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Um outro olhar: o entrelaçar de vidas em fotografias

para o olhar. Da mesma forma que busquei descrever o movimento da vida no Bravo em suas transformações ao longo das variações sazonais, registrei para a memória estes mesmos movimentos. Da forma como estão organizadas, as fotografias possibilitam observar os diversos atores que participam da vida no lugar em contextos diferentes de disponibilidade de água. Inspirado nas etnografias de Margareth Mead e Gregory Bateson (1942) e André Alves (2004), compus este capítulo com imagens, ou sequências delas, que contribuem para a compreensão da dinâmica da vida nos sítios do Bravo e suas transformações sazonais. Algo que não pretendo que seja observado enquanto ilustrações ou anexos ao relato já realizado textualmente, mas sim, uma outra possibilidade de leitura complementar à anterior. Como afirmam Mead e Bateson (1942: 49): “we tried to shoot what happened normally and spontaneously (…). We treat the cameras in the field as recording instruments, not as devices for illustrating our theses”.

Por outro lado, diferente das obras acima citadas, escolhi, por influência do argumento de Eduardo Bagnoli, registrar e apresentar fotos em cores, com o máximo de destaque para as suas variações no Cariri. Em 2009, um ano antes de seu falecimento, Eduardo Bagnoli foi convidado a participar de um programa de televisão de uma pequena emissora de Natal, no Rio Grande do Norte, onde residia e estava inaugurando uma exposição com fotografias do Nordeste semiárido. As fotografias da exposição estavam em preto em branco, mas disse ele naquele dia que seu projeto era publicar um livro e que seria colorido. Perguntado do porquê pelo entrevistador, ele respondeu:

_ [Colorido ou preto e branco] são formas diferentes de registrar e exibir. Eu acho, eu tenho uma missão com relação ao Nordeste e a minha missão é divulgar as belezas do interior principalmente. Eu entendo que existe um preconceito do brasileiro com relação à caatinga, ao sertão. E eu quando estive aqui pela primeira vez eu não senti, eu como geólogo, não tive essa sensação de tá num ambiente hostil, num ambiente árido. Pelo contrário, eu enxerguei muitas belezas. Eu vi que eu tinha uma visão diferente disso tudo e depois, no turismo, eu sempre defendi isso. Por essa razão que meu livro vai ser colorido. Eu quero que o sertão se mostre no seu melhor.

O livro não chegou a ser publicado, mas vejo na visão de Eduardo Bagnoli de um Nordeste semiárido colorido uma perspectiva muito inspiradora. Até mesmo porque as luzes e as cores vistas a partir do Bravo e região foram as primeiras a me impressionar, assim como as incríveis variações de cor que o céu pode tomar ao longo de apenas um pôr do sol. A experiência de fotografar o Cariri impressiona, pois, faz parecer fácil compor belas fotografias, como se a luz, as cores e a disposição das coisas e pessoas no ambiente tivessem sido feitas e postas em cada lugar exatamente para fossem fotografadas.

Havia me dedicado, dentro das limitações técnicas que possuía, a captar imagens que fossem capazes de registrar e transmitir a impressão que eu mesmo tinha do momento, o fluxo e a dinâmica vistos daquele ponto. Isso pois, pretendia utilizar as imagens apenas como ativadores da memória para a escrita posterior da tese. Via então como importante no momento da captura que na composição da imagem fosse possível encontrar diversos atores da vida no Cariri em movimento num mesmo enquadramento. Assim como, tinha o desejo de que ao olhar para cada uma delas, fosse possível perceber o movimento na imagem, algo deveria estar ocorrendo nas imagens aparentemente estáticas. Passei então a pensar cada clique na máquina como a tentativa do registro de um instante em movimento. O registro deveria conter a dinâmica da vida no vilarejo do Bravo, as pernas deveriam caminhar nas fotos, a macambira e o xiquexique deveriam continuar queimando na imagem registrada, o movimento da vassoura pelo terreiro deveria ser perceptível. Enfim, a vida não é estática e, na perspectiva com a qual trabalhei, isso foi considerado na escolha daquelas que comporiam o trabalho.

