Nas últimas décadas, a América Latina e o Caribe se abriram ao comércio internacional e aos fluxos finan-ceiros, unindo seu crescimento a forças externas. A participação do comércio como percentual do PIB au-mentou de 32% em 1990 para 46% em 2020, ao passo que os fluxos líquidos de investimento estrangeiro direto (como percentual do PIB) se multiplicaram por cinco. Os acordos comerciais floresceram, e as contas de capital abertas são a norma.
Por conseguinte, a relação entre o crescimento e o setor externo se fortaleceu. Por exemplo, a correlação entre o crescimento da América do Sul e a mudança nos preços das commodities é de 0,80, ao passo que a correlação com o crescimento da China está acima de 0,70. No mesmo período, a correlação entre o cres-cimento da América Central, do México e da República Dominicana com o crescres-cimento do G7 é de 0,85 3. O modelo de fatores externos busca explorar essas correlações para obter uma estimativa de como o cresci-mento (previsto) da ALC é impulsionado pela economia global. Especificamente, de acordo com De la Torre et al. (2013), o modelo identifica a parte do crescimento do PIB que pode ser explicada por variáveis externas comuns a todos os países da região. A fim de manter o modelo simples, apenas quatro variáveis são incluídas para reunir variações reais e financeiras no setor externo da ALC. Os fatores globais reais são representados pelo crescimento da China e do G7, além de mudanças nos preços das commodities. Os fatores financeiros são representados pelas taxas de juros internacionais 4.
Utilizando dados trimestrais a partir de 2005, é feita uma regressão da taxa de crescimento anual de cada país em relação a estas variáveis externas. Os valores estimados representam o crescimento previsto em vir-tude de fatores externos. As taxas são, então, agregadas por região por meio de uma média ponderada. Os pesos representam a parcela do PIB de cada país no total da região em 2019. Os valores previstos são obtidos por meio da combinação dos parâmetros estimados do modelo com as previsões do relatório WEO sobre as variáveis externas.
3 Dados trimestrais entre 2005 e 2019. A América do Sul inclui Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Paraguai e Uruguai. O Panamá está excluído da América Central.
4 Como taxas internacionais, o rendimento dos títulos de dez anos do Tesouro dos EUA e a taxa Libor (London Interbank Offered Rate) de seis meses foram utilizados com resultados semelhantes. A Libor é utilizada nos resultados aqui apresentados, uma vez que se encontra prevista no Panorama Econômico Mundial (WEO).
RECUPERAÇÃO
Figura B1: Resposta de crescimento a fatores externos (em pontos percentuais)
Crescimento G7 Crescimento da China
Fontes: Haver Analytics; Panorama Econômico Mundial do FMI; e cálculos da equipe do Banco Mundial.
Observação: Os pontos mostram as estimativas de pontos e as linhas representam intervalos de confiança de 95%.
Para exemplificar, a figura B1 apresenta a resposta estimada da taxa de crescimento anual às variações dos fatores externos para a Argentina, o Brasil, a Colômbia e o Peru. O crescimento está particularmente asso-ciado ao G7 e ao PIB da China. Há maior variação na resposta do crescimento às mudanças nos preços das commodities, e, em países como a Argentina e o Brasil, a relação é mais forte. Como esperado, as taxas de crescimento estão (em média) negativamente associadas às taxas de juros internacionais.
De modo mais geral, entre os quatro fatores externos, o crescimento da América do Sul parece mais co-rrelacionado à atividade econômica no G7 (com uma elasticidade média de 1,16) e na China. Resultados se-melhantes são encontrados para a América Central, o México e a República Dominicana (CAMD). O cresci-mento desta sub-região está particularmente associado ao crescicresci-mento do G7 (com uma elasticidade média de 1,25). Em relação à América do Sul, o crescimento da CAMD parece responder menos às mudanças nos preços das commodities e ao crescimento da China.
Fonte: De la Torre et al. (2013).
