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1 CONTINUANDO A VIAGEM

1.3 ESCOLHENDO COORDENADAS

1.3.1 UM MODO DE VER A PAISAGEM A GOVERNAMENTALIDADE

Durante o desenvolvimento da pesquisa, a partir do contato com os materiais e na medida em que ia encontrando formas para extrair os fragmentos, a governamentalidade foi se constituindo numa ferramenta-bússola de navegação. Por isso, fui em busca das contribuições de Michel Foucault, valendo-me mais propriamente do texto “A governamentalidade” – lição do Curso do Collège de France, ministrado em 1º de fevereiro de 1978 – e de alguns autores para apresentar e discutir, mesmo que brevemente, esta noção.

No texto “A governamentalidade” Foucault apresenta esta noção ao caracterizar a ruptura entre o que chama de soberania – cuja maior preocupação era o território – e o surgimento daquilo que chama de governamento. Sobre este último ele diz: “não se trata de impor uma lei aos homens, mas de dispor as coisas, isto é, de utilizar mais táticas do que leis, ou utilizar leis como táticas” (FOUCAULT, 2012a, p. 284).

Segundo Foucault (2012a), o problema de governamento aparece de modo geral no século XVI com relações a questões bastante diferentes e sob múltiplos aspectos: problema do governo de si mesmo, das almas e das condutas, das crianças e o problema do governo dos Estados pelos príncipes, ou seja, “como se governar, como ser governado, como fazer para ser o melhor governante possível, etc.” (FOUCAULT, 2012a, p. 278).

Para o autor, essa problemática se coloca no encontro de dois movimentos: o movimento de concentração estatal e o movimento de dispersão e dissidência religiosa, sendo que o mais relevante nesse processo é perceber de que forma o significado amplo de governo e governamento foi sendo apropriado pelo Estado (VEIGA-NETO, 2002), tornando-o governamental e, como, ao se transformar, encontra condições de sobrevivência.

A partir de uma vasta literatura sobre governo, Foucault (2012a) isola alguns pontos importantes que dizem respeito à definição do que se entende por governo

de Estado – o governo em sua forma política – e, com esse objetivo, opõe esta literatura ao texto “O Príncipe” de Maquiavel, por ser o único texto que se constitui como um ponto de repulsão em relação à literatura do governo do século XVI ao século XVIII. O que interessa para o autor, ao analisar essa literatura – que denomina como anti-Maquiavel –, não é o seu aspecto negativo, mas a sua positividade na substituição da habilidade do príncipe em conservar seu principado por uma arte de governar.

As teorias da arte de governar procuram estabelecer uma continuidade ascendente e descendente: ascendente porque quem quiser governar o Estado, primeiro, precisa saber governar a si próprio e ainda tratar adequadamente sua esposa e seus filhos. Continuidade também descendente, pois, em um Estado bem governado, os pais de família também saberão governar adequadamente suas famílias, seus bens e propriedades, assim como quaisquer pessoas poderão se governar como convém (CANDIOTTO, 2010).

Nos dois casos, o elemento central da continuidade é o governo da família, que se chama de economia. Portanto, a arte de governar deve responder a seguinte questão: “como introduzir a economia – isto é, a maneira de gerir corretamente os indivíduos, os bens, as riquezas, no interior da família – ao nível de um Estado?” (FOUCAULT, 2012a, p. 281). Desta forma, no século XVIII, a economia vai designar um nível de realidade, um campo de intervenção do governo. O território e a propriedade passam a ser apenas variáveis, pois o essencial passa a ser o governo dos homens e as suas relações com as coisas.

A arte de governar encontra, no final do século XVI e no início do século XVII, uma primeira forma de estrutura: a organização em torno de uma razão de Estado que “busca no exercício e no reforço do Estado a legitimação de uma governamentalidade crescente e a regulamentação de seu desenvolvimento” (CANDIOTTO, 2010, p. 40). Porém, devido a um quadro muito vasto de soberania e a um modelo inconsistente da família, esta razão de Estado se constituiu em um obstáculo para o desenvolvimento da arte de governo.

De acordo com Foucault, o desbloqueio da arte de governo pode ser associado a três fatores: o deslocamento da família do nível de modelo ao nível de instrumento para o governo da população – como, por exemplo, por meio das campanhas contra a mortalidade, as campanhas de vacinação, as campanhas relativas ao casamento, etc. –; o aparecimento da população como objetivo final do

governo; e a passagem da arte de governo para uma ciência política, que ocorre no século XVIII em torno do nascimento da economia política.

