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Um Olhar Sensível para os Atrasos e Defasagens no Desenvolvimento da

2 MARCO TEÓRICO

2.5 Um Olhar Sensível para os Atrasos e Defasagens no Desenvolvimento da

Um olhar específico para os atrasos e defasagens no desenvolvimento

da linguagem é deveras importante, uma vez que essas questões ainda não

são tratadas de forma adequada na realidade brasileira. Alguns autores que se

dedicam a essa questão, tem compartilhado dados preocupantes, que

explicita-se na explicita-sequência.

Zorzi (2000) percebeu, em suas investigações, que na realidade

brasileira há uma tendência de que os déficits no desenvolvimento da

linguagem na infância sejam considerados passageiros e espera-se que com o

tempo sejam resolvidos. O autor destaca que em alguns casos, os atrasos e

dificuldades no desenvolvimento da linguagem tem causas simples, fáceis de

serem corrigidas, mas em outros podem indicar defasagens importantes no

desenvolvimento que precisam de uma atuação imediata. Dentre vários

transtornos no desenvolvimento o autor ressalta a deficiência intelectual, a

surdez e o autismo.

Zorzi (2000) alerta que a melhor compreensão do desenvolvimento da

linguagem pode auxiliar o desenvolvimento de medidas preventivas, já que o

desenvolvimento da linguagem não ocorre sozinho e traz consigo o

desenvolvimento de capacidades sociais, afetivas e intelectuais. Dito isso, o

autor alerta sobre a consequência de que outros aspectos do desenvolvimento

sejam afetados. Para a detecção precoce exercem papel decisivo o pediatra,

os familiares e educadores que convivem com a família e acompanham o

desenvolvimento da criança.

A preocupação com a dificuldade no diagnóstico precoce e no

acompanhamento do desenvolvimento da linguagem da criança é

compartilhada por Bessa e Lima (2007), que destacam a necessidade de que

sejam utilizados instrumentos que possibilitem a avaliação da linguagem da

criança, bem como a intervenção precoce a fim de evitar dificuldades que

possam interferir negativamente no desenvolvimento infantil.

Rotta (2006, p. 141) aponta como fatores de risco para o

desenvolvimento da linguagem a hereditariedade, infecções congênitas,

drogadição materna, prematuridade, asfixia perinatal, icterícia, meningites,

articulação com problemas de desenvolvimento, síndromes, distrofia muscular,

hidrocefalia, neurofibribromatose, psicopatias e ambiente familiar conturbado.

Riech (2008), que pesquisou o impacto do nascimento do pré-termo

com baixo peso nas funções neuropsicológicas de escolares e levantou

importantes dados acerca dos riscos da prematuridade e o baixo peso ao

nascimento para o desenvolvimento infantil. Os dados encontrados pela autora

sugerem maior comprometimento nas habilidades tátil-cinestésicas,

viso-construtivas, viso-motora e memória visual; dificuldades no desempenho

escolar de aritmética e leitura; frequência maior de transtornos de

aprendizagem e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. A autora ainda

alerta sobre um risco ainda maior, o fato de que condições

socioeconômico-culturais e educacionais potencializam as dificuldades dessas crianças. Por

isso, sugere a necessidade de acompanhamento e intervenção precoce dessas

crianças, a fim de minimizar suas dificuldades e potencializar o

desenvolvimento infantil.

O caráter preventivo e a importância da atenção precoce da linguagem

como forma de prevenção de futuros distúrbios de aprendizagem, como a

dislexia, foram elucidados por Schirmer, Fontoura e Nunes (2004). Esses

autores ressaltam que em uma análise do desenvolvimento da linguagem

sejam considerados os aspectos afetivos e emocionais da criança e destacam

os três primeiros anos de vida como essenciais.

A identificação precoce de distúrbios da linguagem oral é

fundamental, pois tais alterações podem comprometer não somente o

desenvolvimento linguístico da criança, mas também a escolarização

formal e os relacionamentos pessoais. É importante, portanto, avaliar

habilidades que fazem parte do desenvolvimento normal da

linguagem oral, especialmente em crianças de educação infantil, pois,

muitos dos distúrbios de linguagem oral podem ser amenizados com

tratamento, principalmente quando diagnosticados no seu início e

tratados oportunamente, possibilitando reduzir não somente os

distúrbios orais, mas também a incidência ou a gravidade dos

problemas secundários na alfabetização (FERRACINI, et al. 2006, p.

125).

Esses autores enfatizam a importância da detecção e quando

necessário, do tratamento precoce no caso dos distúrbios de desenvolvimento

da linguagem e indicam para tanto, o uso de instrumentos adequados, que

avaliem a linguagem expressiva e receptiva. No entanto, alertam que há

poucos instrumentos para avaliar o desenvolvimento da linguagem de crianças

de três a cinco anos em âmbito nacional (FERRACINI,

et al., 2006, p. 125).

Essas idéias são compactuadas por Andrade (1997), que sugere que a

consequência das desordens no desenvolvimento da linguagem são as

dificuldades no relacionamento interpessoal, as sequelas emocionais e

dificuldades na escolarização. Como outro agravante, a autora aponta a

existência de poucos estudos brasileiros na área do desenvolvimento da

linguagem e quando ocorrem, em sua maioria, são pautados nos aspectos

auditivos. Aponta também a falta de estrutura do sistema de saúde no que se

refere ao atendimento de desordens de comunicação, especialmente com a

escassez de recursos humanos para o diagnóstico e atendimento de desordem

no desenvolvimento da linguagem e o despreparo dos fonoaudiólogos para o

atendimento de programas de saúde coletivos.

