havia pouca mudança quanto aos métodos empregados. O controle da produção permanecia com o trabalhador na medida em que este detinha os conhecimentos tradicionais e a perícia de seu ofício. O capitalismo industrial teve início com a concentração de grande número de trabalhadores/as sob um capital. No começo a atividade do trabalhador industrial era executada tal como nas formas anteriores de produção, os/as trabalhadores/as já estavam habituados aos ofícios que desempenhavam nas guildas (ex. tecelões, ferreiros, oleiros etc.). Entretanto, tão logo os produtores foram reunidos em um espaço comum, os capitalistas lançaram mão da gerência e do controle (DECCA, [1993] 2004; DICKSON, 1980; MARGLIN, 1978). Novamente, o que há de violento acontecendo da porta para dentro da fábrica não consta nas narrativas mais idílicas da produção capitalista. Não raro, o contrato firmado entre o patrão e o empregado é celebrado como evidência da livre associação entre indivíduos livres que obedecem à lei fundamental da troca. O capitalista quer garantir o uso eficiente do tempo de trabalho, assim como quer aproveitar o máximo
e sem desperdícios as outras mercadorias que adquire, sejam elas máquinas, animais, ferramentas, terra.
O/a trabalhador/a vende sua força de trabalho por jornada, resta saber como se determina o tempo pelo qual o capitalista tem direito sobre esse valor de uso. A própria natureza dessa mercadoria faz com que ele reivindique uma jornada de trabalho aceitável que não ponha fim à sua existência, mas o despotismo dos gerentes das fábricas atua na direção oposta, exigindo do/a trabalhador/a a realização da atividade até o limite da sua capacidade física:
Tem-se aqui, portanto, uma antinomia, um direito contra outro direito, ambos igualmente apoiados na lei da troca de mercadorias. Entre direitos iguais, quem decide é a força. E assim a regulamentação da jornada de trabalho se apresenta, na história da produção capitalista, como uma luta em torno dos limites da jornada de trabalho – uma luta entre o conjunto dos capitalistas, i.e., a classe capitalista, e o conjunto dos trabalhadores, i.e., a classe trabalhadora (MARX, [1867] 2013, p. 309).
Nesse contexto a força não necessariamente é física, ela é antes política, um exercício de poder que se manifesta de diversas formas na luta de classes. É da porta para fora da fábrica que a estrutura do poder se apresenta na forma do Estado capitalista, cuja função é garantir a coesão de uma sociedade dividida em classes.
O poder refere-se às relações entre as classes, tendo como lugar o campo das práticas de classe. Consequentemente, o poder de Estado indica o poder de uma classe determinada, que está sendo representada pelo Estado. Em outros termos, entende-se o referido poder como “a capacidade de uma classe social de realizar seus interesses objetivos específicos” (POULANTZAS, [1968] 2019, p. 106). Esta definição exprime um conflito de classe, uma relação de dominação e subordinação, uma relação de poder.
A instituição do Estado, a rigor, não tem poder, apenas se relaciona com as classes que detêm o poder. O Estado é o centro do exercício do poder político. O Estado capitalista moderno apresenta-se como encarnando o interesse geral de toda a sociedade, como substancializando a vontade desse “corpo político” que seria a “nação” (POULANTZAS, [1968] 2019, p. 124).
No MPC há uma autonomia entre as estruturas políticas e econômicas que se reflete no campo da luta de classes. Assim, a relação do Estado com a luta de classes pode ser dividida entre a relação com a luta econômica de classe e a luta política de
classe. Na relação com a luta econômica de classe, as estruturas jurídicas e ideológicas instauram sujeitos jurídicos e ideológicos, ocultando dos últimos agentes suas relações como relações de classe – fenômeno denominado efeito de isolamento (POULANTZAS, [1968] 2019).
Esse isolamento é a concorrência entre operários assalariados e entre capitalistas ou, em outros termos, é o efeito do jurídico e do ideológico sobre as relações sociais econômicas. “O Estado capitalista é, portanto, determinado pela sua função a respeito da luta econômica de classe, tal como ela se apresenta por causa do efeito de isolamento” (POULANTZAS, [1968] 2019, p. 133).
Nessa abordagem da relação entre Estado e classes politicamente dominantes é que tem lugar a concepção de hegemonia. O conceito de hegemonia aplicado às práticas políticas da classe dominante refere-se aos interesses políticos desta classe em sua relação com o Estado capitalista ou ao papel de uma de suas frações internas, que compõe o bloco no poder e detém um papel dominante, o papel hegemônico9.
A classe hegemônica é aquela que concentra em si, no nível político, a dupla função de representar o interesse geral do povo-nação e de deter uma dominância específica entre as classes e frações dominantes – e isso, em sua relação particular com o Estado capitalista (POULANTZAS, [1968] 2019, p. 141).
A função do Estado capitalista é impedir que a organização política das classes dominadas supere seu isolamento econômico. A contradição principal do Estado capitalista pode ser descrita da seguinte maneira:
[o Estado capitalista] tem por função desorganizar politicamente as classes dominadas, organizando politicamente as classes dominantes; excluir de seu seio a presença, enquanto classes, das classes dominadas, introduzindo aí, enquanto classes, as classes dominantes; fixar sua relação com as classes dominadas como representação da unidade povo-nação, fixando sua relação com as classes dominantes como relação com classes politicamente organizadas; em suma, esse Estado existe como Estado das classes
9 No MPC a classe burguesa apresenta-se dividida em frações de classe. O conceito de bloco no poder indica “a unidade contraditória particular das classes ou frações de classe politicamente dominantes, em sua relação com uma forma particular do Estado capitalista” (POULANTZAS, [1968] 2019, p. 241). O interesse geral comum das frações de classe que compõem o bloco no poder consiste na exploração econômica e na dominação política. “A função de hegemonia no bloco do poder e a função de hegemonia em relação às classes dominadas se concentram, regra geral, em uma mesma classe ou fração” (POULANTZAS, [1968] 2019, p. 246).
dominantes excluindo de seu seio a “luta” de classes (POULANTZAS, [1968] 2019, p. 191).
O Estado capitalista é, portanto, fator de unidade de uma formação capitalista, mas é também o campo de batalha da luta política de classe. O isolamento da esfera econômica em relação à esfera política resulta na ocultação das relações de classe dos agentes.
O Estado capitalista tem autonomia relativa, ainda que continue a ser o fator de organização política das classes dominantes e de desorganização política da classe operária. O paradoxo do Estado capitalista é que ele representa um poder político unívoco e exclusivo das classes dominantes, ao mesmo tempo em que se reveste de uma autonomia relativa dessas mesmas classes. Entre os meios pelos quais essas classes se apropriam do Estado em seu benefício estão as políticas industriais. Antes de abordar as políticas industriais brasileiras presentes no período em que o Inovar-Auto esteve vigente, apresentam-se, a seguir, as particularidades históricas do desenvolvimento da indústria nacional e como os elementos teóricos expostos nesta seção – classes e frações de classe, tecnologia e Estado – se relacionam.