Desafios para a recuperação
Novos surtos de Covid-19
O rápido avanço da vacinação nos países da ALC e as últimas notícias positivas sobre o controle da variante delta são parcialmente responsáveis pela melhor das avaliações do mercado nos últimos meses. Entretanto, é impossível definir a probabilidade do surgimento de novas cepas (inclusive aquelas mais resistentes às vacinas atuais) e, acima de tudo, conhecer seu impacto sobre a economia. Parte da redução na atividade econômica surgiu por causa das severas intervenções não farmacológicas (INFs) impostas em toda a região (por exemplo, lockdowns). Mesmo que essas se tornem menos prevalentes durante surtos futuros, também é importante reconhecer que, durante toda a pandemia, os cidadãos reduziram sua mobilidade. A figura 1.16 demonstra que, mesmo sem nenhuma INF, o aumento das mortes por Covid-19 levou a uma queda nas me-dições de mobilidade do Google em países de todos os níveis de renda. Tanto nos países de renda alta quanto
RECUPERAÇÃO DO CRESCIMENTO:
RECONSTRUINDO ECONOMIAS DINÂMICAS PÓS-COVID-19 EM MEIO A RESTRIÇÕES ORÇAMENTÁRIAS
nos países de renda média-baixa, a redução voluntária da mobilidade foi pelo menos tão importante quan-to as INFs. Um exemplo marcante, mas muiquan-to relevante, foi o declínio na frequência a restaurantes nos EUA, que ocorreu antes da implementação de qualquer INF. Tais efeitos voluntários exacerbaram a recessão na ALC devido ao grande papel do setor informal, que inicialmente se contraiu em vários países por medo do contágio (LEYVA; URRUTIA, 2020; ALVAREZ et al., 2021).
Figura 1.16: Grande parte da desaceleração na atividade ocorreu devido ao
autodistanciamento voluntário.
a. Queda nas reservas em restaurantes
versus casos de Covid-19 b. Queda nas receitas e lançamentos de cinema e teatro versus casos de Covid-19
-100-50050Reservas em restaurantes (percentual anual) -5 0 5 10
Log(caso por 1 milhão de pessoas) Nenhum fechamento Fechamentos
EUA
-100-50050
Mobilidade no local de trabalho (% de desvio da linha de base)
-5 0 5 10
Log(caso por 1 milhão de pessoas)
PRB PRMB PRMA PARA
Nenhum fechamento
Fonte: Maloney e Taskin (2019).
Observação: Reservas em restaurantes nos EUA em comparação à incidência de Covid-19. A mobilidade para o trabalho é a medição do Google do índice de mobilidade relacionada ao trabalho. As siglas PRB, PRMB, PRMA e PRA referem-se, respectivamente, a países de renda baixa, países de renda média baixa, países de renda média alta e países de renda alta.
O que aprendemos com isso é que o controle do vírus é essencial para uma recuperação saudável e que, independentemente das medidas que as autoridades tomarem, a mortalidade continuada será um entrave para o crescimento. Embora estejamos fundamentalmente entrando em um terreno desconhecido, várias estimativas preveem que um surto severo reduziria o crescimento em 1 ponto percentual (GAGNON; KA-MIN; KEARNS, 2021)5.
Riscos de inflação
Diversos fatores começam a exercer pressão sobre os preços em grandes economias, como os Estados Uni-dos e vários mercaUni-dos emergentes, inclusive as economias da América Latina e do Caribe. Alguns desses fatores são a recuperação econômica da profunda recessão causada pela pandemia; os choques estruturais nos mercados de bens e serviços e nos mercados de trabalho; e rupturas nas cadeias de abastecimento glo-bais. Essas pressões inflacionárias resultam em riscos internos e externos para a região.
