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CAPÍTULO 3. AS TECNOLOGIAS WEB EM CONTEXTO

3.1 Um olhar sobre a cultura local

A definição de cultura, atribuída pela UNESCO em 2002, remete para um “conjunto de características distintas, espirituais e materiais, intelectuais e afetivas, que caracterizam uma sociedade ou um grupo social” que “engloba, além das artes e letras, os modos de viver, os direitos fundamentais dos seres humanos, os sistemas de valor, as tradições e as crenças” (UNESCO, 2002).

Contudo, é igualmente relevante salientar a forma como as sociedades e grupos subsistem, abrindo a definição e abrangendo a importância da economia, da gastronomia, da arte, da religião, entre outras (Borba & Sousa, 2013). De igual modo, deve salientar-se a importância da tecnologia e dos indivíduos e grupos diretamente ligados à produção e promoção da cultura.

Paralelamente à cultura, o património (sob todas as suas formas) deve ser “preservado, valorizado e transmitido às gerações futuras como testemunho da experiência e das aspirações humanas” passadas, com vista à fomentação da “criatividade em toda a sua diversidade” e do “diálogo entre as culturas” (UNESCO, 2002).

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Por diversas vezes, como é o caso da CMAH e da presente investigação, as tradições são incorporadas no campo cultural. Visto que a cultura é um processo dinâmico que atravessa o tempo e o espaço, ela também estrutura práticas e sociabilidades que alteram o seu sentido continuamente. Assim, a tradição veicula “um sentido de presença e de identidade aos atores sociais” (Moura, 2002). As festas, rituais e eventos populares permitem compreender a transversalidade sociocultural e as diferenças identitárias. A identidade ganha sentido na possibilidade de viver a tradição, que é por sua vez fundada nas exteriorizações e atividades culturais locais (Moura, 2002).

Estas mesmas atividades, iniciativas, rituais ou tradições representam uma mais- valia para as localidades, visto que podem ter um retorno económico (como acontece com algumas tradições na ilha Terceira mencionadas anteriormente), criar novos fluxos de bens culturais e procura (Moura, 2002; UNESCO, 2002).

Além desta conexão direta entre a cultura e o desenvolvimento socioeconómico, a União Europeia (UE) acrescenta: a reabilitação do ambiente físico; a promoção do crescimento local de forma criativa e inovadora; a atração e retenção de indivíduos qualificados, assim como a sua contribuição para o desenvolvimento de aptidões e talentos (fatores importantes na promoção da inclusão social) (AGESPI, 2013).

Contudo, visto que o mercado por si só não consegue “garantir a preservação e promoção da diversidade cultural”, é necessário “fortalecer a função primordial das políticas públicas, em parceria com o setor privado e a sociedade civil” (UNESCO, 2002).

Igualmente, a afirmação do contexto cultural local no panorama nacional depende do “trabalho institucional de redobramento dos sentimentos de pertença e identificação forjados, no seio de uma dada população, pela partilha de um território humanizado, uma história e uma memória histórica comuns” (Silva, 1992 apud Moura, 2002).

A UNESCO, no Artigo 6 da Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, defende que “a liberdade de expressão, o pluralismo dos meios de comunicação, o multilinguismo, a igualdade de acesso às expressões artísticas, ao conhecimento científico e tecnológico (inclusive em formato digital) e a possibilidade, para todas as culturas, de estar presentes nos meios de expressão e de difusão, são garantias da diversidade cultural” (UNESCO, 2002).

O artigo 9 do mesmo documento defende que as políticas culturais “devem criar condições propícias para a produção e a difusão de bens e serviços culturais diversificados”, com o apoio de “indústrias culturais que disponham de meios para desenvolver-se nos planos local e mundial” (UNESCO, 2002).

Após a contextualização e compreensão da cultura numa visão mais abrangente, segue-se a apresentação da mesma temática num âmbito mais restrito, nomeadamente

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ao nível das autarquias portuguesas, que é de interesse particular para a presente investigação.

