ANEXO C – CARTA ABERTA SOBRE FÓRUM MUNDIAL
I.II Um Panorama Geral do Feminismo Contemporâneo Brasileiro
Após uma década de maior protagonismo de um feminismo institucionalizado, mais ligado às políticas de Estado e um pouco de retraimento dos feminismos mais relacionados aos movimentos sociais de base, o cenário contemporâneo dos anos 2000 chega sendo tomado pelo surgimento de algumas manifestações em várias regiões do Brasil, com destaque para a primeira Marcha das Margaridas, organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), ocorrida no dia 12 de agosto na cidade de Brasília em protesto pelo assassinato de Margarida Alves. A ativista pelos direitos das mulheres rurais foi morta nesse mesmo dia e mês do ano de 1983 na Paraíba por defender trabalhadoras e trabalhadores do campo. Na ação, cerca de 20 mil mulheres agricultoras, indígenas, pescadoras, quilombolas e extrativistas de várias regiões do Brasil se reuniram usando camisetas lilás e chapéus de palha decorados com margaridas marcando o símbolo do movimento12.
Desde então a marcha se repetiu em 2003, 2007, 2011 e 2015, com temas como “Razões Para Marchar: Contra a Fome, a Pobreza e a Violência Sexista”, “Razões Para Marchar por Desenvolvimento Sustentável com Justiça, Autonomia, Igualdade e Liberdade” e “Margaridas seguem em Marcha por Desenvolvimento Sustentável com Democracia, Justiça, Autonomia, Igualdade e Liberdade”, tendo como principais reivindicações o direito à água, terra e agroecologia. Na quinta edição, a marcha já contabilizava cerca de 100 mil manifestantes e em 2019, nos dias 13 e 14 de agosto, esse público ainda foi maior, já que contou com o reforço
da primeira Marcha das Mulheres Indígenas que ocorreu entre os dias 9 e 13 de agosto também em Brasília, além da presença de mulheres camponesas de 26 países diferentes.
A cada quatro anos, a Marcha das Margaridas, a maior ação de mulheres da América Latina, é realizada e, em 2019, veio com o tema “Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência”, conforme o site
Socialista Morena13. Elas exigem o fim dos retrocessos sociais, o fim da violência contra as mulheres e do racismo, em defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. É importante também ressaltar o aspecto regionalista das ações de movimentos feministas como a Marcha das Margaridas, realizadas em várias partes do Brasil e que se expandem para outros continentes.
Com relação, por exemplo, à Marcha das Margaridas, elas sempre têm como local de maior representação do ato a cidade de Brasília, capital do país e centro de decisão política nacional, sendo, portanto, o lugar escolhido pelas mulheres para ser palco das suas reivindicações. Entretanto, mesmo que as ações ativistas dessas mulheres se concentrem, em grande parte, nessa cidade, a pluralidade de regiões envolvidas no evento é grande. A marcha é organizada em conjunto por mulheres de diversas partes do país, cada uma com culturas, costumes e crenças diferentes que se organizam desde muito cedo para que a marcha aconteça. São elas, jovens, idosas, mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras, extrativistas, quebradeiras de coco, assentadas da reforma agrária, assalariadas rurais, agricultoras familiares, camponesas.