A acentuação da curva de juros dos títulos do Tesouro dos EUA pode ser uma indicação de pressões inflacio-nárias na maior economia do mundo (figura 1.17). O Banco Central dos EUA começou a dar sinais de uma desaceleração significativa de sua política monetária expansionista em 2021 e um aumento potencial nas taxas básicas de juros para 2022. Tal inversão na política do FED reduzirá a liquidez internacional, aumenta-rá o custo dos empréstimos estrangeiros para os mercados emergentes e, possivelmente, enxugaaumenta-rá os fluxos de capital necessários para a região.
5 https://voxeu.org/article/covid-social-distancing-driven-mostly-voluntary-demobilisation.
RECUPERAÇÃO DO CRESCIMENTO:
RECONSTRUINDO ECONOMIAS DINÂMICAS PÓS-COVID-19 EM MEIO A RESTRIÇÕES ORÇAMENTÁRIAS
Figura 1.17: Acentuação da curva de juros nos EUA pode indicar inflação mais alta no
horizonte.
0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 2.5
Jan Mar Abr Jun Jul Ago Out Dez Fev Abr Jun Jul Ago
2020 2021
Rendimento dos títulos em 10 anos Rendimento dos títulos em 2 anos
Curva de Rendimento do Tesouro dos EUA: 2020 até o momento Rendimento dos títulos do tesouro dos Eua (percentual)
Fonte: Departamento do Tesouro dos EUA.
Vários países da região também observaram um aumento recente da inflação interna, o que representa um risco, pois pode limitar a capacidade dos bancos centrais de continuar a estimular a economia, o que aumenta a incerteza econômica. A compreensão dos fatores que impulsionam os aumentos de preços pode ajudar os formuladores de políticas públicas a elaborar políticas personalizadas e, portanto, mais eficazes para enfrentá-los. Um estudo recente (RUCH e TASKIN, no prelo) distingue os motivadores de inflação na ALC entre aqueles motivados pela demanda e aqueles motivados pela oferta. No contexto da Covid-19, cho-ques negativos de demanda derivam da perda de rendimentos e do aumento de comportamentos preven-tivos, que levam a uma redução no consumo de bens e serviços. Por exemplo, os lockdowns e os comporta-mentos preventivos levaram a uma queda na demanda por viagens aéreas e, consequentemente, nas tarifas aéreas. No Brasil, as tarifas aéreas caíram quase 60% em julho de 2020 em comparação ao mesmo mês do ano anterior. Um choque negativo de oferta ocorre quando a produção de um bem (ou serviço) é interrom-pida. Isso pode ser causado por secas, greves ou escassez de mão de obra, ou por restrições de mobilidade e lockdowns no contexto da Covid-19.
Na região da ALC, os preços ao consumidor caíram no início da pandemia com a redução do consumo. Entre janeiro e maio de 2020, o índice de inflação ao consumidor na região caiu de 3,6% para 2,3%. A redução da inflação ao consumidor resultou, em grande parte, de choques negativos de demanda, que criaram um ambiente de demanda deficiente (figura 1.18.a). Em seu nível máximo, no segundo trimestre de 2020, os choques de demanda contribuíram quase 1 ponto percentual para a queda da inflação. Esses choques fo-ram revertidos em 2021 (um reflexo parcial dos efeitos de base) e contribuífo-ram significativamente para o aumento da inflação ao consumidor ao longo de 2021. A queda da oferta no início da pandemia compensou apenas parcialmente o impacto do clima de demanda deficiente e causou um aumento de 0.2 ponto percen-tual na inflação no segundo trimestre de 2020.
A dinâmica de oferta e demanda não foi uniforme em toda a região (figura 1.18.b). No Brasil, na Colômbia e no México, grandes choques de demanda pressionaram a inflação para baixo, o que foi parcialmente com-pensado por choques de oferta na Colômbia e no México. O colapso da demanda foi maior no Brasil e na Colômbia. No Peru, os choques de oferta limitaram a queda da inflação no início da pandemia, contribuin-do para uma inflação ao consumicontribuin-dor de quase 0,4 ponto percentual. No Chile, a contribuição contribuin-dos choques de oferta foi de 0,5 ponto percentual, e o país observou um aumento da inflação em 2020.
