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Embora a palavra “semântica” não seja mencionada no documento original, os responsáveis pela publicação da tradução espanhola do documento que trata dos FRBR

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Bhaskara Akaria, matemático e astrônomo indiano do século XII, autor do livro Lilavat. Apontado como o responsável por desenvolver a equação de segundo grau, cuja fórmula é conhecida pelo seu nome - fórmula de Bhaskara - sendo enunciada da seguinte forma:

anexaram ao texto original da IFLA uma introdução denominada Introducción a la traducción española onde são apresentadas relevantes considerações, dentre as quais se afirma: “en los FRBR se crea un nuevo campo semántico” (IFLA, 2004, p. 19). Talvez esse insight tenha faltado aos membros do Grupo de Estudos IFLA que não se detiveram a importância do modelo conceitual FRBR para o cunho da representação catalográfica no sentido de expressar uma semântica característica à Catalogação.

Quando em 1976, ocorreu a publicação do artigo seminal de Peter Chen The Entity Relationship Model, onde se propõe o modelo E-R, nascia também o desejo de proporcionar ao usuário uma maior interação com os sistemas, tornando-os mais precisos. Assim, a modelagem conceitual possibilitou o desenho de sistemas mais precisos, porque o comportamento do usuário diante dos sistemas era analisado com antecedência, como também, suas expectativas e necessidades eram consideradas antes de implementá-los. Um modelo conceitual é assim, voltado para melhorar a compreensão de um sistema pelos seus usuários.

Segundo Chen (1976, p. 9, tradução nossa) “o modelo entidade-relacionamento adota a visão de que o mundo real é composto de entidades e relacionamentos. Ele incorpora algumas das importantes informações semânticas sobre o mundo real” permitindo que organize os dados com consistência e claro significado semântico. A partir de então, foi possível dar maior assistência ao usuário, buscando entender suas reais necessidades e desenvolver sistemas que como ferramentas pudessem manter correlação entre coisas distintas de modo que o sentido real pudesse ser preservado. Assim, o modelo E-R se tornou uma poderosa ferramenta ao propiciar a modelagem de dados favorecendo a comunicação entre sistemas, seus desenvolvedores e usuários.

Desta forma, anos mais tarde, Mylopoulos (1992, p. 3) define modelagem conceitual como “uma atividade para descrever formalmente alguns aspectos do mundo físico e social em torno de nós para fins de compreensão e comunicação”.

Podemos afirmar que a incorporação do modelo E-R ao domínio da Catalogação não apenas proporcionou uma nova terminologia à área, mas procurou reconhecer a importância das necessidades dos usuários e suas expectativas no que diz respeito à informação; pois ao se determinar os requisitos funcionais que compõem um registro bibliográfico buscou-se cobrir toda gama de possibilidade para prover aos usuários o resgate preciso da informação, como também, quais são suas expectativas na hora de encontrar a informação desejada. Destaca-se, ainda, a importância dos relacionamentos entre as entidades que compõem os registros

bibliográficos de modo a possibilitar uma recuperação onde são elencados diversos tipos de materiais que tratam do mesmo assunto numa única busca, como também, a preocupação do estudo em definir as tarefas genéricas dos usuários dos registros bibliográficos.

Atualmente, os estudos com modelos conceituais ganharam destaque especial nos ambientes digitais, devido a serem ontologias que “capturam e explicitam o vocabulário utilizado nas aplicações semânticas” (BREITMAN, 2010, p. 7). As ontologias ou modelos conceituais estão sendo cotadas como a língua franca da Web Semântica. E, por isso, discutimos a importância do modelo conceitual FRBR, que a princípio não se faz transparecer no documento destinado a levá-lo ao conhecimento público, como um instrumento portador de semântica específica para o domínio da catalogação.

Foi com o intuito de proporcionar uma maior compreensão e comunicação das atividades catalográficas que a IFLA incorporou o modelo E-R a fim de proporcionar que as informações contidas nos registros bibliográficos fossem recuperadas com maior precisão pelos usuários, os quais dentre todos os fatores apontados como motivação para o estudo seriam os mais favorecidos.

Quando a IFLA resolveu criar um Grupo de Estudos com a finalidade de analisar o modelo E-R, visava primordialmente adaptar suas práticas à emergência do ambiente digital com o intuito de atender de forma mais eficaz as demandas e expectativas dos usuários e conseguir dar conta dos novos tipos de documentos, surgidos com o novo ambiente, como também, buscar formas de baratear os custos com a catalogação, conforme a citação abaixo:

Durante esse mesmo período, no entanto, o ambiente dentro do qual os princípios e normas de catalogação operaram mudou dramaticamente. Os fatores chave que contribuíram para mudanças foram a introdução e o desenvolvimento de sistemas automatizados para a criação e o processamento de dados bibliográficos e o subsequente crescimento em grande escala de bases de dados, tanto a nível nacional como internacional, e as que contêm os registros compartilhados e utilizados por milhares de bibliotecas participantes em programas de catalogação compartilhada. O auge da catalogação compartilhada foi estimulado não só pelas possibilidades que supõem as novas tecnologias, mas também, por uma necessidade crescente de reduzir os custos da catalogação, minimizando o esforço que supõe sua duplicação. [...] No outro lado da moeda, tem havido uma necessidade crescente de se adaptar os códigos e práticas de catalogação e acomodá-los a mudança resultante a partir do surgimento de novas formas de publicação eletrônica, e do advento das redes de acesso aos recursos informacionais. Igualmente importante tem sido a necessidade reconhecida de responder mais eficazmente a um leque cada vez maior de demandas e expectativas dos usuários (IFLA, 1998, p. 1, tradução e grifo nosso).

O advento de uma nova tecnologia é caracterizado por demandar um novo comportamento, tanto dos profissionais como dos usuários, o que propicia novas formas de atuação onde se visam melhorias para um domínio do conhecimento.

Neste contexto, o Seminário de Estocolmo proporcionou que fossem discutidas melhores ações para a emergência das atividades catalográficas em acompanhar o

desenvolvimento tecnológico, porém isto não significou que se buscasse para esse domínio do conhecimento uma linguagem característica para a área. Mas apenas reconheceu-se a necessidade de que os elementos da descrição catalográfica estivessem relacionados com as necessidades dos usuários dos registros bibliográficos.

[...] a importância de satisfazer as necessidades dos usuários e resolver mais eficazmente a ampla gama de necessidades associadas aos diferentes tipos de materiais, assim como, os vários contextos em que se utilizam os registros bibliográficos. Foi reconhecido que a pressão contínua para catalogar um “nível mínimo” requer um cuidadoso re-exame da relação entre os elementos de dados individuais nos registros e as necessidades dos usuários (IFLA, 1998, p. 2, tradução e grifo nosso).

Certamente, esse despertar é importante, porém a área precisa adquirir consciência de que precisa acompanhar os avanços tecnológicos no sentido de desenvolver mecanismos que a tornem capaz de acompanhá-los visando a universalização de suas demandas.

O desenvolvimento do modelo conceitual FRBR tem reconhecida relevância na área da Biblioteconomia, tanto que dentre os estudos da IFLA relacionados ao modelo, existe um estudo que trata de sua harmonização com o modelo consagrado na Museologia, o International Committee for Documentation of the International Council Museums – Conceptual Reference Model (CIDOC CRM). Assim, a IFLA instituiu o International Working Group on FRBR and CIDOC CRM Harmonisation que desenvolve, desde 2006, o estudo denominado FRBR: object-oriented definition and mapping to FRBRER, ou

simplesmente, FRBROO, conforme destaca o trabalho de Riva et al. (2008). Além disso, como apresentamos nas seções 4.5.1 e 4.5.2, o modelo conceitual FRBR apresenta extensões e expansões; os modelos FRAD e o FRSAD, denominados família FRBR.

Desta forma, sua grande importância para este domínio do conhecimento é reconhecida devido ao fato dos modelos FRBR e FRAD serem os fundamentos da nova norma de catalogação, a RDA, a qual é projetada também para equacionar os problemas advindos com o ambiente digital. Tendo em vista essas iniciativas, podemos perceber que o modelo FRBR apresenta uma linguagem própria que o distingue, sendo possível afirmar que é portador de uma semântica específica. Pois conforme ressalta o fragmento abaixo, busca-se com sua aplicação maior clareza e precisão no compartilhamento das informações visando agregar ao registro bibliográfico maior poder de resposta às questões apresentadas pelo usuário.

O objetivo do estudo era produzir um quadro que permita um entendimento claro, definido com precisão e compartilhado por todos sobre a informação que um registro bibliográfico deve fornecer e o que se espera conseguir de um registro bibliográfico como resposta as necessidades dos usuários (IFLA, 1998, p. 2, tradução nossa).

Os termos de referência para o estudo estabelecem o desenvolvimento de um marco que identifica e define claramente as entidades de interesse dos usuários dos registros bibliográficos, os atributos de cada uma das entidades e os tipos de relações que operam entre as entidades. A intenção era produzir um modelo conceitual que serviria como base para relacionar os atributos específicos e as relações (refletido no registro como elementos isolados de dados) para as distintas tarefas que os usuários realizam quando consultam os registros bibliográficos. [...] É necessária uma abordagem focada no usuário para análise dos requisitos de dados na medida em que se esforça para definir de uma forma sistemática as expectativas do usuário na busca de informação em um registro bibliográfico e como essa informação é utilizada (IFLA, 1998, p. 3, tradução nossa).