Figura 1- Marcha das Margaridas
Fonte: Agência de Notícias da CONTAG
13 Informação retirada do Site: https://www.socialistamorena.com.br/marcha-das-margaridas-pode-se-tornar- maior-manifestacao-de-mulheres-desde-o-elenao/
Da locação de ônibus para transportar mulheres de várias regiões do país à Brasília, principalmente, as mulheres moradoras do campo, do planejamento e confecção de cartazes, blusas, e outros itens a serem utilizados durante o ato, à confecção de livretos informacionais, tudo é pensado a partir de muitas mentes que comunicam-se cada uma de uma cidade diferente e faz com que tudo aconteça conforme o planejado em diversas regiões do Brasil. Conforme podemos perceber em um trecho do livreto informacional da Marcha das Margaridas de 2015, o evento longe de ser algo apenas concentrado em Brasília, espalha-se por todas as partes do país, a nível municipal, estadual e nacional:
Queridas companheiras! A Marcha das Margaridas 2015 já começou! Em todas as partes de nosso país se pode observar a marcha acontecendo em sua essência mais profunda, que é o despertar para a luta de inúmeras mulheres que se reúnem, mobilizam, planejam e discutem a realidade, suas necessidades e anseios, em comunidades e municípios, regiões e estados, em todo o país. [...] Além de registrar a beleza e a força de cada uma dessas ações, com materiais (fotos, vídeos, depoimentos, etc.), tais contribuições deverão fortalecer a identificação das pautas municipal, estadual, regional e nacional da Marcha das Margaridas 2015, fortalecendo a nossa articulação e a visibilidade das ações realizadas. Contamos com sua colaboração para dar voz a todas as Margaridas do campo, da floresta e das águas. Em 2015, nós, Margaridas de todos os cantos do país, vamos juntar toda a nossa esperança e o nosso compromisso com a transformação e, com ousadia, mostrar à sociedade e ao Estado a que viemos, convocando todas as mulheres trabalhadoras do nosso país a darem o próximo passo. Vamos ocupar as ruas, os municípios, as capitais e Brasília, acreditando que é possível construir um Brasil soberano, sustentável, mais democrático, justo e igualitário na cidade e no campo, mostrando que sendo milhares, não estamos sós, que nenhuma de nós está sozinha e que juntas seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!14
O evento expande-se e também abre espaço para mulheres de outros países latino- americanos e de outras partes do mundo, que compartilham da luta das mulheres camponesas, uma luta contra o sistema do agronegócio e a favor da agroecologia, com o intuito de priorizar o cuidado com nossas terras, águas e alimentos:
Em nível mundial, diversos movimentos sociais estão envolvidos na luta pela defesa da soberania alimentar. O Ano Internacional da Agricultura Familiar, Campesina e Indígena (AIAFCI), por exemplo, nasceu da articulação de mais de 360 organizações em torno do lema “Alimentar o mundo, cuidar do planeta” e resultou em grandes ações de incidência política, em 2014, nos âmbitos nacional, continental e mundial, em prol do fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia, por meio de políticas específicas e da efetivação de espaços de diálogo permanentes entre sociedade civil e governo. [...] Em 2012 foi constituída a Aliança Latino Americana por Soberania Alimentar como um espaço de construção da unidade na defesa da soberania alimentar como elemento central de um novo modelo de sociedade. [...] Se por um lado houve avanços, por outro, também temos visto o avanço de projetos de cooperação do Brasil com países do Sul (América Latina e África), como é o caso do ProSavana, em Moçambique, que representa grave ameaça à soberania alimentar e ao campesinato
14 Trecho retirado do livreto da Marcha das Margaridas de 2015, disponível em:
desse país15.
Esses exemplos de ações realizadas pelas mulheres da Marcha das Margaridas demonstram que, à medida que muitos governos de diversos países estabelecem alianças visando a exploração e destruição das terras, águas e alimentos pelo agronegócio, mulheres de vários continentes estão reunidas reagindo contra todos esses males, mostrando para o mundo que é possível uma outra forma de sociedade centrada na agroecologia, preservando nossas riquezas naturais. Esse é o papel da Marcha das Margaridas, uma luta que a cada ano avança, na tentativa de barrar a destruição do meio ambiente não só no Brasil, mas em várias outras partes do mundo.
Aqui, podemos destacar a importância da prática de um ecofeminismo, que une a luta das mulheres à luta pela preservação da natureza, um fato que também estará presente, conforme veremos mais à frente, dentro do contexto cicloativista feminista. Enquanto um movimento de mulheres que é centrado na promoção do uso da bicicleta, traz para junto das suas pautas, os inúmeros benefícios que esse transporte pode trazer ao meio ambiente, tendo em vista principalmente, sua característica não-poluente, auxiliadora no processo de busca por uma vida mais saudável, além de aproximar a socialibilidade entre as pessoas e a natureza em seu entorno.