Segundo o Artigo 2 das Atribuições do Decreto-Lei n.º 75/2013 de 12 de setembro, cabe às “autarquias locais a promoção e salvaguarda dos interesses próprios das respetivas populações”. As responsabilidades destas identidades, de acordo com o Ponto 2 do artigo 7º da lei mencionada, recaem nos respetivos domínios:

a) Equipamento rural e urbano; b) Abastecimento público; c) Educação;

d) Cultura, tempos livres e desporto; e) Cuidados primários de saúde; f) Ação social;

g) Proteção civil;

h) Ambiente e salubridade; i) Desenvolvimento;

j) Ordenamento urbano e rural; k) Proteção da comunidade.

A estas atribuições, segundo o Ponto 3 do mesmo artigo, acrescentam-se “o planeamento, gestão e a realização de investimentos nos casos e nos termos previstos na lei”.

O papel das autarquias na cultura local começou a ser fomentado após o 25 de abril de 1974. Foi a partir dessa transformação política e social que as autarquias começaram a dispor de um quadro legal que lhes conferia competências administrativas impulsionadoras de maior autonomia. As novas responsabilidades também abrangiam a política cultural, vista como uma ferramenta capaz de responder de forma mais eficiente e apropriada aos problemas locais. De igual modo, estas novas competências visavam o desenvolvimento local, valorização do seu património cultural e criação de estruturas capazes de organizar e integrar atividades artísticas e culturais nos municípios e/ou regiões (Babo, 2010).

Atualmente, o desenvolvimento cultural deve ser encarado como um fator de modernidade, que contempla processos e circunstâncias características da atualidade. Como processo, tem uma perspetiva tridimensional que cruza o global, o central e o local, devendo ser reconhecido como complexo e híbrido (Moura, 2002).

Tendo em conta que os espaços culturais são tão heterogéneos como os públicos, as políticas culturais não podem tomar posturas inteiramente instrumentais e/ou economistas, mas sim relacionais, sistémicas e abertas. Ou seja, as políticas culturais devem impulsionar ações que desenvolvam e equilibrem a cultura, tendo em conta a busca por bens culturais e a participação de todos (Moura, 2002).

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As políticas e processos de desenvolvimento cultural complexificaram-se nas últimas décadas. O limite do setor cultural, antes restrito ao âmbito da ação política, foi alargado para o campo da criação artística (devido ao crescimento e importância da internet), da mediação (i.e. controlo dos canais de distribuição), da gestão e da criação, produção, distribuição e consumo (Babo, 2010).

Outra preocupação constante será o custo da organização de atividades no município, cujo retorno é frequentemente nulo ou resumido ao prestígio. Contudo, possuir um portefólio de acontecimentos significativos permite normalmente o desenvolvimento de grandes eventos, que elevam o estatuto da organização e localidade e, por vezes, implicam uma elevada movimentação turística. Este tipo de acontecimentos ocorre geralmente no mesmo local e são gradualmente associados à sua identidade e consequentemente usados como imagem de marca (Della Lucia, 2013). No caso de Angra do Heroísmo exemplifica-se a realização do Fórum Mundial da Cultura Taurina, que em 2014 contava com a sua terceira edição. O impacto deste tipo de eventos impulsiona a melhor gestão e desenvolvimento de estratégias, no que toca à organização de atividades no município.

Aliás, os eventos de grande escala são também uma ferramenta importante para a criação e manutenção de relações entre diferentes stakeholders, envolvimento institucional e financeiro de parceiros e procura de promotores e patrocinadores. Paralelamente, a busca de bens e serviços para os visitantes, participantes e organizadores do evento tem um efeito multiplicador nas vendas, produção, retornos, emprego e acrescenta valor nos vários setores do sistema económico (Della Lucia, 2013). A intervenção partilhada entre interesses públicos e privados assume uma série de riscos que devem ser considerados. Um deles, por exemplo, é a possibilidade de desresponsabilização de intervenientes face a determinadas obrigações, devido à diminuição das condições de controlo (Babo, 2010).

A crescente difusão do uso das tecnologias Web e dispositivos móveis influenciam a estratégia de crescimento e requalificação dos municípios e, consequentemente, a promoção de eventos. Assim, torna-se importante compreender a relação atual entre estas áreas – tecnologia Web, calendarização e divulgação de eventos – tendo em conta o contexto das autarquias locais.