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Um modelo colaborativo: creative commons

No documento Direitos Autorais: busca do equilíbrio (páginas 73-77)

CAPÍTULO 3 – MODELO COLABORATIVO

3.2 Um modelo colaborativo: creative commons

Lessig (2005) apresentou em seus estudos uma proposta inovadora, o projeto denominado Criative Commons31, algo como bens comuns criativos. O autor partiu da constatação de que após a Internet os debates sobre direitos autorais foram travados em dois extremos: a rede, em sua arquitetura inicial, pende na direção do nenhum direito reservado, com conteúdos criativos podendo ser copiados livremente, completamente à revelia dos autores; em contrapartida, emerge uma reação dos titulares de diretos autorais, especialmente da indústria do copyright, propondo uma arquitetura futura bastante rígida para todos os

direitos reservados32.

A atual sistemática dos direitos autorais, como esboçado no primeiro capítulo, pressupõe um direito exclusivo para toda e qualquer utilização das obras protegidas, seja por meios tangíveis ou intangíveis, existentes ou que se inventem no futuro. Quase nada é permitido (salvo as exceções legais, taxativamente enumeradas), dependendo sempre da prévia autorização do titular dos direitos.

Assim, para que também na Internet seja sempre observada a necessidade de prévia autorização, estão sendo elaboradas regras mais rígidas de punição por eventuais violações, além da ampliação dos prazos de duração dos direitos. Com

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Informações no www.criativecommons.org

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o mesmo intuito, ainda desenvolvem-se evoluídos mecanismos técnicos de proteção do conteúdo autoral.

A proposta do Criative Commons é alcançar um meio-termo - “’nem todos os direitos reservados’ nem ‘nenhum direito reservado’ e sim ‘alguns direitos reservados´ – que respeite os copyrights, mas que permita a criadores liberar conteúdo de acordo com sua conveniência” (LESSIG, 2005, p. 269). Grifamos.

O Criative Commons é projeto no qual são disponibilizados modelos de licenças públicas, ou seja, licenças jurídicas que deverão ser utilizadas pelos titulares de direitos autorais para informar a quem interessar quais os usos permitidos para sua obra:

Em outras palavras, o Criative Commons cria instrumentos jurídicos para que o autor, um criador ou uma entidade diga de modo claro e preciso para as pessoas em geral que uma determinada obra intelectual sua é livre para distribuição, cópia e utilização. Essas licenças criam uma alternativa ao direito da propriedade intelectual tradicional, fundada de baixo para cima, isto é, em vez de criadas por lei, elas se fundamentam no exercício de prerrogativas que cada indivíduo tem como autor de permitir acesso às suas obras e a seus trabalhos, autorizando que outros possam utilizá-los e criar sobre eles (LEMOS, 2005, p. 83).

Assim, o modelo de licença aberta nasce dos conceitos do próprio direito autoral, partindo da premissa de que o autor tem liberdade legal para permitir ou não o uso de sua obra e em que termos esse uso pode ocorrer.

A substancial diferença apresentada pelo modelo do Creative Commons é relacionada à informação pública. O autor, fruindo de sua liberdade e de seu interesse pessoal, dispõe de licenças padrões (de fácil compreensão) que

informam a terceiros quais utilizações estes poderão eventualmente realizar com a sua obra, caso tenham interesse. Serve de exemplo o livro do próprio idealizador da idéia, Cultura Livre, de Lawrence Lessig, que apresenta em sua página inicial a seguinte licença:

Atribuição – Uso comercial 1.0 Você pode:

• Copiar, distribuir, exibir e executar a obra. • Criar obras derivadas.

Você deve dar crédito ao autor original. Uso não comercial. Você não pode utilizar esta obra com finalidades comerciais.

Observa-se que fica evidente que o autor permite a todas as pessoas em geral copiar, distribuir, exibir e executar a obra literária, além de criar obras derivadas, desde que ausente o intuito comercial. Por esta razão, foi possível a tradução do livro para o português (obra derivada), assim como sua ampla divulgação pela Internet, desde que ninguém explore a obra comercialmente e nem deixe de conferir os créditos ao criador original, ou seja, indicação de fontes. O autor, usando de suas prerrogativas, já informa previamente suas intenções em relação à própria criação: não há intermediários; não se criam dificuldades em localizar o detentor dos direitos autorais; não se exigem inúmeras correspondências eletrônicas solicitando autorizações; não existem inconvenientes e, principalmente, há circulação do conhecimento e da cultura.

Note-se, nesse ponto, que caso um autor não deseje permitir previamente qualquer uso de sua obra e queira manter sob seu domínio todos os direitos autorais, basta que ele não utilize tal estratégia. As legislações nacional e internacional já garantem um sistema de exclusividade pelo simples ato de existir a produção criativa. Na inércia do autor, estarão garantidos os seus direitos.

Este é outro aspecto de grande importância do modelo Creative Commons: a licença aberta é voluntária e se apresenta como um instrumento jurídico disponível ao autor, que tem a liberdade de optar pelas formas de divulgação e exploração de sua obra.

O modelo Creative Commons parte do exemplo de outros modelos colaborativos, como o do software livre. O GNU/Linux é um software livre criado a partir da colaboração de programadores de todo o mundo. Apresenta um código-fonte aberto, que poderá sofrer a interferência de qualquer um, mas não poderá ser comercializado com exclusividade por ninguém.

O projeto Creative Commons já atinge hoje mais de 30 países, incluindo Brasil, França, Estados Unidos, África do Sul, Itália, Alemanha, Holanda, Japão, entre outros. Em agosto de 2003, a rede estatal de televisão e rádio de Londres, a BBC, passou a aderir ao modelo com o objetivo de disponibilizar todo o seu acervo de produções televisivas e radiofônicas para ser livremente acessado, utilizado e reutilizado on line33.

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No documento Direitos Autorais: busca do equilíbrio (páginas 73-77)

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