Uma luta de mulheres que vai além da reivindicação pelo direito às ruas livre de violências, o cicloativismo feminista também une o ativismo pela natureza que, assim como as mulheres, vem sofrendo com as constantes explorações. À natureza é retirado o direito de existir, da mesma forma como às mulheres é retirado o direito de estar nas ruas com segurança e bem- estar. As inúmeras intervenções, seja no campo ou na cidade, advindas do desmatamento de florestas para exploração e posterior comércio de madeiras ou para criação de pastos destinados à plantação de grãos e criação animal, realizadas pelas grandes empresas de agronegócio, pecuaristas, madeireiros, etc., ou simplesmente as grandes obras, como construção de viadutos e prédios, realizadas nas grandes cidades, que dentre outras coisas, por exemplo, derrubam árvores para construir asfaltos para veículos automotores ou para criar espaços para construção de grandes empreendimentos urbanos, destruindo a natureza e retirando as sombras e o ar puro que promovem o bem-estar das pessoas e comprometem completamente o nosso ecossistema, contribuem mais ainda com o aquecimento global e com a poluição do ar.
Os lugares então vão tornando-se cada vez mais hostis ao meio ambiente, tal qual são com as mulheres, que sofrem seja com esses males advindos da destruição do meio
15 Trecho retirado do livreto da Marcha das Margaridas de 2015, disponível em:
ambiente, seja com as violências cotidianas a que estão sujeitas. Esse compartilhamento de exploração entre mulheres e natureza é também o que move o ativismo de mulheres em defesa dos seus direitos e da preservação do meio ambiente, assim como fazem as mulheres da Marcha das Margaridas com relação às terras camponesas e pelo combate à violência contra à mulher, ou como as cicloativistas que, dentre outras pautas, promovem o uso da bicicleta como um importante meio que em conjunto com outras ações pode ser bastante eficaz na promoção de um mundo mais sustentável, além de também ser utilizado por elas nas suas lutas por direitos e contra às violências.
O veganismo/ vegetarianismo como estilo de vida também presente no cicloativismo dessas mulheres, são características que, somadas ao contexto anterior explanado, acabam por demonstrar a proximidade entre esses movimentos e suas pautas ecofeministas. Alguns anos depois da primeira Marcha das Margaridas, entre 2011 e 2013 também chegava ao Brasil o movimento conhecido mundialmente como Slutwalk, ou mais especificamente no contexto brasileiro, a Marcha das Vadias (GUEDES, 2015). “O termo ‘vadia’ – traduzido do inglês slut – pejorativamente significa mulher de conduta duvidosa, licenciosa ou, mais vulgarmente, ‘vagabunda’ ou ‘prostituta’ ” (GUEDES, 2015, p. 113).
Figura 2 - Marcha das Vadias
Fonte: Facebook Vigília Feminista | Foto de Flora Negri
O evento reuniu mulheres que saíram às ruas para lutar contra o machismo e a violência sexista, tendo como sua principal bandeira o uso do corpo como ferramenta de protesto e reivindicação. Todos os eventos da Marcha das Vadias foram muito fortes e aconteceram em dezenas de cidades brasileiras, reunindo milhares de participantes, entre 2011
e 2013. Recife, por exemplo, ainda é uma das cidades brasileiras onde a marcha ainda acontece todo ano, entretanto não tem mais a mesma divulgação na mídia, o mesmo alcance, como aconteceu nos primeiros anos.
A marcha aconteceu pela primeira vez em 3 de abril de 2011 em Toronto, no Canadá, em protesto à ocorrência de vários estupros na Universidade de York e em decorrência da declaração de um policial, chamado Michael Sanguinetti, que afirmou durante uma palestra sobre autoproteção na Universidade de Toronto, ocorrida em 24 de janeiro de 2011, que “as mulheres deveriam evitar se vestir como vadias para não serem vítimas” (GUEDES, 2015). A onda de revolta entre as mulheres fez com que elas saíssem às ruas reivindicando “o fim da violência sexual e da culpabilização da vítima, bem como a liberdade e a autonomia das mulheres sobre seus corpos” (GOMES & SORJ, 2014, p. 433).
É importante salientar que apesar de ter fortes características feministas, na primeira edição da Marcha das Vadias tanto no Canadá como no Brasil, as participantes não se identificavam como “feministas”, mas como “femininas”, mesmo que se sentissem contempladas com a proposta da marcha, possivelmente devido a disseminação negativa do termo pelas principais mídias, o que demonstra o desconhecimento por parte das ativistas em relação ao que seria o feminismo. Este cenário modifica-se já na segunda edição, em 2012, quando grande parte das participantes já se identificavam abertamente como feministas, apresentando seus corpos pintados com mensagens carregadas de significados envolvendo sororidade, empoderamento e palavras de protesto (GUEDES, 2015).