As duas citações apresentadas acima dizem respeito ao objetivo do estudo que levou ao desenvolvimento do modelo FRBR e os termos de referência para o mesmo. Claramente está nítida a preocupação com as informações que devem fazer-se presentes em um registro bibliográfico e a correspondência dessas informações com as necessidades informacionais dos usuários dos registros bibliográficos. Notamos que o fragmento que trata dos termos de referência apresenta a tarefa de identificar e definir as entidades, os atributos e os tipos de relações que deveriam existir entre as entidades. Para então, produzir um modelo que visasse atender as distintas tarefas dos usuários. A partir daí, os responsáveis pelo estudo detectaram a necessidade de uma abordagem centrada no usuário para então estabelecer os requisitos de dados. Essa posição dos responsáveis pelo estudo é admirável, e corrobora com as grandes tradições catalográficas, representadas pelas ideias de Panizzi sobre o catálogo e pelos objetivos propostos por Cutter para esse importante instrumento. Pois tanto Panizzi como Cutter já esboçavam a preocupação com o usuário ao designarem que o catálogo deveria servir à conveniência deste. Isso também tem total afinidade com a problemática que envolvia a época em que fora criado o modelo E-R, base para o desenvolvimento do modelo conceitual FRBR, já que a partir do modelo de Chen (1976) foi possível o desenvolvimento de sistemas que visassem atender de maneira satisfatória as necessidades do usuário.

As citações abaixo continuam a apresentar os propósitos do estudo e em nenhum momento apontam o modelo conceitual FRBR como um instrumento portador de uma semântica específica à catalogação, seus produtos, os registros bibliográficos, e ao processo de recuperação. Apenas prossegue descrevendo os intuitos da pesquisa.

O estudo utiliza uma técnica de análise de entidades que começa por isolar as várias entidades que são os objetos-chave de interesse dos usuários de registros bibliográficos. Em seguida, o estudo identifica as características ou atributos associados a cada entidade e as relações entre as entidades que são mais importantes para os usuários na formulação de pesquisas bibliográficas, interpretando as respostas a essas pesquisas e “navegar” pelo universo das entidades descritas nos registros bibliográficos (IFLA, 1998, p. 4, tradução nossa).

[...] Para os propósitos do estudo, os usuários dos registros bibliográficos abrangem um amplo espectro, incluindo não apenas os profissionais e usuários de bibliotecas, mas também, editores, distribuidores, varejistas e os fornecedores de serviços de informação externos as configurações tradicionais da biblioteca. O estudo também

leva em conta a ampla gama de aplicações em que os registros bibliográficos são usados: no contexto de compra ou aquisição, catalogação, gestão de inventário, circulação e empréstimo entre bibliotecas e preservação, bem como, referência e recuperação da informação. Como resultado, os atributos e os relacionamentos identificados no estudo refletem a amplitude do uso que é feito da informação bibliográfica e a importância para o usuário final dos aspectos de conteúdo e forma dos materiais descritos nos registros bibliográficos.

O estudo também procura ser abrangente em relação a variedade de materiais, meios e formatos cobertos. O grupo de estudos se baseou em uma ampla gama de fontes para identificar os dados referentes a materiais textuais, cartográficos, áudio-visuais, gráficos e tridimensionais; em papel, filme, fita magnética e mídias ópticas, e para formas de gravação acústica, eletrônica, digital e óptica (IFLA, 1998, p. 4, tradução nossa).

Os objetivos do modelo conceitual FRBR são:

O primeiro é fornecer uma estrutura claramente definida, estruturada, para relacionar os dados que são indicados em registros bibliográficos com as necessidades dos usuários. O segundo objetivo é recomendar um nível básico de funcionalidade para registros criados pelas agências bibliográficas nacionais (IFLA, 1998, p. 7, tradução nossa).

Em vista do exposto, podemos inferir que o documento elaborado pelo Grupo de Estudos IFLA apenas apresenta a metodologia utilizada para a configuração do modelo conceitual FRBR, os objetivos, os conceitos e as finalidades do estudo que o definiu, sem dar qualquer enfoque ao seu papel como um instrumento portador de uma semântica específica para a Catalogação. Somente delineia aspectos importantes da sua configuração.

Por outro lado, introduz de forma clara e inequívoca nas metodologias e nos padrões internacionais, o usuário como fim último da catalogação, enfatiza suas tarefas, a clareza obtida com a identificação das diferentes entidades que compõem um registro bibliográfico e seus relacionamentos, como também, identifica os atributos associados a cada entidade. Destaca o amplo espectro dado ao usuário dos registros bibliográficos que não se limita aos usuários de biblioteca e profissionais, mas abrange uma ampla gama de profissionais, como expressa o documento. Outra relevante questão abordada diz respeito à variedade de suportes e materiais, em crescimento com o advento do ambiente digital, mas previsíveis nos conceitos do modelo.

A seguir, apresentamos o resultado da análise de conteúdo e bibliométrica do documento FRBR (IFLA, 1998), onde procuramos identificar quais seriam as palavras significativas do texto e que expressam o conteúdo semântico.