O processo de acumulação e de mundialização do capital é parte integrante do processo de desenvolvimento do sistema capitalista e traduz-se, no caso brasileiro, em uma sociedade contraditória, destruidora de direitos e produtora de desigualdades. Com raízes profundas na história da sociedade brasileira, de caráter escravocrata, patriarcal e colonizada, é importante lembrar que o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão.
Historicamente, nos períodos do império e da colonização, as cidades tinham importância pelo lugar de financiamento e de comercialização dos bens primários produzidos pelo mercado europeu, sendo que até o final do século XIX, a maioria da população permaneceu no campo. Com a emergência da mão de obra livre, após a abolição da escravatura, em 1888, tal processo redefiniu-se, sendo a urbanização e a
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industrialização os temas prioritários da agenda política sob o lema da ordem e do progresso e dessa forma, o processo migratório campo-cidade sofreu uma reversão demográfica.
País de capitalismo periférico, diverso e com variações demográficas, o
Brasil privilegiou, ao longo de sua história, medidas governamentais protecionistas que beneficiaram mais os segmentos ricos do que a população pobre. Estudos recentes (ONU, 2019) indicam que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, sendo a concentração de renda um fator importante, porém não a única variável a indicar níveis de desigualdade, pois a distribuição discrepante nas áreas da Educação, Saúde e nos padrões de vida (baixos salários, dificuldade de acesso aos bens e serviços) juntam-se aos obstáculos ao desenvolvimento dos países, em geral.
As contradições dessa condição fazem-se sentir em muitas regiões, em contraste com a riqueza que impera em outras, assim como a ilegalidade da posse da terra em um mercado para poucos, com uma produção habitacional feita ao arrepio a lei, que admitiu (com vistas grossas do ponto de vista legal) a ocupação de terras, mas não o direito à cidade. Tal situação é fonte de alimento para o clientelismo político e o populismo, num contexto de lógica concentradora da gestão urbana que não consegue se incorporar ao orçamento público com medidas que possam garantir não só o direito à moradia, mas também aos serviços urbanos necessários, como saneamento básico, urbanização, entre outros (MARICATO, 2003).
Se ao final do século XIX, 10% da população era urbana, no final do século XX, aproximadamente 20% da população passa a ser rural, sendo que os 80% da população urbana se instalou nas grandes cidades. Alia-se a isso, o advento da regulamentação do trabalho urbano, os estímulos à industrialização (entre outros fatores) impulsionando o êxodo campo-cidade, com um processo de favelização instalado, sobretudo, em áreas de proteção ambiental, de formação de cortiços e conglomerados habitacionais em regiões não afetadas pelo lucro imobiliário, mantendo e fortalecendo o poder econômico e os privilégios, frustrando (em muitos casos) os sonhos de pessoas que acreditavam que a salvação estava nas grandes cidades (SANTOS, 2000).
Uma política fundiária e urbana que traga condições e benefícios para a inclusão de todos os cidadãos parece ser ainda uma utopia no país, em meio aos interesses
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empresariais e políticos que escamoteiam os ganhadores e os perdedores dessa situação. Nesse aspecto, os avanços nessa área presentes na Constituição Federal de 1988 (CF/1988) - artigos 182 e 183 (BRASI, 1988) e no Estatuto das Cidades - Lei Federal nº 10.257/2001 (BRASIL, 2001) não se efetivaram, na prática, pois envolviam uma ampla e estrutural reforma urbana, com um redesenho na dimensão do planejamento, a longo prazo, que supõe o enfrentamento do debate na sociedade acerca dos temas fundiários e imobiliários (MARICATO, 2003), o que se faz em diálogo entre Estado, Governo e Políticas Públicas.
Para além da moradia, os serviços urbanos merecem destaque pois, em geral, a população mais pauperizada habita as margens das cidades - pela ausência de outras alternativas - o que dificulta o deslocamento, em um país em que o investimento em transporte público é ínfimo, aliado aos interesses de grandes corporações e empreiteiras construtoras de pontes e viadutos, que tem hegemonia nessa área - o que torna o modelo urbano, em geral, excludente, em um contexto de relações de poder desiguais.
Fanon (1968) alerta-nos de que nas sociedades pós-coloniais, como o caso brasileiro, torna-se difícil a compreensão e a consciência de classe social, devido à dessemelhança e à não identificação coletiva nos processos de descolonização de homens novos que deveriam fazer o seu próprio caminho, ao mesmo tempo em que vê nas classes populares, a possibilidade de construção de um processo de descolonização real e de uma história coletiva. O autor, ao estudar as civilizações coloniais e pós-coloniais entende exclusão como as ações que retiram dos indivíduos a sua condição humana, impedindo- os de tornarem-se sujeitos de seu processo social. Para Sousa-Santos (1995), desigualdade é um fenômeno socioeconômico que se ancora na ideia de igualdade. Já a exclusão se baseia na ideia de diferença e é um fenômeno de civilização.