As/os participantes lançam mão de roupas sensuais, batom vermelho e topless nas marchas. Palavras de ordem são escritas em seus corpos, como “meu corpo, minhas regras”, “meu corpo não é um convite”, “puta livre”, “útero laico”, “sem padrão”. Pelo artifício da provocação, o corpo é usado para questionar as normas de gênero, em especial as regras de apresentação do corpo feminino no espaço público. Ao mesmo tempo, o corpo é um artefato no qual cada participante procura expressar alguma mensagem que o particulariza (GOMES & SORJ, 2014, p. 437).
Portanto, na Marcha das Vadias, o corpo assume um duplo papel, é objeto de reivindicação da autonomia feminina, mas também é o principal instrumento de protesto das mulheres. Ele transforma-se numa espécie de “corpo-bandeira” à medida em que as ativistas ressignificam o termo “vadia” positivamente relacionando-o diretamente à um caráter de “empoderamento” (GOMES & SORJ, 2014). “O slogan ‘Se ser livre é ser vadia, então somos todas vadias’, comum às marchas de diversas cidades, ilustra esta ideia central (GOMES & SORJ, 2014, p. 437).
Essa discussão em torno do corpo feminino trará influências importantes, conforme veremos mais à frente, para o ativismo das mulheres ciclistas, em especial para o movimento
Pedalada Pelada, que traz essa ideia de fazer do corpo pedalante e frágil em meio aos carros,
um corpo que denuncia essa invisibilidade e essa fragilidade, empoderando-se justamente durante o ato da reivindicação/ denúncia, expondo-se nas ruas, chamando a atenção de todos, através da nudez. Essa prática muito assemelha-se à proposta política da Marcha das Vadias, mesmo que explore além desse, outros temas mais relacionados à mobilidade urbana. Eventos históricos como esse e outros explanados ao longo desse texto, tornam-se centrais para o desenvolvimento de uma tomada alternativa das ruas, sendo o cicloativismo mais uma das várias facetas assumidas pelas lutas de mulheres no cenário contemporâneo. São corpos em aliança que unem-se às bicicletas com o objetivo de fazer a política das ruas (BUTLER, 2018). Uma espécie de corpo-poder (FOUCAULT, 1989) ou corpo-ciborgue (HARAWAY, 2009) forma-se nesse emaranhado de corpo feminino, bicicleta e empoderamento. O corpo-político feminista sobre duas rodas então constrói-se, compartilhando um ativismo que se vê entre a natureza e a cultura, num feminismo que é ecologicamente engajado, mas ao mesmo tempo culturalmente interligado com os movimentos sociais urbanos tão amplamente difundidos nas grandes cidades, seja nas ruas ou nas redes.
A Marcha das Vadias se disseminou por vários países e em diversas regiões do Brasil rapidamente, principalmente, devido aos aportes tecnológicos de uma era pautada no mundo digital, ou seja, as redes foram ferramentas fortemente utilizadas pelos movimentos sociais contemporâneos. “Já em 2012, no segundo ano do advento da Marcha das Vadias, 23 cidades, de todas as regiões do Brasil organizaram protestos usando ferramentas como
Facebook, Twitter, Youtube, blogs e e-mails” (GOMES & SORJ, 2014, p. 437). Para Aronovich
(2011),
(...) a Marcha em si deixa claro que a sexualidade de uma mulher é dela, não é pública, não é do homem ou da sociedade, e que deve ser respeitada. Respeitada de todas as formas, desde não ser julgada (sim, queremos a mesma liberdade sexual a que os homens têm direito) a não ser invadida, seja através de estupros, seja através de “passar a mão” (que, assim como as grosserias verbais na rua, funcionam como uma espécie de terrorismo sexual)16.