Complementando as ideias sobre a integração entre profissionais da

saúde e educação, Oliveira e Natal (2011) ressaltam que o desenvolvimento

infantil passou a ocupar lugar de destaque nos cenários nacional e

internacional e com isso, influenciou a fonoaudiologia, que deixou de atuar

exclusivamente no espaço clínico, para atuar também no espaço educacional.

Segundo as autoras, esse aspecto foi evidenciado na Resolução nº 309, de

2005, do Conselho Federal de Fonoaudiologia, que atesta que:

(...) o fonoaudiólogo deve desenvolver ações em parceria com os

educadores, que contribuam para a promoção, aprimoramento e

prevenção de alterações dos aspectos relacionados à audição,

linguagem (oral e escrita), motricidade oral e voz que favoreçam e

otimizem o processo de ensino e aprendizagem.

Nesse sentido, a parceria entre educador e fonoaudiólogo visa articular

os saberes desses dois profissionais de modo a promover condições para o

desenvolvimento satisfatório das crianças.

Rodrigues (2003) observou em sua pesquisa que o desenvolvimento

infantil pode ser otimizado a partir da identificação precoce do bebê, o

encaminhamento para estimulação sistemática do mesmo e o apoio emocional

aos pais a partir de um trabalho integrado com a família.

A autora explica que normalmente, os bebês que apresentam alguma

alteração em seu desenvolvimento, são encaminhados para serviços de

intervenção precoce, nos quais se encontram crianças com deficiências e

síndromes mais severas, o que cria um estigma para que a família leve o bebê

a esses locais. Como uma alternativa para essa situação, a autora sugere a

utilização de escalas de desenvolvimento com a participação dos familiares, já

que esse instrumento pode ser adequado à dificuldade da criança, em um

clima de maior descontração e envolvimento da família.

Rodrigues (2003) também percebeu que as intervenções realizadas

pelos avaliadores despertavam o interesse dos pais em intervenções e

brincadeiras que favorecem o desenvolvimento infantil e podem otimizar o

desenvolvimento de bebês em situação de risco.

Ainda sobre os programas de intervenção precoce e acompanhamento

de desenvolvimento linguístico, em sua pesquisa, Oliveira e Hekavei (2009)

constataram que ocorreu evolução no desenvolvimento motor e lingüístico das

crianças quando as mães participaram de maneira mais ativa dos programas

de intervenção precoce, pois compreenderam de que forma ocorre o

desenvolvimento de seus filhos. Os autores ressaltam a importância de que

profissionais envolvidos nos programas de intervenção precoce conheçam as

concepções das mães e cuidadores, pois essas concepções norteiam as

práticas e exercem impacto direto sobre o desenvolvimento das crianças.

Lima et. al. (2004) pesquisaram o desenvolvimento da linguagem, das

funções auditiva e visual em cento e quinze bebês de três a doze meses de

idade no contexto da creche. Para tanto, as autoras utilizaram as Escalas de

Desenvolvimento Bayley II e os o Teste de Qui- quadrado ou Exato de Fisher.

Os resultados dessa pesquisa sugerem que não foram encontradas

defasagens no desenvolvimento dos lactentes, o que corroborou para as

conclusões das autoras de que a creche pesquisada propicia condições para o

desenvolvimento da linguagem e das funções auditiva e visual. Apesar dos

resultados satisfatórios com relação ao trabalho realizado na creche, os

pesquisadores ainda reforçam a necessidade de integração entre as áreas de

saúde e educação.

2.6 Atenção Precoce e Desenvolvimento da Linguagem Infantil

A atenção precoce pode ser definida como:

[...] O conjunto de intervenções, dirigidas a população infantil de 0- 6

anos, a família e ao entorno, que tem por objetivo dar respostas o

mais rápido possível à necessidades transitórias ou permanentes

que apresentam as crianças com transtorno em seu desenvolvimento

ou que tem risco de apresentá-los. Essas intervenções, que devem

considerar a globalidade da criança, devem ser planejadas por uma

equipe de profissionais de orientação interdisciplinar ou

transdisciplinar. (GAT: 2000)

Sendo assim, a atenção precoce consiste em um conjunto de

intervenções destinadas às crianças, às famílias e ao entorno, na busca por

atender necessidades provisórias ou permanentes das crianças e de seus

familiares. O enfoque utilizado na atenção precoce é biológico, psicossocial,

educativo e interpessoal, exercido por uma equipe interdisciplinar ou

transdisciplinar (GAT: 2000).

Os programas de atenção precoce consideram a infância como uma

etapa crucial para o desenvolvimento humano, nos aspectos físico, emocional

e cognitivo e destacam a necessidade de que crianças com atrasos no

desenvolvimento sejam submetidas a um programa eficaz de intervenção

precoce, para que as defasagens não exerçam prejuízo sobre as interações da

criança com o meio.

Com isso, o modelo de atenção precoce prima pela observação,

avaliação e acompanhamento do desenvolvimento infantil. Para tanto, utiliza

testes, escalas de desenvolvimento, observação sistemática da criança em

contextos naturais de interação (GAT, 2000).