Para Martins (2015) não existe exclusão no Brasil, rigorosamente falando, e sim contradição. Existem vítimas de processos sociais políticos e econômicos excludentes, ao se considerar a exclusão como um estado, uma condição fixa que deixa de fora o debate sobre as causas das formas pobres, insuficientes e indecentes da inclusão, o que sugere uma fenomenologia dos processos sociais excludentes. Para Martins (2015, p. 21):
O favelado, que mora no barraco apertado da favela, com o simples apertar de um botão de televisão, pode mergulhar no colorido mundo de fantasia e de luxo das grandes ficções inventadas pela comunicação de massa; exatamente como faz, pelo mesmo meio e, provavelmente,
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no mesmo horário e canal, o milionário que vive nos bairros ricos das grandes cidades. A nova desigualdade separa materialmente, mas unifica ideologicamente.
Martins (2015) ainda adverte que estamos diante de uma nova desigualdade que degrada o ser humano, retirando-lhe o que lhe é historicamente próprio, a construção do gênero humano e do homem livre em um mundo justo, o que ocorre por meio da imitação, da reprodução de costumes e de hábitos e da vulgarização, no lugar da invenção, da criação, da revolução e da dignidade do homem como referência fundamental da vida. Ser pobre não representa só não ter, mas sobretudo, ser impedido de ter.
Nesse aspecto, Dussel (1997) colabora com o princípio ético da alteridade, nas ações de acolhimento do outro como um igual e que, no caso dos oprimidos/excluídos, implica o reconhecimento da dignidade de ser do outro e a responsabilidade pela vida do outro como pressuposto básico de libertação e de emancipação social.
Em que pesem os avanços sociais (de reformas e de políticas públicas redistributivas e de combate à pobreza) - que não lograram o avanço efetivo de direitos e de distribuição de riqueza e sim transferência de renda - levadas a efeito nas últimas décadas, a parcela empobrecida da população não alcançou uma mobilidade social significativa no conjunto da sociedade, uma vez que a tributação no país é progressiva, ao contrário dos impostos que incidem sobre a produção e o consumo (que representam a maior parte dos recursos) que são regressivos e não incidem sobre os itens de renda, herança e propriedade. Dessa forma, as pessoas com menor nível de renda (o segmento social que paga mais imposto) tendem a gastar a maior parte de seus recursos com o consumo.
A esse respeito Hobsbawm (2000) assume que o tema central do século XXI não é mais a produção de mercadorias, mas a distribuição da riqueza por uma esfera pública (o Estado). Para o autor:
O que, na minha opinião, temos de buscar é uma outra maneira de distribuir a riqueza produzida por uma quantidade cada vez menor de pessoas, que no futuro pode chegar a ser na verdade uma quantidade ínfima (...) não se trata de aumentar a produção, pois isso não conseguimos resolver de forma satisfatória. A verdadeira dificuldade está na forma de distribuir a riqueza (HOBSBAWM, 2000, p. 8). Picketty (2015) economista francês, responsável pelo maior estudo acerca da desigualdade econômica no mundo, faz coro à tese de Hobsbawm, ao trazer pistas
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importantes para a diminuição da desigualdade econômica que passa por políticas fiscais como condição imprescindível para a redistribuição da riqueza como a instituição de um imposto progressivo, salientando que o crescimento vertiginoso da desigualdade no mundo constitui-se em uma ameaça à democracia. O autor demonstra nos seus estudos que a taxa de acumulação de renda é maior do que as taxas de crescimento econômico nos países desenvolvidos e busca - em seus estudos - entender ainda as forças econômicas, políticas e sociais que produzem a concentração da riqueza, ao defender a ideia de que o sistema capitalista nas versões neoliberal (de mercado) ou intervencionista (do Estado de Bem-Estar Social) é, por natureza, concentrador de riqueza e conduz à cultura da riqueza herdada (de bens de famílias) e não conquistada (como apregoam os defensores da meritocracia).
As Políticas Sociais no Brasil - que teoricamente deveriam dar respostas à condição de desigualdade e de exclusão - reproduziram um modelo europeu sem considerar as marcas históricas de servidão negra e indígena do país, contando com regulação social tardia, apresentando-se fragmentadas, setorizadas de acesso restrito no meio urbano (SPOSATI, 2002). As formas de organização estatal, governamental e das Políticas, em geral, seguiram os movimentos ou ‘ondas’ democráticas possíveis - com medidas de governo - especialmente no período de 2003 a 2016, representando avanços importantes na área social, em diferentes contextos.
1.2. O processo democrático brasileiro e as relações entre Estado, Governo e