Para esse trabalho utilizei sempre equipamentos simples, aqueles que tinha ao alcance no momento. Na primeira viagem à Cabaceiras levei uma máquina emprestada da amiga antropóloga Patrícia Carvalho, uma Fugifilm S2800, com ótimo zoom de 18x e 14MP, mas nenhuma foto desse primeiro campo foi inserida na tese, mas, utilizadas durante a escrita. Antes de partir em viagem uma semana antes, pedi a um amigo que já havia estudado e tinha conhecimentos sobre técnicas de fotografia, que me ensinasse algo. Ele me mostrou as três configurações básicas que um fotógrafo deve saber para controlar manualmente sua máquina: a abertura do obturador, a velocidade de abertura e o ISO. Ou seja, basicamente o controle da luz que entra e é registrada na câmera. Com essas três configurações em mente e algum ensaio pelo bairro, fui a campo em janeiro

de 2015 para perder mais da metade das fotos por falta ou excesso de luz, mas aprendi o mínimo que precisava para outras experiências.

Na segunda viagem, comprei uma câmera usada simples e antiga, mas, com a qual registrei alguns dos mais significativos momentos do auge da seca em princípio de 2017. Comprei por 120 reais uma Canon Powershot S2 IS, como 5.0 MP, e com ela fiz a maior parte das fotos deste período. Por apenas um dia durante essa incursão a campo, levei para o trabalho uma câmera de maior qualidade que consegui emprestada com Rejane: uma Nikon D3400 com lentes removíveis de 18- 55 mm, que são as mais simples disponíveis, mas, já representava grande diferença se comparada ao equipamento que estava usando. Com ela registrei meu primeiro dia de trabalho acompanhando a queima do xiquexique junto com Bati e Givaldo. Porém, no dia seguinte fui com ela pendurada no pescoço para acompanhar, também pela primeira vez, a queima da Macambira. Levei a câmera, mas os cartões de memória que deviam estar nela tinham ficado em casa, no slot do computador. Percebi isso já caminhando pela Caatinga, depois de alguns quilômetros de moto pela mata. Coloquei a mão no bolso, peguei meu velho celular Nokia Lumia 520 com câmera de 5.0 MP, e registrei o trabalho com a macambira, no ápice da seca. Foram, sem dúvida, as melhores fotos que produzi durante os dias em que acompanhei a queima. Guardei a câmera de Rejane em casa para não correr o risco de em algum incidente quebrá-la e voltei para meu equipamento simples, minha Powershot velha e usada, com a certeza de que naquele momento e para os propósitos desta tese não seria o equipamento que faria a diferença. Utilizei ainda em outras viagens posteriores uma boa câmera emprestada de meu primo, uma Fujifilm S8600, com 16MP e zoom ótico de 30x.

Mais que as questões técnicas, que em sua enorme maioria ainda não domino, tinha clareza comigo do que eu gostaria de registrar, mesmo que na maior parte das vezes a ideia não se concretizasse na imagem. Assim, com milhares de fotografias à disposição, passei a perceber que elas compunham um olhar a parte dentro do conjunto do trabalho e deviam ser apresentadas em um capítulo também a parte, como uma outra forma de descrição, outra possibilidade de leitura. Este capítulo é uma tentativa, tal como em “Balinese Chatacter”, de expressar em imagens aquilo que o vocabulário não foi capaz. Como afirmam os autores: “In this monograph we are attempting a new method of stating the intangible relationships among different type of culturally standardized behavior by placing side by side mutually relevant photographs. Pieces of behavior, spatially and contextually separated”. (MEAD e BATESON, 1948: xii)

Inspirado neste trabalho clássico, apresento uma sequência de fotografias que possibilitam ao leitor alcançar outras perspectivas para o olhar. Perspectivas essas que complementam a leitura já realizada acerca do movimento da vida entre seca e inverno no Cariri. O que o leitor encontrará neste capítulo é a representação imagética de parte daquilo que foi apresentado textualmente, com destaque para as transformações em todo conjunto da vida conforme as variações sazonais e a disponibilidade de água, foco deste trabalho de pesquisa. Assim como afirmou Etienne Samain (2004: 69), “Bateson e Mead sabiam que a imagem não era o equivalente do texto, sabiam que a capacidade despertadora da imagem não podia igualar a função enunciada da linguagem. Sabiam, fundamentalmente, que ambas ofereciam algo singular e se complementavam”.