A Marcha das Vadias, apesar de ser um movimento internacional, não se configura como uma mera importação das ações realizadas pelas mulheres canadenses, ela se modifica e se recria em cada localidade e a cada momento histórico em que é realizada, além de ser um movimento que vem se transformando inclusive no que diz respeito à legitimidade em incorporar homens e transexuais nas lutas que antes eram majoritariamente formadas por
16 Informação retirada do blog Escreva Lola Escreva: http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2011/06/viva- marcha-das-vadias-ja-reacao-ela.html.
mulheres brancas, cisgêneras e de classe média.
Especialmente no Brasil, a chegada do pensamento feminista internacional sempre sofre modificações, já que, historicamente, conforme já vimos, a prática feminista brasileira sempre esteve mais alinhada às políticas estatais, de cunho mais liberal, enquanto que as propostas do feminismo internacional eram bem mais radicais. Esse radicalismo não era bem aceito pelas brasileiras, ainda influenciadas pelos vários anos de repressão e sufocamento advindos do período da Ditadura Militar. Ao longo dos anos mais recentes, as feministas brasileiras têm começado um movimento em direção às ações mais diretas e populares, ligadas aos movimentos de base, anteriormente mais retraídos e é nesse momento, da Marcha das Vadias em diante, que muitos movimentos sociais irão implodir, sendo um destes o ativismo das mulheres ciclistas. É o momento de colocar o corpo na rua e nisso as cicloativistas encontraram a saída perfeita para reivindicar suas pautas.
Por outro lado, o debate acirrado dentro da Marcha das Vadias é provocado pelo movimento das mulheres negras que não se sentem contempladas na marcha, principalmente, devido ao uso do termo “vadias” que, para elas, dificulta mais ainda a disseminação positiva do corpo da mulher negra. Mulheres negras, que há tantos anos lutam contra a forte simbologia de cunho sexual imposta aos seus corpos por uma sociedade estruturada em relações patriarcais de exploração sexual do corpo negro, não enxergam o corpo nu ou o uso do termo “vadias” como empoderamento.
Com as várias exigências de representação do sujeito mulher, dentro da Marcha das Vadias, essa categoria se apresenta como uma variável sócio-histórica-ideológica. A dicotomia homem/mulher, demarcada fortemente pelo “sexo biológico” em nossa sociedade, não é abordada de forma essencialista pelo movimento, mas socialmente construída e influenciada por vários marcadores sociais da diferença. As novas pesquisas em torno do gênero, em que a Marcha das Vadias se insere, buscam a desessencialização, não procuram mais a compreensão de um sujeito único do feminismo, abrangendo mulheres que não se limitam pelo gênero designado no nascimento, e incluindo questões de representação social, racial, com foco no combate à violência de gênero (GUEDES, 2015, p. 115).
A Marcha das Vadias, portanto, vem com o intuito de romper a dualidade santa/ puta que tanto divide e estigmatiza as mulheres, mostrando que é possível construir significados outros que conduzam a uma sociedade que perceba o corpo feminino para além de meros rótulos, como uma instância de força e empoderamento. Essa performance relacionada ao corpo, trazida pela Marcha das Vadias, irá unir-se com as reivindicações de 2013, ligada aos transportes, para juntas perfazerem o palco de lutas em que se insere o movimento de mulheres cicloativistas na atualidade, colocando na agenda do ativismo político, a liberdade do corpo feminino, o acesso aos espaços públicos, o direito à cidade e a promoção da mobilidade urbana por bicicleta.
especificamente, em março do presente ano, momento em que o país continua a vivenciar um período de grandes manifestações, motivadas agora pelo aumento no valor das passagens do transporte público. Alguns desses protestos foram realizados pelo que ficou conhecido como Movimento Passe Livre (MPL) em maio de 2013, na cidade de São Paulo (HOLLANDA, 2018).
Figura 3 - Movimento Passe Livre
Fonte: Jornal Estadão | Foto de Cris Faga
Figura 4 - Cicloativista reivindicando tarifa zero para o transporte público
Fonte – Instagram BH em Ciclo
Uma das frases de efeito bastante divulgadas pelo movimento na época era “O Gigante Acordou! ”, o que foi recebido por algumas ativistas da Marcha das Vadias como uma ofensa, já que desde muito tempo elas vinham protagonizando o cenário de lutas e manifestações em todo o mundo e agora, uma nova geração política de mulheres estava se