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social e de maior igualdade de direitos”.191 Então, nota-se que a licença-parental deve ser encarada como um dos meios para promover oportunidades equivalentes entre homens e mulheres, possibilitando à esta disputar espaços profissionais em melhores condições.
4.2. Um olhar a partir dos casais homoafetivos
Os novos cenários de entidades familiares fazem reconhecer outras realidades afetivas, como a família homoafetiva. Como abordado no capítulo anterior, as possibilidades de homossexuais terem filhos são vastas, e assim sendo, essas crianças (bem como a própria família) também devem ter proteção. Entretanto, não há uma proteção exclusiva desse novo arranjo familiar, sendo apenas baseada nas licenças maternidade e paternidade já existentes.192
Como destacado, a Lei nº. 12.873/2013 possibilitou que nos casos de adoção, a escolha de quem retiraria a licença-maternidade coubesse aos pais: “O ordenamento jurídico pátrio, portanto, passa a cuidar de uma realidade já presente na sociedade brasileira, igualando os direitos dos homens e das mulheres nos casos de adoção. Tem-se, assim, uma grande evolução legislativa, livre de ideais conservadores, a qual vem a favorecer a constituição e o fortalecimento dos laços afetivos”.193
Entretanto, foi falha no que consta às outras formas de filiação, já que não trata da possibilidade de escolha para além da adoção (estando os casais submetidos às licenças maternidade e paternidade ordinárias). Para os casais homoafetivos que não desejem a filiação por adoção, a lacuna pode até mesmo negar qualquer período de licença.194 De qualquer sorte, já foi defendido que essa possibilidade de escolha nos casos de adoção possa ser estendida para todos os casos.
Porém, antes mesmo da própria previsão legal, decisões judiciais já garantiam a licença-maternidade para um dos integrantes do casal (no caso de filiação por duas mulheres, a situação gera menos empecilhos legais, já que uma delas poderia usufruir da licença-maternidade)195, como se exemplifica no seguinte caso:
191 PINHEIRO; GALIZA; FONTOURA, op. cit., p. 858
192 MATOS; DA SILVA, op. cit., p. 21. O que resulta uma série de questionamentos sobre a aplicabilidade dos institutos para casais homoafetivos, conforme apontado no capítulo anterior.
193 IBALDO, Hallana. LICENÇA-MATERNIDADE: UM ESTUDO ACERCA DA EVOLUÇÃO JURÍDICOPOSITIVA DA EXTENSÃO DO INSTITUTO AOS CASAIS HOMOAFETIVOS ADOTANTES. Disponível em: <https://goo.gl/U18zLw>. Acesso em 26 de outubro de 2016. p. 24.
194 Como no caso de dois homens optarem por fertilização in vitro em parceira feminina, em que nenhum deles teria direito à licença-maternidade, a princípio.
195 Entretanto, já há casos de dupla licença-maternidade para um casal de mulheres – o que seria ideal em qualquer família, já que permite o convívio de ambos os pais durante os primeiros dias de contato da criança
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Um servidor público federal de Campo Grande (MS), que mantém união homoafetiva, conseguiu na Justiça o direito de licença-maternidade integral em razão da obtenção da guarda judicial conjunta de uma criança de menos de um ano.
(...) Na decisão, o relator do caso disse que “o órgão especial deste Tribunal considerou inconstitucional o art. 210 da Lei nº. 8.112/90, por violar o art. 227, § 6º da Constituição da República, que proíbe a discriminação dos filhos, havidos ou não do casamento, ou por adoção, assegurando- lhes os mesmos direitos e qualificações (TRF da 3a Região, MS n. 2002.03.026327-3, Rel. Des. Fed. André Nabarrete, j.