Na obra de Mead e Bateson, o movimento é dado na sequência de cinco a oito fotos que compõem cada um dos cem “plates” temáticos. Estes “plates”, ou pranchas de fotografias, estão organizados em dez temas que buscam descrever o que os autores chamam de “Ethos Balinese” e o processo de aprendizagem e passagem entre gerações. Cada “plate” é organizado em sequência e, com texto explicativo, apresenta uma singularidade das características da vida no Bali, do comportamento do povo balinês. Já André Alves, inspirado na obra de Mead e Bateson, buscou uma etnografia visual do processo de trabalho dos caranguejeiros de Vitória, no Espírito Santo. Sua “Análise Fotográfica” está dividida em 28 “pranchas”, que são como os “plates” de Mead e Bateson, que descrevem os tipos de caranguejo, as técnicas e equipamentos de captura, os conflitos e o comércio nas estradas. Com essas duas referências construí este capítulo a partir das fotografias registradas em momentos distintos entre o auge da seca e o inverno de 2018 onde busco uma descrição imagética das profundas transformações na vida conforme a variação de acesso à água.

Para escolher dentre as cerca de mil fotos acumuladas ao longo das passagens pelo Bravo e Cabaceiras aquelas que deveriam compor o trabalho, parti de duas premissas: a qualidade da imagem e a possibilidade desta de transmitir a sensação de movimento no processo de trabalho que estava sendo acompanhado. Ao invés de informações técnicas sobre fotografia para orientar tal escolha ou noções para possível edição das imagens (nenhuma imagem foi editada), preferi contar apenas com um parâmetro daquilo que gostaria de apresentar nesta tese. As fotografias deveriam apresentar os movimentos da vida nos sítios do Bravo, o trabalho, o cotidiano caririzeiro na busca pela garantia da sobrevivência e as fortes transformações entre os períodos de chuva e estiagem.

Assim, as fotografias se tornaram ao longo do trabalho de campo uma forma de anotação daquilo que não podia ser registrado através da escrita, como complemento ao caderno de campo e, por fim, sem que fosse programado de antemão, se tornaram também uma forma de descrição. Procurei apreender e transmitir uma outra face do observado e experienciado, ou seja, aquilo que não se registra em palavras, tentei fotografar, e aquilo que não cabia na imagem, procurei descrever em palavras. Como num início de noite tentei fotografar os primeiros instantes da lua cheia, amarela brilhante num redondo enorme que, do ponto que eu observava, era maior que a casa de Laura e Bati e parecia nascer por detrás dela. Nenhuma foto retratou toda exuberância daquela imagem, mas, com palavras posso tentar descrevê-la. Assim, a recíproca também é verdadeira quando se trata de expressar o momento e os diversos atores envolvidos através de uma ou mais fotografias.

Objetivo aqui apenas introduzir a próxima leitura, a leitura dessas fotografias. Não pretendo dar detalhes, para que na observação atenta você mesmo, leitor/leitora, possa identificar as transformações e a composição de cada momento. O que está retratado aqui, foi de outra forma descrito ao longo dos capítulos precedentes, por isso mesmo, as legendas de cada foto ajudam na leitura destas, mas não gostaria que elas guiassem o olhar apenas para certo ponto específico. Sem o excesso de explicações, gostaria que a leitura das fotografias fosse uma experiência para quem lê. Uma experiência que possibilite a percepção do entrelaçar da vida no Bravo em cada momento do dia e, principalmente, em cada dia entre a seca e a chegada do inverno.

De milhares de fotografias feitas por mim, separei trezentas que representam os movimentos da vida no Bravo tais como eu os descrevi textualmente ao longo da tese. Destas, setenta e seis estão presentes neste capítulo. A escolha não obedeceu, como já mencionei, critérios técnicos de fotografia, assim, a luz nas fotografias escolhidas pode variar, mas o resultado, que confesso involuntário, acaba representando algum aspecto interessante do ambiente. Tal como, a luz de algumas fotos durante a queima do xiquexique excedeu o limite e o erro que fez desaparecer o céu em um único branco reluzente acaba por representar exatamente a sensação de calor insuportável naquele momento. Dessa forma, um erro técnico na operação da câmera me proporcionou uma imagem capaz de descrever uma experiência.

Pensadas, portanto, como registros de experiências, as fotografias, tanto quanto a narrativa dos capítulos textuais desta tese, estão em “primeira pessoa”. A seguinte sequência de fotografias é um convite ao leitor para uma nova leitura deste emaranhado de vidas do Bravo pela visão que

eu mesmo tinha daquele momento, caminhando junto com eles e partilhando momentos. Por isso, a primeira imagem pretende ser a minha visão do começo do dia no terraço, próximo de cinco horas da manhã, enquanto Laura varre seu terreiro e Val volta depois de ter levado água para o jumento. Eu tomo uma xícara de café e como um biscoito olhando junto com você um dos primeiros passos do dia em um sítio do Bravo e seguimos a leitura das fotos como uma caminhada a partir daí, com olhos atentos para toda vida e seus movimentos.