A partir do século XIX, o exercício do poder vai se dar dentro dos limites de um direito de soberania e um mecanismo de disciplina. É importante salientar que ao identificar a sociedade moderna como disciplinar, Foucault não afirmou o desaparecimento da soberania, assim como uma sociedade governamentalizada não substituiu uma sociedade disciplinar (CANDIOTTO, 2010). O que ocorre é que as disciplinas e a questão governamental estão articuladas.

Por “governamentalidade” entendo o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, os cálculos e as táticas que permitem exercer essa forma bem específica, ainda que complexa, de poder que tem por alvo principal a população, por forma maior de saber a economia política, por instrumento técnico essencial os dispositivos de segurança. Segundo, por ‘governamentalidade’ entendo a tendência, a linha de força que, em todo o Ocidente, não cessou de conduzir, e desde muito tempo, à preeminência desse tipo de poder que podemos chamar de “governo” sobre todos os outros: soberania, disciplina, e que trouxe, por um lado, o desenvolvimento de toda uma série de aparelhos específicos de governo [e, por outro lado], o desenvolvimento de toda uma série de saberes. Enfim, por “governamentalidade”, creio que se deveria entender, o processo, ou antes, o resultado do processo, pelo qual o Estado de justiça da Idade Média, que nos séculos XV e XVI se tornou o Estado administrativo, viu-se pouco a pouco “governamentalizado” (Foucault, 2012a, p. 111-112).

Assim, pode-se dizer que é na Modernidade que emerge a governamentalidade, com a entrada da população no pensamento político e as ações de cálculos para maximizar suas forças e de cada indivíduo na minimização de seus problemas. Dessa forma, seu estudo implica na “análise de formas de racionalidade, de procedimentos técnicos e de formas de instrumentalização” (CASTRO, 2016, p. 191).

No desenvolvimento da obra de Foucault é possível ver que a compreensão de governamentalidade também abarca outros sentidos como o exame das artes de governar que incluem “o estudo do governo de si (ética), o governo dos outros (as formas políticas da governamentalidade) e as relações entre o governo de si e o dos outros” (Castro, 2016, p. 191). O próprio Foucault (2008a), no curso Nascimento da Biopolítica, apresenta a governamentalidade como uma grade para analisar os modos de exercício de governo: “o que propus chamar de governamentalidade não é mais que uma proposta de grade de análise para essas relações de poder” (FOUCAULT, 2008a, p. 258).

Nessa perspectiva de pensamento é importante destacar que a noção de governamentalidade também pode ser entendida como “o encontro entre as técnicas de dominação exercidas sobre os outros e as técnicas de si” (FOUCAULT, 1994, p. 2). Dessa maneira, é possível perceber um alargamento da noção de governamentalidade e um entendimento de que poderíamos utilizá-la como lentes (NOGUERA-RAMÍREZ, 2013) que nos “permite ver o exercício de diferentes racionalidades e suas intrínsecas relações com o poder e com o governo23 dos

outros flexionados a um governo de si” (MACHADO, 2016, p. 68).

Segundo minha perspectiva, a governamentalidade não é o objeto de estudo de Foucault, pois funciona como um instrumento, como uma ferramenta, como lentes que Foucault cria para trabalhar sobre o problema (NOGUERA-RAMÍREZ, 2013, p. 73).

Nesse sentido, o uso que faço da noção de governamentalidade como uma lente - uma ferramenta que me permite operar a análise - para enxergar algumas condições, tramas e ressonâncias na produção do professor alfabetizador também me ajuda a pensar no cenário político e econômico que atua sobre os vários aspectos da vida contemporânea e, em especial, da educação.

Narrar os vestígios provisórios que produzo e os meus desdobramentos de pesquisa fazem parte da perspectiva a qual me inspiro para escrever essa Dissertação. Portanto, é no modo dizer e de registrar minha experiência que apresento minha estratégia metodológica e os deslocamentos que possibilitam (des)encontros nessa trajetória que, inspirada nos estudos foucaultianos, vai me constituindo em uma experimentadora e não em uma teórica (FOUCAULT, 2004).

No capítulo seguinte, narro os rastros encontrados na produção científica e na legislação sobre a produção do professor alfabetizador.

23 Apenas para situar melhor o lugar de onde falo, utilizo-me da indicação de Veiga-Neto (2002) para

sinalizar o uso que faço dos termos Governo, governo e governamento. A palavra Governo – com g maiúsculo –, refere-se a uma instância administrativa, hierarquizada, quase sempre centralizada e muitas vezes burocrática. As palavras governamento e governo fazem referência às ações que se distribuem capilarmente pelo tecido social – os modos de condução das condutas dos indivíduos.

2 ESCOLHENDO ITINERÁRIOS - NO RASTRO DAS PRÁTICAS DE PRODUÇÃO