Devido às taxas de vacinação moderadamente baixas e às incertezas significativamente altas sobre o futuro da atividade econômica, as previsões de inflação permanecem bastante incertas. O desvio-padrão da inflação ao consumidor durante a pandemia de Covid-19 foi quatro vezes maior que em períodos normais. Em 2021, a incerteza diminuiu, embora permaneça elevada. A incerteza sobre a inflação deverá permanecer acima dos níveis normais até que a pandemia seja controlada e a defasagem entre oferta e demanda seja resolvida.
RECUPERAÇÃO
Figuras 1.18: A inflação na ALC está avançando, amplamente motivada pela demanda.
Inflação do consumidor (rhs)
Pontos percentuais B. Detalhamento da Inflação, por país
-3
2020 2021 2020 2021 2020 2021 2020 2021 2020 2021
Brasil Chile Colômbia México Peru
Fonte: Ruch and Taskin (no prelo).
Observação: Análise baseada em modelos VAR bayesianos com restrições de sinais. As decomposições mostram apenas os choques de demanda e de oferta, excluindo outros choques. Os choques são medidos como desvios de uma constante baseada em um modelo. Os totais agregados regionais representam a média ponderada do Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru, com base no PIB constante de 2020 em dólares norte-americanos. A inflação ao consumidor é apresentada como um desvio da constante baseada no modelo ou condição inicial.
Inadimplência das empresas, superendividamento e estabilidade financeira
A redução nas vendas causada pela Covid-19 levou muitas empresas a atrasarem o pagamento de suas con-tas. A figura 1.19 apresenta a parcela de empresas que relatam a probabilidade de atrasar o pagamento de suas contas nos próximos seis meses. Em vários países, mais de 40% das empresas relatam a probabilidade de atrasar o pagamento de suas contas no período de 6 meses após janeiro de 2021; e, em dois países, esse percentual ultrapassa 60%. A preocupação é tripla. Primeiramente, essas empresas podem sair da pandemia de Covid-19 com altos níveis de endividamento, o que impediria seu crescimento e o acúmulo de capital; ou já terão efetivamente entrado em rota de falência e continuariam a existir apenas como empresas “zumbis”.
A criação de mecanismos mais ágeis que os procedimentos de falência usados na região (geralmente com-plexos e pouco eficazes, particularmente para as PMEs) é uma prioridade urgente (figura 1.20). Na medida do possível, os governos devem continuar a oferecer apoio. Dados preliminares sugerem que o percen-tual de empresas com acesso a apoio governamental varia de um país para outro: 9% no México, 20% no Vietnam, 30% no Brasil e 65% na Polônia. No entanto, o apoio também aumenta os riscos na medida em que ampara empresas menos eficientes e impede a realocação necessária de recursos para usos mais produtivos.
Em segundo lugar, em alguns países, as tarifas foram aumentadas explicitamente para apoiar as empresas, constituindo, efetivamente, manobras “fora do orçamento”. Embora isso seja compreensível devido ao alto nível de concentração industrial na região (ver, por exemplo, Eeckhout e De Loecker, 2018) e ao baixo nível geral de contestabilidade, reverter esta tendência será importante para garantir a eficiência de alocações e melhorar o desempenho das empresas6.
6 Ver Cusolito e Maloney (2018) para uma análise sobre as fontes de crescimento da produtividade.
RECUPERAÇÃO
Figura 1.19: Grande parte do setor privado tem contas em atraso.
Percentual de empresas que responderam “sim” à pergunta: Você prevê que este estabelecimento atrasará suas contas nos próximos seis meses?
0 20 40 60 80
Argentina Chile Colômbia El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua São Paulo 1ª Onda (maio de 2020) 2ª Onda (Ago 2020 - Jan 2021) 3ª Onda (Maio 2021 - Jul 2021)
Fonte: Pesquisas de Pulso (Pulse) do Banco Mundial.
