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UM MODO DE RESGATE DE NOSSA ANCESTRALIDADE

Mestre Jorge Rasta Presidente da Associação de Afro Desenvolvimento

Casa do Boneco de Itacaré

Inicialmente quero pedir autorização ao meu pai xangô para iniciar essa discussão. Sou Jorge Rasta, habito hoje em Itacaré, mas sou oriundo das favelas de Salvador. Favelas essas que são historicamente formadas pela migração das famílias do Recôncavo da Bahia que abandonaram suas terras, sendo atraídas pelas oportunidades que a urbanidade promete de uma vida melhor. O que chamo de colonização mental.

Nesta tentativa de alcançar melhor vida na cidade grande, essas famí-lias, que eram proprietários de pequenas terras, que tinham sua forma de pro-duzir seus alimentos e de se alimentar, terminam por abandonar sua história, abandonar seu patrimônio material, cultural e espiritual também. Sua ances-tralidade de matriz afroindígena é, portanto, abandonada neste processo de colonização mental que o urbanismo impôs a sociedade.

Então, esse diálogo com os povos ancestrais, quilombolas ou indígenas, que é tão importante para a manutenção da forma de vida desses povos, atra-vés da perpetuação da cultura, é novamente fragmentada e diminuída. Digo novamente, pois o processo de escravização pelo qual nossos ancestrais pas-saram, de colonização branca, foi também um processo que tinha por obje-tivo enfraquecer a história de vida dos povos negros e indígenas da América, do Brasil.

Deste modo, uma maneira que entendo de promover o resgate do modo de vida, do patrimônio cultural e espiritual, de nossa ancestralidade, neste contexto da urbanidade é trabalhar ações e projetos com a juventude destas favelas urbanas, destes quilombos urbanos, que promovam a união entre povos afro indígenas como forma de garantir o empoderamento desta população através da perpetuação dos saberes que habitaram as mentes de seus familiares ao longo da história.

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Assim, os movimentos indenitários, como o Movimento Negro Unifi-cado (MNU), e o contato com pessoas representativas do modo de pensar ideológico afro indígena, são fundamentais para que não haja uma desfolclo-rização e, por conseguinte, o não reconhecimento e valodesfolclo-rização de aspectos culturais e religiosos de nossos ancestrais.

O desenvolvimento destas ações de resgate cultural nas comunidades das favelas de Salvador, de exaltação do conteúdo da africanidade, termina por se caracterizar como uma reparação para com aquelas famílias que um dia abandonaram seu modo de viver para lutar pela sobrevivência na capital do estado.

Trazendo este debate para o centro da discussão deste evento sobre o turismo de base comunitária, afirmo que é preciso ir além de um modelo já imposto de turismo comunitário, onde os elementos da natureza, como rios, mares, florestas e matas, ou elementos construídos pelos homens brancos, como os fortes, as muralhas, as chamadas rugosidades espaciais miltonianas, são os mais valorizados no que se refere a atratividade ao visitante.

Isso, por muitas vezes, termina por afastar a juventude do envolvimento com o desenvolvimento do turismo de base comunitária. O jovem atual faz coisas espetaculares que podem ser inseridas no turismo de base comunitária como um elemento específico de cada comunidade nas favelas como o grafite, o rapper, a copeira, o áudio visual, a expressão artística da musicalidade e da poesia etc.

Ao valorizarmos as ações executadas por jovens moradores das fave-las dos centros urbanos e trazê-fave-las para o centro das atividades de turismo comunitário, estamos ao mesmo tempo inserindo estes jovens na valorização de suas comunidades e perpetuando um modo de vida que é oriundo das comunidades rurais do Recôncavo Baiano de onde as famílias destes jovens migraram. É, portanto, um resgatar do modo de vida rural de nossas ances-tralidades através de suas manifestações artístico cultural.

O turismo comunitário tradicional é uma massa fumacenta de explora-ção humana onde a populaexplora-ção antiga é excluída, não sendo permitido apre-sentar seus aspectos culturais e religiosos em plenitude, e a juventude é levada a reproduzir uma beleza que caiba nos olhos dos estrangeiros.

Sustentabilidade, saberes e vivências no rural baiano | 173 O turismo de base comunitário, a meu ver, é antes de tudo instrumento de luta, de fortalecimento e de empoderamento das comunidades faveladas e excluídas. As atividades, passeios não devem ser moldados meramente a partir dos elementos que possam causar atratividades às pessoas habitantes de outros lugares, cidades, países. Mas sim ser, antes de tudo, um elemento de aglutinação, de aproximação dos iguais a fim de nos fortalecer.

As comunidades precisam se visitar. Precisam se conhecer. Precisam saber dos aspectos culturais e religiosos afro indígenas e valorizar estes aspec-tos. Encontrar meios de fortalecimento da luta pela resistência dos povos negros a partir do turismo comunitário é essencial para a perpetuação de nossa ancestralidade.

As comunidades precisam, sobretudo, valorizar sua juventude e trazê-la para a centralidade do turismo de base comunitário como forma dar susten-tação a este importante instrumento de luta que é o turismo de base comuni-tária. Valorizar as ideias e ações da juventude neste contexto de modernidade, mas também orientá-la para o reconhecimento da tradição, das ideias e ações de nossos antepassados.

Por fim, quero falar da importância do diálogo coletivo entre as comu-nidades de turismo existentes na Bahia. Somos nós que precisamos nos encontrar, dialogar e apresentar ao Estado a nossa perspectiva de turismo comunitário. E não aguardar o Estado definir o modo de atuar neste seg-mento e nós acatarmos e realizarmos.

É preciso dialogar entre nós para identificar quais elementos são neces-sários para o resgate da tradição afroindígena, para o enfrentamento da inva-são cultural e para o empoderamento da população rural que ainda habita nos ambientes rurais, e da população rural habitantes das favelas urbanas.

Quero ressaltar, com isso, que a presença da juventude no turismo comunitário, associada à presença dos mais velhos, é um elemento funda-mental para dignificar e exaltar todas as nuances culturais que caracterizam nosso povo descendente de africanos e indígenas.

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VIVERTUR – TURISMO COMUNITÁRIO EM