24.11.05). Na oportunidade, restou consignado que a licença é direito também do filho, pois sua finalidade é ‘propiciar o sustento e o indispensável e insubstituível convívio, condição para o desenvolvimento saudável da criança’, razão pela qual a adotante faria jus ao prazo de 120 (cento e vinte dias) de licença remunerada”.196
Com o advento da Lei nº. 12.873/2013 a via administrativa se tornou mais viável (não dependendo do Judiciário, que em muitos casos pode ser moroso), que também garantiu espaço para possiblidade de escolha entre o casal (no caso de ambos serem segurados), conforme notícia veiculada em cinco de junho de 2015 (grifou-se):
Paraná - O INSS de Curitiba, no Paraná, concedeu salário-maternidade a um trabalhador gay casado há oito anos com seu companheiro. O casal adotou duas crianças — uma de menina de 8 anos e um menino de 9 — e um dos segurados que trabalha na iniciativa privada teve reconhecido o direito a quatro meses de licença maternidade, conforme previsto pela Lei 12.837/13. A legislação estende o benefício a homens que têm a guarda judicial para fins de adoção de filhos. É o primeiro caso de pai adotante a contar com o auxílio no estado do Paraná. (...) Segundo Fernando, a opção de fazer o pedido do benefício à Previdência Social foi de fundamental importância para o desfecho do processo de adoção dos dois menores e para adaptação dos novos componentes da família. “Essa opção de um de nós ficar dentro de casa nesses primeiros meses foi fundamental para a rápida adaptação deles, sobretudo para eles se sentirem seguros em relação à nossa intenção de ser pais deles e de não abandoná-los”, argumentou Fernando, após o casal ter cumprido exigência da assistente social de passar uma semana convivendo com as crianças em Foz do Iguaçu. Com a rotina e horários de trabalho mais difíceis, Fernando, que é supervisor de telecomunicações, foi o beneficiado pela licença maternidade do INSS. Iury é servidor público e possui jornada mais flexível, a ponto de conseguir ir almoçar em casa com a família. Eles aguardam agora a confirmação da guarda definitiva para que as crianças possam adotar os sobrenomes dos pais nas documentações.197
Assim, fica evidenciado que nos casos de homoparentalidade, antes mesmo da previsão legal, o casal já tinha mais liberdade para definir quem usufruiria da
com a família. As peculiaridades do caso levaram ao deferimento da dupla licença, pois os óvulos de uma das mulheres foram implantados na esposa que geraria os gêmeos. Ainda, ambas as mães amamentariam os filhos, facilitando a aceitação do pedido. ESTADÃO. Casal de mulheres tem licença-maternidade. Disponível em:
<https://goo.gl/TvE9KD>. Acesso em 26 de outubro de 2016.
196 CONSULTOR JURÍDICO. Servidor gay tem direito a licença-maternidade. Disponível em:
<https://goo.gl/lv9ED>. Acesso em 26 de outubro de 2016.
197 O DIA. INSS concede salário maternidade a casal gay que adotou dois filhos. Disponível em:
<https://goo.gl/ANFTtR>. Acesso em 26 de outubro de 2016.
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maternidade, de acordo com a sua realidade familiar. “Portanto, a conexão menos óbvia entre sexo e gênero nos casais homossexuais pode propiciar relevantes reinvenções de institutos engessados e incorporados pelos casais heterossexuais. Nesse âmbito é que se trata da
‘licença homoparental’”.198
Por isso, há uma aparente aproximação do instituto da licença-parental – não de forma integral, pois ainda não há a possibilidade de fracionar o período entre o casal, nem mesmo um período comum para ambos. Portanto, nos casos de casais homoafetivos, essa escolha sempre existiu199, e com base nessa experiência podemos repensar os papéis de mãe e pai dos casais heterossexuais. Isso porque:
Em casais do mesmo sexo, porém, as fronteiras são menos evidentes, porque não há, a priori, um(a) responsável pelo aspecto econômico e outro(a) pelo aspecto afetivo.