Observação: Empresas que relatam uma expectativa de atraso no pagamento de passivos em aberto nos próximos 6 meses. Em relação à Colômbia, as perguntas referem-se à expectativa de atraso já no mês seguinte. Para a Argentina, o Chile e São Paulo, os dados incluem as empresas que já estavam com pagamentos atrasados na época da pesquisa.
Figura 1.20: Os mecanismos de resolução de dívidas da ALC precisam ser aperfeiçoados.
0
Granada Haiti San Cristóbal y Nieves
S. Vic. e Gran. Venezuela, RB Guiana Ecuador
Guatemala Honduras Suriname Costa Rica Dominica Antígua e Barbuda Santa Lúcia República Dominicana
Panamá Argentina Nicarágua Paraguai Bolívia
Luxemburgo El Salvador Belize Peru
Trinidad e Tobago Brasil
Bahamas Uruguai Barbados Jamaica México Colômbia França Áustria Itália
Espanha Suécia
Reino Unido Puerto Rico Noruega Alemanha
Estados Unidos Finlândia Índice de facilidad para hacer negocios: puntuaciones de "resolución de insolvencia"
Economias avançadas Países da ALC Média ALC
Média ALC: 39,16
Fonte: Doing Business 2020.
Observação: A pontuação de resolução de insolvência corresponde à média simples das pontuações dos indicadores de componentes:
taxa de recuperação dos processos de insolvência envolvendo empresas nacionais; e solidez do marco jurídico aplicável a processos de liquidação judicial e recuperação.
Por fim, em muitos países, os bancos toleraram atrasos no pagamento de dívidas por longos períodos. Isso reduziu, efetivamente, a transparência do setor bancário, pois não é mais possível saber quais desses ativos permanecerão saudáveis ao longo do tempo ou quais serão classificados como inadimplentes. A consta-tação repentina da existência de um volume desconhecido de empréstimos inadimplentes poderia colocar o setor financeiro sob estresse, o que sugere que um monitoramento mais ativo por parte das autoridades financeiras seria prudente.
Feyen e Mare (2029) realizaram uma análise bancária sobre o nível de aumento de empréstimos impro-dutivos (NPLs, na sigla em inglês) que poderia eliminar os buffers em pelo menos 20% dos ativos totais do sistema bancário. Os resultados indicam que, considerando a mediana dos países da ALC, os NPLs teriam de aumentar até 10 pontos percentuais para que a estabilidade do sistema fosse ameaçada7. Em alguns países, os buffers são substancialmente menores, o que, combinado com um alto nível de pagamentos em atraso, resulta em uma situação que merece atenção por parte dos órgãos de supervisão.
7 Esta análise contém limitações importantes e deve ser interpretada como uma estimativa aproximada da resiliência do sistema bancário.
Algumas dessas limitações são a qualidade dos dados; a simplificação das premissas dos testes de estresse; o foco exclusivo nos choques de crédito; as perspectivas incertas da Covid-19; o impacto da tolerância regulatória; a qualidade e extensão das medidas e políticas de apoio fiscal; e os efeitos de segunda ordem.
RECUPERAÇÃO DO CRESCIMENTO:
RECONSTRUINDO ECONOMIAS DINÂMICAS PÓS-COVID-19 EM MEIO A RESTRIÇÕES ORÇAMENTÁRIAS
Redução do espaço fiscal
Para reduzir os efeitos devastadores da pandemia sobre a atividade econômica, os países da América Latina e Caribe implementaram fortes políticas contracíclicas em 2020. Os pacotes de estímulo variaram desde pa-cotes relativamente pequenos, como no México (equivalente a menos de 2% do PIB) a outros muito amplos, como no caso do Brasil (mais de 10% do PIB). Conforme demonstram as figuras 1.21 e 1.22, os esforços fiscais ainda são predominantes em toda a região em 2021. Tais esforços resultaram em grandes déficits fiscais primários. Estima-se que o Chile, a Colômbia e o Peru, entre outros países, registrarão déficits acima de 4%
do PIB este ano.