Foto 2 - No fundo do terreiro de Laura, a moto, o juazeiro verde durante a seca, e a cisterna são parte da paisagem e são personagens da vida no Cariri. A moto em particular, é hoje “o jumento” do semiárido. (Janeiro, 2017)

Foto 3 - A sombra da baraúna marca na estrada os limites entre Boa Vista e Cabaceiras. A imagem registrada durante a seca, mostra a intensidade do sol próximo das 14 horas, enquanto baraúna e o restante da mata desfolhadas aguardam pelo inverno.

Foto 4 – As muitas cores do céu do Bravo. Foto registrada durante a seca ao entardecer (Janeiro de 2017)

Foto 6 - Na luta pela sobrevivência no semiárido, este calango escapou ao predador antes de me encontrar. (Janeiro de 2018)

Foto 7 - Jumentos vagam pela caatinga em busca de água e alimento, algo comum de se ver, principalmente na seca, quando as fontes de alimento na natureza se tornam escassas. (Janeiro, 2017

Foto 9 - Com Val, a tarefa diária de buscar água. O poço público garante água para todos no Bravo e proximidades. (Janeiro de 2017)

Foto 11 – Com Val, a tarefa diária de buscar água (2). (Janeiro de 2017)

Foto 12 - Com Val, a tarefa diária de buscar água. Enquanto um "cardo santo" sobreive à seca próximo ao poço. (Dezembro/Janeiro de 2017)

Foto 14 - Com Bati e Givaldo na queima do xiquexique (2) (Janeiro de 2017)

Foto 15 - Com Bati e Givaldo na queima do xiquexique. Um cacto grande é escolhido para servir de base para a tulha, acrescentando galho secos e as hastes dos xiquexiques ao redor. (Janeiro de 2017)

Foto 16 - Com Bati e Givaldo na queima do xiquexique (3)

Foto 18 - Com Bati e Givaldo na queima do xiquexique (5)

Foto 20 - Com Bati e Givaldo na queima do xiquexique. O excesso de luz nessa foto mostra um pouco da sensação provocada pelo calor daquele momento, entre as 14 e 15 horas. (Janeiro de 2017)

Foto 21 - Com Bati e Givaldo na queima do xiquexique. O resultado do trabalho é carregado pelo jumento até o sítio (Janeiro de 2017)

Foto 23 - Com Givaldo na queima da macambira (2)

Foto 24 - Com Givaldo na queima da macambira. Neste ambiente, diferente de onde se queima o xiquexique, a fumaça não dissipa com facilidade. (Janeiro de 2018)

Foto 25 - Com Givaldo na queima da macambira (3) (Janeiro de 2017)

Foto 26 - Com Givaldo na queima da macambira. As tulhas são armadas espalhadas alguns metros umas das outras em pequenas clareiras. (Janeiro de 2017)

Foto 27 - Com Givaldo e Gilmar na queima da macambira

Foto 28 - Com Givaldo e Gilmar na queima da macambira. Após resfriá-las, ensacam, costuram o saco com a fibra de uma outra bromélia, o Caroá, e Gilmar segue no jumento até o sítio. (Janeiro de 2017)

Foto 29 - Com Bati no roçado de palmas. É possível reparar que as chuvas extemporâneas de meados de 2017 fizeram brotar algum mato, mas não foram o suficiente para as palmas desenvolverem (Dezembro de 2017)

Foto 30 - Com Bati no roçado de palmas. Ao fundo, dois umbuzeiros completamente secos mostram que tais chuvas não causaram impacto suficiente para ressurgir o verde da caatinga. A seca não havia terminado. (Dezembro de 2017)

Foto 31 – Ainda durante o auge da seca, com Bati, Gilmar, Givaldo e Douglas. Os primeiros moem cactos e macambiras e os outros, sentados sobre os tamboretes, cortam palmas. (Janeiro de 2017)

Foto 33 - Com Bati e Givaldo alimentando os animais. (Janeiro de 2017)

Foto 35 - Com Bati e Givaldo alimentando os animais (3) (Janeiro de 2017)