Não por menos, as parentalidade gays, lésbicas têm o potencial para a reinvenção do instituto da licença-maternidade. Por isso, podem as experiências heterossexuais toma-las como base para a superação de alguns estigmas há muito enraizados.200
Nesse contexto, a licença-parental tem se mostrado um instituto que de certa forma faz parte da realidade homoafetiva, ao contrário das relações heterossexuais, que mesmo em casos de adoção (e a consequente possibilidade de o homem retirar a licença-maternidade, de acordo com a lei nº. 12.873/2013), há um número ínfimo de homens quem solicitam a licença-maternidade. Portanto, “sustenta-se, com isso, a relevância do diálogo construtivo entre vivências afetivas hetero e homossexuais. Não se deve resumir, a reflexão, à análise daquelas realidades em dos direitos destas, através de lentes reducionistas e desatentas dos corolários da alteridade”.201 Assim, fica demonstrado que as famílias homoafetivas têm muito a contribuir para democratização das relações familiares, destacando no presente texto a não conformação com os papéis tradicionalmente atribuídos de acordo gênero.
Por fim, ainda há espaço para afirmar de que as relações homoafetivas não estão isentas dos paradigmas da discriminação de gênero. O debate, por esta razão, também deve incluir esses vínculos, e, nas palavras de Daniel Welzer-Lang:
A adoção de uma problemática crítica quanto ao duplo paradigma que estrutura o masculino propõe também uma renovação dos debates atuais nas ciências sociais ou em outros lugares. A consideração de uma análise não-heteronormativa abre os 198 MATOS; DA SILVA, op. cit., p. 21.
199 Ressalta-se que “sempre existiu” desde o curto período em que esses casais foram considerados capazes para criar uma criança. Isso porque a maioria das conquistas dos homossexuais são recentes e até menos de uma década atrás ainda era difícil para um casal homoafetivo adotar uma criança conjuntamente.
200 MATOS; DA SILVA, op. cit., p. 21.
201 MATOS; DA SILVA, op. cit., p. 23.
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espaços de discussão, questiona nossos pressupostos sobre os homens e o masculino.
No momento, nos textos que se querem progressistas e não-excludentes, aqueles que colocam em evidência um heterossexismo diferencialista, uma nota de pé de página nos informa que o autor considera que sua análise vale também para os/as homossexuais. Claro que eles/elas existem. Mas a questão não é tanto de visibilizar sua existência como integrar sua presença nas análises, questionar os pressupostos naturalistas que organizam sua invisibilização.202
Assim, ainda que não haja uma pré-disposição203 de qual dos pais ou mães retirará a licença-maternidade, que aqui podemos definir como licença-parental homoafetiva, há espaço, infelizmente, para a manutenção da discriminação de gênero: “(...) estrutura o masculino de maneira paradoxal e inculca nos pequenos homens a ideia de que, para ser um (verdadeiro) homem, eles devem combater os aspectos que poderiam fazê-los serem associados às mulheres”.204
Portanto, não obstante as famílias homoafetivas205 poderem representar uma maior expressividade quanto à desnaturalização das tarefas domésticas, estas carregam a possibilidade de lidar com a dominação masculina. Desta forma, ainda há muitas lutas a serem travadas para atingir a igualdade de gênero.
202 WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Disponível em: <https://goo.gl/Mloh0X>. Acesso em 26 de outubro de 2016. p. 473-474.
203 O que se quer demonstrar é que não há uma determinação legal, mas isso não exclui que haja, no âmbito do casal, uma pré-disposição.
204 WELZER-LANG, op. cit. p. 462.
205 Ainda podemos citar a crítica sobre a noção de família/parentalidade heterossexual. Judith Butler afirma que o modelo de família buscado (casamento, filiação, etc.) é de matriz heterossexual, mas que não necessariamente atinge outras formas de convívio: “(...) Nesse sentido, as relações de parentesco atingem fronteiras que põem em questão a distinção entre parentesco e comunidade, ou que clamam por uma concepção diferente de amizade. Isso se constitui numa "ruptura" do parentesco tradicional que não somente desloca o lugar central das relações biológicas e sexuais de sua definição, mas confere à sexualidade um domínio separado daquele do parentesco, permitindo também que um laço durável seja pensado fora da moldura conjugal e abrindo o parentesco a um conjunto de laços comunitários que são irredutíveis à família”. BUTLER, Judith. O parentesco é sempre tido como heterossexual? Disponível em: <https://goo.gl/45jf3I>. Acesso em 26 de outubro de 2016. p. 255-256.
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