Figura 1.21: Déficits fiscais gerais e primários amplos
Balanço fiscal na ALC, 2021f
Saldo geral Saldo primário -20
-15 -10 -5 0 5 10 15
Percentual do PIB
Bahamas São Vic. e Gran
BolíviaColômbia Chile Belize
Santa LúciaPanamá BrasilDominicaCosta RicaHondurasUruguai México Peru Haiti
BarbadosSurinameParaguai República Dominicana
El SalvadorNicaráguaGuatemalaGuiana JamaicaGranada
Fonte: Cálculos do Banco Mundial e da equipe.
Observação: f = previsão.
Figura 1.22: Grandes esforços fiscais continuam em 2021.
-16 -14 -12 -10 -8 -6 -4 -2 0 2
2018 2019 2020e 2018 2019 2020e 2021f 2018 2019 2020e 2021f 2018 2019 2020e 2021f 2018 2019 2020e 2021f 2018 2019 2020e 2021f 2018 2019 2020e 2021f 2018 2019 2020e 2021f
Argentina Brasil Chile Colômbia Ecuador Peru Uruguai México
Como um percentual do PIB
Balanço fiscal em países selecionados da ALC: América do Sul e México, 2018-2021
Saldo geral Saldo primário Fonte: Banco Mundial.
Observação: e = estimativa; p = previsão.
Fornecer o máximo alívio fiscal possível para as famílias e empresas durante o pior período da pandemia foi uma política sensata, que pode ter ajudado uma grande parcela da população a evitar uma catástrofe finan-ceira. Programas amplos de transferências sociais ofereceram um retorno econômico relativamente alto e sua manutenção pode ser necessária, pelo menos por enquanto. Posto isso, esses esforços fiscais foram implementados em um ambiente com espaço fiscal limitado e altamente financiado pela emissão de títulos da dívida pública, em sua maioria para investidores estrangeiros.
RECUPERAÇÃO
Figura 1.23: A dívida pública está aumentando.
2021 Média ALC 2021f Média ALC 2019 Índices da Dívida Pública em Relação ao PIB na ALC, 2021f
0
PeruParaguai Chile Guiana MéxicoHondurasEcuador
República Dominicana
Fonte: Cálculos da equipe do Banco Mundial.
Observação: f = previsão.
Os grandes aumentos nas razões da dívida pública podem ser considerados insustentáveis em termos fiscais por investidores internos e externos. Nesse caso, os desdobramentos podem afetar a classificação de crédito dos países e, consequentemente, limitar seu acesso aos mercados de crédito internacionais. A razão média entre dívida pública e PIB registrou um aumento de 15 pontos nos últimos dois anos, alcançando 75,38 (fi-gura 1.23). A fi(fi-gura 1.24 mostra como a deterioração da situação fiscal das maiores economias da região, tais como Brasil, Colômbia, Chile, Equador e Peru, foi acompanhada por significativos rebaixamentos de sua classificação de crédito, o que, por sua vez, manteve os spreads soberanos, isto é, o custo de fundos interna-cionais, relativamente altos (figura 1.25).
Figura 1.24: À medida que a dívida aumenta, cai a classificação de crédito.
Argentina
Dívida Bruta (como percentual do PIB)
Fitch ratings de crédito de longo prazo Fontes: Cálculos da Fitch Ratings e da equipe do Banco Mundial.
Observação: As setas indicam a variação de posições desde antes da pandemia até o final de 2020. A Argentina e o Equador sofreram inadimplências restritas durante o período da pandemia. As classificações do Brasil, da República Dominicana e do Peru não mudaram, mas a Fitch alterou a perspectiva desses países para negativa, prevendo possíveis rebaixamentos no futuro.
RECUPERAÇÃO DO CRESCIMENTO:
RECONSTRUINDO ECONOMIAS DINÂMICAS
RECONSTRUINDO ECONOMIAS DINÂMICAS